Estou aqui, me divirta: um relato sobre o show do Nirvana em São Paulo, em 1993

Confinado em si mesmo, Kurt não deu a mínima pra nós

Pablo Miyazawa Publicado em 16/01/2013, às 08h19 - Atualizado às 12h30

Kurt Cobain sofria com fortes dores de estômago e com o vício em heroína quando veio ao Brasil. Nesta imagem, ele aparece no palco do Hollywood Rock, em 16 de janeiro de 1993, no Morumbi, em São Paulo

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Eu ainda nem 15 anos tinha quando comprei os ingressos para o Hollywood Rock de 1993. O festival prometia, a imprensa dizia, a MTV insistia: Red Hot Chili Peppers e Alice in Chains no primeiro dia, L7 e Nirvana no seguinte. No meu caso, a expectativa estava dividida entre todas as atrações internacionais. Não me recordo, confesso, se havia uma celeuma maior em relação ao Nirvana do que ao Chili Peppers.

Naqueles meados de anos 1990, o "hype" não existia - pelo menos não enquanto conceito. Imagino que 80% da juventude bronzeada que pagou para atravessar os portões do Estádio do Morumbi naquele janeiro estava lá para ver de tudo um pouco, e não apenas uma atração em específico (e creio que a maioria do público, ou grande parte dele, era formado por menores de idade, entre 14 e 17). O que viesse, era lucro. Penso que o Red Hot era até mais popular ali que o Nirvana, pelo menos entre a mulherada. O Alice in Chains tinha o apoio daquela gente encardida vestida de flanela (entre os quais eu me incluía, exceto pela flanela), enquanto o L7 era o fator curiosidade, umas minas roqueiras fazendo arruaça. Todos juntos faziam os ingressos parecerem baratos - e eram mesmo (não lembro quanto custavam, mas não se comparava a esse absurdo que é hoje).

O primeiro dia foi morninho. O Alice in Chains fez um show tecnicamente impecável, climático, porém pouco amigável. O que veio na sequência não melhorou o espírito - já naquela época o Red Hot fazia suas apresentações burocráticas e recheadas de momentos de tédio. O dia seguinte, um sábado, prometia mais agito. Ninguém se dizia cansado.

Em teoria, o grande show daquele Hollywood Rock foi o do L7. Raivoso, cheio de testosterona, ele atingiu a massa grunge em cheio. Lá embaixo, éramos uma só pasta distorcida de suor, pele e cabelos compridos. Lembro que, completamente moído, deixei as primeiras fileiras para assistir ao Nirvana longe da muvuca. Não iria aguentar outro corpo a corpo daqueles.

Talvez, se eu tivesse tido forças para me manter no lugar onde assisti ao L7, minha percepção sobre a apresentação do Nirvana seria hoje diferente. Me posicionei uns bons metros antes da linha que divide o campo (o gramado do Morumbi é enorme), o que hoje em dia seria considerado bem perto. O estádio estava lotado, mas dava para circular tranquilamente. Demorou, mas o Nirvana chegou. Antes, João Gordo apresentou a banda como "a melhor do mundo", ou algo parecido. Naquela época, ele tinha crédito para dizer algo assim e fazer a massa gritar junto. E todo mundo gritou junto. Arrepio.

Empatia com a audiência zero: Kurt Cobain, nem um pouco loiro, não deu muita bola pra gente desde o início. Sem aviso ou boa noite, deu início a uma versão mais barulhenta de "School" (como se isso fosse possível). Não era preciso entender muito de rock ou ter visto muitos shows ao vivo para saber que algo não ia bem. Estava lento. Demais. Me lembro de pensar que não iria curtir se todas as músicas fossem tocadas naquela modorra toda. Lá na grama, nem dava para perceber que não era exatamente proposital: Krist Novoselic e Dave Grohl, em seus papéis de coadjuvantes de Kurt, tentavam no desespero manter a música nos eixos. Mas Kurt, menos band leader possível, não deixava. Estava em outra. Não se comunicava com as dezenas de milhares à frente, nem com os dois parceiros ali ao lado. Era como se não estivesse lá - ou se estava, era como se não quisesse ser visto.

E foi assim pela noite toda. Dizem que o show foi curto, mas me pareceu durar uma eternidade. Perto da porrada oferecida pelo L7 horas antes, aquilo estava chato pra cacete. Não anotei o repertório na hora, vou confessar (ainda não se fazia isso), mas recordo que reparei em algumas de Incesticide, a então recém-lançada coletânea de lados B, e umas do Bleach, alternadas com quase tudo de Nevermind. Todo mundo ansiava por "Smells Like Teen Spirit", e ela veio. E foi horrível. Flea, do Chili Peppers, veio "ajudar" no solo soprando seu trompete, o que resultou na mais absoluta cacofonia. Ri por dentro, associando aquela zona aos ensaios de minha banda de death metal, quando nem sabíamos afinar os instrumentos. Uma coisa não ornava com a outra. O povo ao meu lado xingava o pobre Kurt de nomes feios. A fileira da frente permanecia na maior empolgação. Havia no ar um clima de "algo errado", de vergonha alheia. Para a grande maioria, o show estava ruim porque era por demais imprevisível - tudo podia acontecer a qualquer momento. Em outros tempos, isso seria uma incrível qualidade para uma apresentação ao vivo. Kurt tocou bateria, usou um vestido comprido, derrubou caixas, quebrou a guitarra e entregou de presente para alguém sortudo na plateia. Não passava pela cabeça de ninguém que ali a história estava sendo feita. Era sim, um momento a ser lembrado, pelos motivos certos e errados. Mas duvido que alguém tivesse se dado conta disso ali, estatelado no Morumbi, vendo Kurt... agir como Kurt.

Quando começou a famigerada jam com instrumentos trocados, a paciência se esgotou e muitos se viraram para ir embora. Não fiquei até o fim, lamentavelmente. Não vi "Lounge Act" (minha favorita de Nevermind), nem as três inéditas que só apareceriam em In Utero oito meses depois. Tive que assisti-las na transmissão do show do Rio, pela Globo, na semana seguinte. No Rio, aliás, Kurt causou bem mais. Cuspiu na câmera, simulou masturbação, se fingiu (?) de louco. Ali em São Paulo, nosso herói estava até manso, só chapado em excesso. Não saí de lá xingando Kurt, mas também não saí o adorando mais. Hoje, me arrependo de não ter aproveitado direito aquele momento único.

***O texto acima foi originalmente publicado em abril de 2009.