Especial Breaking Bad: “Walt não é Darth Vader”, diz o criador da série, Vince Gilligan

“O mundo de Walt é um lugar obscuro cheio de suspeita e paranoia”, diz ele

Rob Tannenbaum Publicado em 28/09/2013, às 12h14 - Atualizado às 12h17

Vince Gilligan (centro), criador e produtor de Breaking Bad comemora a vitória na categoria Melhor Série Dramática ao lado de Bryan Cranston (à dir.).
Chris Pizzello / AP

Em preparação para o fim de Breaking Bad, que vai ao ar nos Estados Unidos neste domingo, 29, a Rolling Stone preparou um especial com entrevistas com membros do elenco e da equipe. Leia abaixo a de Aaron Paul, o intérprete de Jesse Pinkman. Esse texto pode conter spoilers.

Nos primeiros episódios de Breaking Bad, você estabeleceu imediatamente o quão “emasculado” é Walter White. A esposa serve a ele bacon vegetariano e enche o saco para que ele tome seu remédio. O filho o chama de “bobão”. Seus alunos o ignoram. Seu cunhado machão tira sarro dele. Será que Breaking Bad é, entre outras coisas, um longo exame a respeito do que significa ser homem?

Bom, existe “o que significa ser homem” e existe “o que significa ser um homem para Walter White?". Eu não acho que as duas sejam a mesma coisa. Parte de ser um homem, de fato, é sustentar a família. Mas existe um argumento que precisa ser dito – não faz parte de ser homem fabricar metanfetamina, mentir para sua família e constantemente colocá-la em perigo. Walt tem a chance de ser um homem no quarto episódio da quinta temporada, quando seu ex-sócio se oferece para pagar a quimioterapia dele. Oferecem a ele uma saída que não envolve nada criminoso, não arrisca a vida de sua família e não descumpre a lei. Neste momento, oferecem a ele uma escapatória, mas na cabeça dele isso significa se curvar, aceitar o dinheiro das pessoas que ele acha que o traíram. Ele recusa a ajuda por motivos de ego. Ele basicamente diz: “Não, prefiro fabricar drogas do que aceitar esse dinheiro de graça”.

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Se Walt tivesse aceitado a oferta no episódio quatro, você não poderia sustentar a sua família.

[Risos] Teria sido uma série muito curta.

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Quando assisti novamente à primeira temporada, eu fiquei impressionado com o quão rápido e com o entusiasmo de Walt com a vida de violência e vingança. No quarto episódio, ele põe fogo em um carro. No sexto, depois de explodir o prédio de Tuco, ele faz uma cara de alegria pura. Não é uma transformação lenta. Ele foi tão judiado que fica imediatamente emocionado de estar no poder. Parece até que a maldade dele chega na proporção do grau de repressão que sofria.

Quando o conhecemos, ele parece alguém que foi emasculado e que viveu sua vida como um sonâmbulo. É engraçado, seria correto e fácil argumentar que Walt é um tipo de vítima quando o conhecemos, uma vítima que apanha da vida constantemente, mas acho que ele é uma invenção dele próprio. Anos cedendo a seus medos e nunca correndo atrás das coisas fizeram de Walt quem ele é.

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É totalmente possível que com a primeira temporada você tenha deixado toda uma geração de pessoas com medo de dar aula no colegial.

[Risos] Eu entendo as razões pelas quais diz isso, mas Meu Deus, espero que não. É engraçado, minha namorada já foi professora. Minha mãe também. Eu sinto o maior respeito por professores. Isso seria simplesmente a pior consequência dessa série.

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Fiquei me perguntando se um dos motivos de Walt ter mudado de ideia e ter aceitado passar pelo tratamento é que ele quer continuar fabricando.

Eu acho que tem toda razão. Ele é um cara que fala muito sobre família. "Estou fazendo isso pela minha família. Me sacrifico pela minha família. Quem é que ia gostar de ser traficante? É um emprego terrível. Eu tenho que me humilhar, tenho que perder minha alma, mas estou fazendo isso pela minha família, então tudo bem." Ele acredita que está fazendo tudo pela família. Mas será que está mesmo?

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Você acha que não, certo?

Eu mantenho a opinião de que não. No começo, especificamente quando estava escrevendo o piloto, me preocupava muito com o fato de que Walt não seria alguém de quem o público ia gostar. É engraçado, fiz todo tipo de malabarismo para dar às pessoas motivos para sentir empatia. Estava nervoso - cheio de ansiedade, como de costume –, achando que o que eu estava dizendo no roteiro podia não ser interessante o suficiente para o público. Assistindo ao primeiro episódio... eu provavelmente fiz isso um pouco demais. Olhando para trás, aprendi que as pessoas vão acompanhar um personagem como Walt contanto que ele se mantenha ativo e interessante e seja bom no que faz. As pessoas gostam de competência. O que é que faz as pessoas gostarem de Darth Vader? É o fato de que ele é tão malvado ou será que é porque ele é bom no seu trabalho? Acho que é esta opção. Todos os medos que eu tinha – “meu Deus, ninguém vai sentir empatia por esse cara” – acabaram sendo infundados, o que foi uma revelação bem interessante.

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Você acha que Walt é como Darth Vader?

Não, não acho. Walt é um cara que, na maior parte do tempo, dirige um Pontiac Aztek. Você não consegue imaginar Vader dirigindo um Pontiac Aztek.


Você disse recentemente que é fácil para você escrever a série porque “está em sintonia com ele maluco". Também disse que “perdeu a empatia que sentia por Walter White". Acha surpreendente quantos fãs de Breaking Bad querem que Walt escape depois de tudo que ele fez?

Aqui está um grande exemplo. Recebi um e-mail da minha mãe, depois que ela viu o segundo episódio desta temporada. Ela disse: “Não acredito. Na cena com Hank e Skyler no restaurante, percebi que estava falando alto para Skyler não contar a verdade, para ela mentir e proteger Walt”. Minha mãe crê bastante na lei e na ordem e na bondade, mas ainda assim está alertando Skyler para ela não contar a verdade a Hank. É muito curioso. Realmente é. Eu acho que é relativamente fácil fingir que ele não fez todo aquele mal para sua família e a estranhos, e ainda torcer para ele.

As pessoas que torcem por Walt também torciam contra Skyler quando ela o estava ameaçando. O ódio do público por ela já foi bastante documentado. Eu sei que isso te surpreendeu.

Eu realmente achei surpreendente quando comecei a ouvir a respeito. Conforme ela diz em um episódio, “alguém tem que proteger essa família do homem que protege essa família". Eu percebi que perdi a empatia que sentia por ela quando ela começou a cair na de Walt. No auge do ódio das pessoas a Skyler era quando eu mais a respeitava. Ela estava disposta a fazer qualquer coisa para tirá-lo da vida da família. As pessoas que não gostavam de Skyler estão um pouco mais tranquilas em relação a ela ultimamente porque ela está ajudando Walt. Ironicamente, foi bem aí que eu parei de gostar dela. Eu queria vê-la dizendo não para ele. [Risos] Se bem que se ela simplesmente o entregasse para a polícia, a série teria terminado há muito tempo. Tem sido difícil de equilibrar. Psicologicamente, há o respeito como as pessoas estavam lidando com esses personagens, incluindo a minha própria família, que eu não entendo.

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Falamos de como Walt se sentiu bem quase imediatamente com a violência. Mas Jesse não mata ninguém até o fim da terceira temporada. Walt deixou muito mais sangue pelo caminho, mas é Jesse quem fica arrasado. Ele é uma pessoa melhor que Walt?

Jesse é mais fraco do que Walt, ele constantemente sucumbe às vontades de Walt – o que é ruim para ele, porque ele seria muito mais feliz se conseguisse fugir da órbita do Senhor White. Esse é um trabalho que ele já estava fazendo antes mesmo de Walt, e ainda assim, na minha cabeça, a versão de Jesse de traficar metanfetamina era mais suave e tranquila [risos], e não envolvia tanto sangue – ou qualquer morte, na verdade. Ele parecia mais feliz quando ganhava pouco. Eu acho que todo mundo torce por Jesse, mais ou menos. Ele precisa de um abraço. Ele não nasceu para esta vida. A pior coisa de todas até agora parece ser o assassinato de uma criança inocente, Drew Sharp, o menino morto por Todd na temporada passada. Não parece que ele vá conseguir se recuperar disso.

E ele tenta arrumar um emprego de verdade. Na primeira temporada, ele veste uma gravata e faz uma entrevista de emprego. Pelo menos por um momento ele tenta ser uma pessoa normal.

Mas ele é bem pouco preparado para ser uma pessoa normal. Em vez de arrumar um emprego de cozinheiro [risos], ele lê o caderno de vagas, olha para os salários de iniciante e pensa “ei, é mais ou menos o que ganho como criminoso. Acho que serei um vendedor de imóveis. Não deve ser tão difícil. O que você quer dizer com eu preciso de um diploma universitário?" Ele faz entrevista para um trabalho para o qual ele não era qualificado.

Hank tem tido pistas de que Walt é Heisenberg desde o episódio seis. Ele não juntou as peças até que viu uma pista no fim da primeira parte da quinta temporada. Hank não é meio burro?

Não, acho que nem um pouco. Hank ama o cunhado, mas acha que o cara é um bobão. Ele tem um pouco de pena dele. Hank não acha que Walt seja um homem de verdade. Estava bem embaixo do nariz dele, o que realmente faz as pessoas pensarem que Hank foi burro. Seria difícil perceber de repente que seu cunhado bobão era o mestre do crime de quem você estava correndo atrás por quase um ano.

Mesmo eu sendo um grande fã da série, sinto que você nunca soube bem o que fazer com Walt Jr.

Talvez isso seja verdade. Ele tem sido um personagem fofo, mas sem muito sal. E, pensando bem, como todo mundo no programa vai se corrompendo, os roteiristas e eu gostamos de poder manter Walt Jr. como um oásis de inocência. Eu gostaria que tivéssemos tido tempo de fazer algo mais interessante com Walter Jr., mas acho que não deu.

O final é um grande segredo. E uma das lições dessa série é que é difícil manter um segredo. Para quem você contou?

Ninguém. Minha namorada demonstrou interesse em ler os roteiros e eu deixei, mas não contei para ninguém. Se você é um pintor e você pinta o que acredita ser o seu melhor trabalho, você não quer descrever a pintura para as pessoas. Você não quer dizer "bom, tem muito azul e tem um cara parado no canto segurando uma foice”. Você quer que as pessoas vejam a pintura. Então eu não falaria para alguém como termina porque isso seria roubar a pessoa completamente. Eu nunca entendi a ideia de spoilers, as pessoas que ficam na fila para comprar o último Harry Potter e abrem direto na última página do livro assim que o tem em mãos. Meu momento preferido quando era criança não era a manhã de Natal, era a noite anterior, com a expectativa. Nada nunca é tão bom quanto era na sua imaginação. É assim que funciona. “Eu queria um G.I. Joe e ganhei meias.” [Risos].

Fazer essa série se tornou emocionalmente difícil, em algum momento? Chegou a achar que tinha fuligem na sua alma?

Estou triste que acabou porque sinto falta da equipe e do trabalho. Mas em alguns momentos eu estava ansioso para que acabasse. Walter White é um cara difícil de se ter em mente 24 horas por dia por seis anos. Ele não era uma companhia tão complicada no começo, mas no fim da segunda temporada, quando ele já estava mentindo para a família sem ter que se esforçar e fazendo coisas terríveis, isso começou a afetar a forma como eu via a vida. Você passa a ver o mundo como Walter White vê o mundo e o mundo de Walt é um lugar obscuro, cheio de suspeita e paranoia. Você dirige por uma garagem e pensa “meu Deus, tem alguém esperando para me matar”. Esse é um exemplo exagerado, mas te faz se perguntar como seria escrever para Bob Esponja. Cheguei a pensar “não seria uma benção ter um personagem na minha cabeça que é bom, verdadeiro e honesto?"

Mas isso soa tedioso!

Amamos os vilões, não é? Isso torna ainda mais difícil de se fazer um drama atraente em torno de um cara bonzinho. Eu não sei qual a razão disso. É apenas uma verdade básica a respeito da natureza humana.