EXCLUSIVO: Bia Ferreira põe em evidência o contraste do feminismo negro no clipe "De Dentro do AP"

Com uma produção exclusivamente feminina, Bia reflete sobre o movimento feminista e a representatividade da mulher negra no país

Nicolle Cabral Publicado em 26/04/2019, às 11h28

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Bia Ferreira (Foto: Sabryna Murali)

Com seu sotaque soul e violão, Bia Ferreira retoma a atenção para autoestima negra e os contrastes da narrativa dentro do movimento feminista no seu mais novo clipe "De Dentro do AP". O lançamento precede o álbum de estreia, Um Chamado, que sairá em maio.

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Com exclusividade para a Rolling Stone Brasil, a cantora lança o seu clipe, idealizado pela LABA-LABA comunicação, Coletivo Fuligem e apoio da MANDALA FILMES.  O videoclipe, que ganhou vida nas mãos de mulheres, tem um elenco exclusivamente negro e abre espaço em sua obra para Thata Alves, que declama sua poesia, e ressalta o cotidiano das mulheres pretas em uma sociedade consumida pelo patriarcado.

"O dinheiro da pensão não paga ausência. (...) O desespero é tanto que chora filhos de um lado, e a mãe lá... no outro canto, no entanto, tem um tanto de roupa no tangue para exercer, tem a matéria dos seus filhos para resolver, tem o almoço para fazer, tem que providenciar a mistura para comer. Já pagou conta de água, de luz, telefone, mas agora chega a conta da TV, deu o horário de levar os meninos para escola, aproveita pega uma sacola, passa no mercado acabou o leite, o achocolatado, ai meu deus, o agasalho não serve mais."

Na sequência, Bia entra em cena e reflete sobre a linguagem do movimento feminista e desmascara o discurso quando pautado por uma realidade vazia:

"Quantas vezes cê parou pra perguntar o nome / 
E pra falar sobre seu ativismo? /
Quando foi que cê pisou na minha quebrada, pra falar sobre o seu /
Fe-mi-nis-mo?"

O recorte feito em "De Dentro do AP" é fundamental para o entendimento das disparidades da realidade habitada por uma mulher negra e uma mulher branca, como apresenta o verso:

"E nós? As muié preta nós só serve pra vocês mamar na teta /
Ama de leite dos brancos /
Sua vó não exitou, quando mandou a minha lá pro tronco"

A cantora e compositora sergipana faz da sua música o palco para as suas demandas e se apresenta na cena da música brasileira como MMP: Música de Mulher Preta. Ela retoma o debate do feminismo, mas principalmente, entoa o contorno dentro do movimento para discutir as questões sobre racismo.

Com bases femininas e negras, a produção da cantora foi gerida por um grupo de mulheres. As diretoras Ellen Faria e Sabryna Murali comentam sobre a elaboração do projeto: O "De Dentro do Ap" é um abraço em cada mina preta que tá no corre, dia a dia, fazendo história, dia a dia, fazendo a vida virar filme”, diz Murali.

A artista trabalha com música desde os 15 anos de idade e está em ascensão na música independente brasileira propagando a luta do anti-racismo no país. Em "Cota Não É Esmola", Bia perturba o discurso racista com os seus versos claros, fortes e didáticos: 

"E os amigos que riem dela todo dia / 
Riem mais e a humilham mais, o que você faria? / 
Ela cansou da humilhação e não quer mais escola / 
E no natal ela chorou, porque não ganhou uma bola /
O tempo foi passando e ela foi crescendo /
Agora la na rua ela é a preta do suvaco fedorento /
Que alisa o cabelo pra se sentir aceita / Mas não adianta nada, todo mundo a rejeita."

Assista aqui o clipe "De Dentro do AP": 

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