Fã de Marquês de Sade e Milo Manara, Chico César lança coleção de versos pornográficos

"Quero colocar esse livro na boca das mulheres", diz o músico

Estefani Medeiros Publicado em 06/02/2016, às 11h46 - Atualizado às 16h02

Chico César segue questionando

Chico César quer colocar a poesia erótica na boca das mulheres. O músico paraibano lançou recentemente Versos Pornográficos, coleção de poemas ilustrados pela artista húngara Sári Szántó e publicada pela Confraria do Vento. Nos últimos dez anos, o músico se inspira nas calorosas noites de João Pessoa para colocar no papel fantasias secretas.

Uma das mulheres interessadas no livro foi a cantora Maria Bethânia, que disse ao jornal O Globo, que estava "alucinada pelas poesias eróticas" de César. "É lindo demais", comentou.

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À Rolling Stone, César conta que é fã do quadrinista italiano Milo Manara. "Também li Juliette, do Marquês de Sade. O universo deles é cheio dessas referências pornô, gosto muito. Mas há coisas interessantes na literatura brasileira também, como a Adelaide Carrara. Ela escrevia contos sobre a classe média alta no Brasil na década de 1970, é como se fosse um Nelson Rodrigues mais trash, mais pesado", explica. Outra referência são os catecismos de Carlos Zéfiro: "Adorei quando Marisa Monte o colocou na capa de Barulhinho Bom."

Débora, Amanda e Cristina são alguns nomes das musas imaginárias de César, que dão título e inspiração para os poemas. "São mulheres idealizadas, não são mulheres reais, é parte da experiência. Fernando Pessoa já dizia que o poeta mente sobre o que deveras sente, né?" Em um trecho da introdução, o artista convida: "Cara leitora / Imagino-te lendo o que escrevo / Botão desabotoa / Flor deflora / Desfruta a fruta: é de minha natureza."

Para ele, o rótulo pornô foi uma decisão baseada na ideia de que a sexualidade deve ser construída com mais liberdade. "Acho que é bom a gente dar nome aos bois e entrar nesse território com mais vontade, mais desejo, mais força e não esconder um lado nosso que é tão importante, que é essa pulsão erótica", explica. "Isso tem muito a ver com a alegria de viver, com a animação."

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O músico acredita que a sexualidade do brasileiro é uma eterna contradição. "No geral, o brasileiro é muito aberto, temos os índios que sempre andaram nus, também temos os africanos na nossa formação, e isso é muito forte", explica. "Por outro lado, a gente tem um surto de conservadorismo muito grande, como se quisessem tomar de volta as conquistas da liberação sexual, das mulheres, dos homossexuais. Sinto que há um falso moralismo."

Chico César, que lançou em 2015 o álbum Estado de Poesia, diz que o livro é destinado a pessoas que conseguem se deixar levar pelo erotismo escrito. "É um caminho bem diferente, as pessoas me conhecem por causa das canções de amor, por canções mais sérias e combativas", diz. "Mas todos temos essa parte libidinosa, algo que você não precisa exibir socialmente o tempo inteiro, mas que é legal assumir que existe."

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Lançado em outubro, Versos Pornográficos é lido por senhoras que fazem recitais com poemas eróticos em cidades como Espírito Santo e Rio de Janeiro. "Quero colocar esse livro na boca das mulheres, dessas senhoras, é bonito de ver. A poesia é livre", comenta. Para ele, a proposta é promover uma "sexualidade mais autônoma e dar poder à construção da sexualidade."