Eu quero acreditar

Prestes a finalizar a turnê brasileira, Birdstuff, baterista do Man... or Astro-Man?, divaga sobre a vida fora da Terra

Pablo Miyazawa Publicado em 10/05/2012, às 18h59 - Atualizado às 19h04

Birdstuff - Man... Or Astro-Man?
Reprodução/Facebook Oficial

”Estamos felizes de o Brasil querer que a gente volte“, brinca o baterista Brian Teasley, mais conhecido pela alcunha Birdstuff, exatamente um mês antes de embarcar para o país. Um dos membros-fundadores do quarteto norte-americano de surf music espacial Man... or Astro-Man?, ele se reuniu com os antigos companheiros, o guitarrista Star Crunch e o baixista Coco (mais a nova guitarrista, Avona Nova), para a primeira turnê da banda fora dos Estados Unidos em 12 anos - a série de shows que começou no sábado, 5, na Virada Cultural, termina hoje, no Cine Jóia. Mesmo com o cheiro de nostalgia no ar, o músico renega a ideia de “turnê de retorno”. “Eu não quero fazer parte de uma reunião histórica do Man... or Astro-Man?”, diz.

Conhecido pelas performances insanas ao vivo, Birdstuff trata o ambiente do show ao vivo como o principal fator de motivação para a existência e o renascimento do Man... or Astro-Man?, um dos grupos-ícones do “do it yourself” típico da cena indie de guitarras dos anos 90. “Eu já tive minhas frustrações. Havia tempos em que a banda me deixava louco. Mas sou orgulhoso de saber que a gente sempre fez cada show como se fosse o último”, ele diz. “Nunca deixamos de pensar como somos sortudos e gratos de poder fazer isso, tocar na frente das pessoas, de visitar lugares como o Brasil. A gente dizia que se morresse em um acidente de avião, como o Buddy Holly, o Lynyrd Skynyrd, aquele sempre poderia ser o último show de nossas vidas. Então, faríamos o melhor show que fosse possível.”

Leia a primeira parte da entrevista com Birdstuff aqui

O conceito do Man... or Astro-Man? chama muito a atenção. Como vocês o elaboraram – os uniformes, as referências aos filmes de ficção-científica, os apelidos? Você se lembra de quando tudo era apenas uma ideia maluca?

Nós surgimos em uma época – no começo dos anos 90 - em que havia muitas bandas modernas, alternativas, se levando muito a sério - a sério até demais - e não conseguindo apenas se divertir com a música. Acho que fomos uma completa resposta a esse tipo de coisa. A gente nem queria usar nossos próprios nomes, a ideia era apenas nos divertir e, principalmente, nos conectar para valer com as pessoas que curtiam a banda, quebrar regras. Queríamos ser entertainers, fazer nosso show, mas não para nos sentirmos melhores do que qualquer pessoa da plateia. Nem pretendíamos ser levados mais a serio do que outros artistas. Então inventamos um monte de ideias ridículas e começamos a partir daí. É interessante hoje ser bem mais velho e analisar algo que você criou anos atrás. Como deveria ser o Man... or Astro-Man? em 2012? Será que teria de ser como era antes, ou o quê? E isso nem é uma boa maneira de se pensar, porque você corre o risco de se tornar uma parodia de si mesmo. De certa forma é preciso honrar o legado da sua banda, mas ao mesmo tempo você deve ser quem você é na época em que está tocando. A vida é assim.

Em 1999, vocês estavam no auge, viajando por todo o mundo, lançando música nova a cada seis meses. A internet não era tão grande, as pessoas não ligavam tanto para tecnologia, as redes sociais nem existiam. Hoje em dia, do jeito que as coisas são, não seria um momento mais interessante para uma banda como o MOAM existir?

Acho que a maior diferença é.... Olha só, sou dono de uma casa de shows com minha noiva e meu irmão aqui em Birmingham, Alabama, onde eu moro. E uma coisa que eu percebo é a diferença entre as bandas de hoje e as que tocavam há 15, 20 anos. Naquela época, a base de fãs de uma banda crescia lentamente, não existia isso de fãs surgidos apenas a partir do hype, muito por conta da falta da internet. Porque agora… bem, te dou um exemplo. A gente contratou o Vampire Weekend para tocar no meu clube, por muito pouco dinheiro. Eles iriam tocar seis meses depois, fazendo a abertura para o The Walkmen. Nesse espaço de seis meses, mudou tudo: dois dias antes do show marcado, o Vampire tocou no programa Saturday Night Live, o que é algo significativo para uma banda aqui nos Estados Unidos. Tipo, é o tipo de coisa que você jamais conseguiria há 15 anos. Nunca seria possível gerar tanta atenção para uma banda tão rapidamente.

E isso tudo é bom e ruim, de certas maneiras. O ruim é que isso faz o rico ficar rico e o pobre ficar pobre: tem muitas bandas que merecem atenção, e que por qualquer motivo eles não acertam no hype, não são citados pelo blog certo, e ninguém fala sobre elas. Ao mesmo tempo, há outras bandas que chamam muito a atenção. Sabe, na internet existe muita cópia. Algumas pessoas escrevem reviews e várias outras copiam aqueles mesmos textos. Você acha que há diversidade, mas muitas vezes a opinião é bastante homogênea. E nos anos 90, a coisa legal era que você tinha de fazer do jeito old school. Nós crescemos nessa época em que havia bandas que curtíamos e com quem tocávamos juntos, como o Jesus Lizard, o Fugazi, que viajavam o tempo todo e faziam shows matadores. Foi nesse esquema que a gente se inventou.

Quais os fatores principais que foram responsáveis pelas coisas do jeito que são? Me parece que o público de hoje não curte tanto shows de bandas de guitarra, com microfonias, rodas violentas, essas coisas. O que aconteceu com essa cena do rock underground que parecia tão rica nos anos 90? Ao mesmo tempo, nunca gastou-se tanto dinheiro para assistir a grandes shows de rock...

Uma das coisas tristes para mim é que antes você tinha de ir lá, executar muitos shows e fazer por merecer. Você adquiria a sua habilidade. É tocando ao vivo que você se torna realmente bom naquilo. Antes de qualquer coisa, a gente queria ser uma banda para tocar ao vivo. Agora, há bandas que surgiram há menos de seis meses e já recebem boas críticas e muito hype. E já que eles não têm muita experiência na bagagem, não tem como entregar um ótimo show, sendo que já são considerados grandes. E você sabe que há muita banda que dá duro e se esforça para fazer um grande show. Essa é uma das coisas que aconteceram.

Você não lamenta esse tipo de situação?

Sempre vai existir o underground, ótimas bandas. Dito isso, eu não quero soar tão negativo sobre o que está rolando agora, porque acho que vivemos em um “melhor dos tempos/pior dos tempos”. A situação é que hoje há mais bandas boas do que nunca. Mas também há mais bandas ruins do que jamais existiram. Existe boa música disponível como nunca, mas há tantos obstáculos, que fica difícil de descobrir o que é bom. E é por isso que as pessoas apelam para a internet, os blogs, essas coisas. As pessoas imploram, “por favor, me diga o que presta!”. E você acharia que a internet gera diversidade, mas é nesse ponto em que ela se torna homogênea demais. É quando você tem bandas como Vampire Weekend e Fleet Foxes, que ficaram populares tão rápidamente – não que isso seja um problema, é apenas o fato de que hoje o jogo é bem diferente. É que eu sou de um tempo em que tocar ao vivo era tudo o que importava. Eu me lembro de que nos anos 90 as pessoas nem queriam fazer clipes, isso era coisa de banda de rock star. E se você conseguisse um contrato com uma marca como a Nike, ou a Coca-Cola, as bandas desdenhavam você por isso. Atualmente, essa é a primeira coisa que as bandas querem fazer [risos]. Eu não estou criticando ninguém por qualquer coisa que decidam ser boas para suas próprias bandas. É apenas que hoje, culturalmente, é um tempo muito diferente.

Atualmente, quando você quer saber sobre novos artistas, como você faz?

Então, essa é a coisa legal de se ter uma casa de shows: eu vejo bandas cinco ou seis noites por semana. E o melhor disso é poder rever tanta gente com quem eu toquei junto ao longo dos anos. Porque depois do Man... or Astro-Man? eu toquei com um monte de bandas, como o Polyphonic Spree... Entre 1991 e hoje em dia eu devo ter feito uns três mil shows…

Três mil? Que número absurdo.

Sim, com todas as bandas com quem já viajei. E o que é mais legal de se ter uma casa de shows é conseguir ver tanta gente sem nem precisar viajar a maior parte do tempo. É legal sentir que eu não perdi totalmente o contato com tudo.

Nos shows, vocês parecem maníacos. As performances ficaram mais intensas com o tempo, ou isso foi algo que planejaram desde o início? “Vamos enlouquecer no palco e tocar feito doidos?”

Acho que houve momentos na banda em que fomos mais malucos do que em outras épocas. Mas era sempre algo planejado desde o começo - tentar fazer um show legal -, e houve vezes em que a gente tocava agitando muito, e aquilo se conectava muito ao punk rock. Não que a gente tocasse música punk. Repito, eu nunca quis colocar o público em perigo, mas é que não dá para fingir esse tipo de energia. Você tem que ter um nível de “perigo” na performance, em que alguém pode acabar se machucando, pular e quebrar uma perna. Tem que ter esse tipo de coisa, mesmo que raramente aconteça. É quando você vê o Iggy Pop ao vivo: tem alguma coisa que não é segura no jeito em que ele age, e que é simplesmente verdadeiro. Não dá pra fingir aquilo. Porque eu já vi bandas punk de grandes gravadoras, que ficam famosas e têm aquele mesmo jeitão toda noite - dá para saber quando eles vão fazer isso e quando farão aquilo no palco. Parece que tem uma rede de segurança em torno deles. E eu já vi bandas - e toquei em bandas - em que você via e dizia “uau, alguma coisa muito louca, ruim e maluca vai acontecer” [risos].

Explico que a intenção nunca é alguém se machucar, incluindo a gente. Mas é que se você precisa interpretar, então não é algo real. Se você finge que está agitando, então você não está agitando [risos]. Não é algo que dê para fingir. E desde o começo decidimos que faríamos essa coisa muito rápida e cheia de energia, para a partir daí descobrir o que poderia rolar. Para o bem ou para o mal, era sempre uma situação em que estávamos meio que competindo uns com os outros por atenção. Muitas grandes bandas são como máquinas bem preparadas, com todo mundo focado e concentrado em tocar e atuar. Não estou nos comparando, mas o The Who é o tipo de banda que chamava a atenção pela ideia de que estavam todos competindo uns com outros por atenção no palco. E nós somos um tipo de banda que tenta ser coesa, cheia de energia, mas, ao mesmo tempo, estamos tentando superar uns aos outros. Para o bem ou mal, é esse o tipo de coisa que diferencia a nossa banda.

E a nova integrante, como está se saindo?

Então, agora temos uma espécie feminina na banda. O “nome Man or Astro-man” dela é Avona Nova – se você soletrar do fim ao começo é a mesma coisa. Ela é muito boa. É bem legal ter uma mulher no grupo porque adiciona uma energia diferente. E ela é ótima guitarrista então... Quero dizer, não estou falando sobre o fato de ela ser mulher e tocar guitarra, mas a questão é que o elemento surf music é muito forte na banda, com o foco nas guitarras. Você vê o Star Crunch ao vivo, e ele toca muito. E é muito legal ver todos juntos no palco, porque faz o público se ligar que tem uma mulher no palco quebrando tudo tanto quanto a gente. Estamos muito empolgados. É a primeira vez em que a gente faz turnê fora dos Estados Unidos em 12 anos. Na verdade, a gente foi uma vez pra Espanha, mas foi só um único show. Então, o Brasil é um lugar importante para a gente estar, é um lugar que está perto de nossos corações, com certeza. Estou empolgado em voltar, e também em poder comprar um monte de discos.

Mudando de assunto, mas falando sobre o principal tema da banda: os orçamentos para pesquisas espaciais estão cada vez menores, a NASA investe menos em pesquisas, os filmes sobre ficção-científica são mais raros. As pessoas não se interessam mais pelo espaço? Você acha que as novas gerações não querem saber o que há lá fora?

Acho que é porque a antiga corrida espacial começou após a Segunda Guerra Mundial, com a União Soviética e a América dividindo aqueles montes de tecnologia alemã. Imagino que a principal utilização dessa tecnologia tenha sido de cunho político, o que torna isso um subproduto da Guerra Fria. Então, eu não sei se o homem já foi mesmo para a Lua, ou se a Rússia estava simplesmente competindo contra os Estados Unidos e vice-versa. Foi algo muito sério para o [presidente John] Kennedy dizer em 1961 que colocaria um homem na Lua até o fim da década. E você vê toda aquela tecnologia que vinha da NASA e muita coisa nós não teríamos hoje por causa da estrutura criada para colocar o homem na Lua...

Dito isso, depois da empolgação de ir para lá seis ou sete vezes, a coisa esfriou, houve um declínio social grande nos Estados Unidos. Nos anos 70, rolou uma deterioração urbana, coisas do tipo. O Gil Scott-Heron fez uma música chamada “Whitey on the Moon”, que basicamente fala sobre todas as coisas que estão rolando na cidade enquanto “um bando de brancos andava pela lua”. E essa mensagem se tornou um tipo de perspectiva para muita gente. Hoje, já passou tantos anos daquela conquista e há tanto mais para se ocupar o tempo, redes sociais, videogames e tudo o mais. Acho que o que deveria acontecer em relação ao espaço – e é essa é só minha opinião, eu não sei de nada – são coisas sérias, como uma estação lunar de verdade, ou uma missão para Marte. Tem que ser algo novo. Ir para a Lua, viajar em um foguete? Acho que as pessoas não ligam mais pra isso, porque já aconteceu tanto. Para reforçar o interesse sobre o assunto, acho que só mesmo indo para Marte. Para reacender a curiosidade das pessoas. Há um infinito de coisas para ser aprendido no espaço, mas é infinitamente mais importante o fato de que ainda há gente que não consegue alimentar as próprias famílias. E isso é algo perfeitamente compreensível. Voltando pro Gil Scott-Heron, a NASA está cancelando suas missões e o programa espacial está em um patamar tão baixo que um dia, ouvindo essa música, eu levantei e brinquei que o disco deveria se chamar Whitey is not on the Moon ["o branquelo não está na lua"]. Porque é algo triste que ninguém está fazendo mais nada no espaço. Mas espero que isso venha a mudar.

Parece besteira perguntar isso para você, mas acredita em vida fora da Terra?

Sabe… bem… [hesita]. Obviamente que eu preciso responder “sim”, afinal, somos alienígenas. Mas, fora isso, na minha própria conjuntura, além do Man or Astro-man e os terrestres... Eu acredito que exista um reino infinito de possibilidades para vida. E pode até ser uma forma de vida que a gente não perceba em nosso espectro. Mas tem que haver algo. É possível a existência de universos dentro de nanomoléculas, um mundo inteiro existindo na ponta da sua unha. Coisas assim. Acho que é uma boa razão para se tentar explorar esses territórios desconhecidos, porque quanto mais aprendemos sobre o universo, maior é a tendência de compreendermos mais o mundo, o universo e as pessoas que nos tornamos. Acho que a descoberta e a exploração, nesse caso, representam a manutenção de uma intenção forte e positiva para com a sociedade.

Man... or Astro-Man?

10 de maio, às 22h

Com a abertura da banda Dead Rocks

Cine Joia - Praça Carlos Gomes, 82 – Liberdade

Informações: Cinejoia.tv

Telefone: (11) - 3231.3705