“Faço música para que o tempo passe mais devagar”, diz Andrew Bird

Músico chega a São Paulo com show que promete abranger toda sua carreira

Pedro Antunes Publicado em 22/02/2013, às 17h53 - Atualizado às 19h30

Andrew Bird
Divulgação

Ao longo de 17 anos de estrada, o multi-instrumentista Andrew Bird acredita ter se transformado em uma espécie diferente – seja por meio do darwinismo, seja pela mutação genética, como com os personagens de X-Men. “Quando se passa fazendo shows todas as noites, seu corpo começa a se adaptar. É como se nos tornássemos um animal diferente”, diz o músico, que, apesar do longo tempo de carreira, veio ao Brasil pela primeira vez neste mês, via crowdfunding. Depois de passar por Rio de Janeiro (21 de fevereiro) e Florianópolis (22), o músico chega a São Paulo, neste sábado, 23, no Cine Joia.

“Mas não me entenda mal, não estou reclamando”, continua rapidamente o mutante Bird. A estrada, diz ele, enfraquece, combate os anticorpos com infecções e gripes. Em 2011, ele viu essa rotina sendo exposta no documentário Fever Year, estreia da diretora Xan Aranda, cuja tradução em português seria algo como Ano da Febre. “Olha, poderíamos dizer que é uma década febril”, brinca Bird. Ainda que reservado, toques de humor despontam aqui e ali.

Ele conta que não gostou muito do filme. “Acho que estou sério demais”, diz. “Era para ser um filme sobre o show, mas acabou virando um documentário. Não era o que eu queria, mas foi o que aconteceu. Estou muito intenso lá. Eu não gostava desse filme, mas agora eu consigo lidar com ele.” Há, contudo, pelo menos uma passagem memorável, na qual ele e Annie Clark, também conhecida como St. Vincent, tocam juntos em um quarto de hotel. O documentário, narrado pelas entrevistas de Bird, entrou nas seleções do júri de festivais de cinema de Vancouver, Nova York e Denver.

A sétima arte, aos poucos, parece ser um novo e instigante caminho a ser seguido. E não necessariamente com o rosto de Bird na tela. Além de ter suas músicas em trilhas de alguns filmes de gosto duvidoso, como Tá Rindo do Que?, Corram Que o Agente Voltou e Amor a Toda Prova, ele fez um trabalho especialmente voltado para o filme Norman (2010), de Jonathan Segal. O drama independente conta a história de um adolescente que encontra um amor no mesmo período de tempo em que o pai fica bastante doente e a mãe morre. Bird assina toda a trilha da trama, acentuando os momentos de emoção, densos e alegres.

A experiência foi chocantemente nova para o músico, acostumado desde o início a ser um artista independente e livre para bater as asas para onde e como quiser. “No filme, não é assim. Você serve a alguém, ao diretor, neste caso. Você precisa estar abaixo do filme, não pode chamar muita atenção para a música”, diz ele, que segue um caminho que ultimamente tem sido bastante proveitoso para Trent Reznor, do Nine Inch Nails, ganhador do Oscar pela trilha sonora de A Rede Social. “Foi uma boa experiência, que ainda não consegui repetir, infelizmente”, avalia.

Como em um filme

Andrew Bird faz uma pausa, como que para processar uma nova percepção que lhe veio à mente. “Sabe, quando era criança, era isso [cinema] que eu queria fazer quando crescesse”, reflete. Talvez esse seja o motivo de as letras se montarem, na cabeça dele, na forma de pequenos curtas-metragens. “Tudo em filme de 35 mm, filmado por aquelas câmeras Super 8. É assim que tudo aparece para mim”, completa.

Nos rolos de filme de Bird, as cores são vivas e borradas, mas em paisagens bucólicas, solidárias e campestres, embaladas por indie folk e uma voz delicada acompanhada por belas melodias no violino. É um ambiente em que Bird gosta de estar quando vai compor. “De preferência, um lugar grande, com pé-direito alto”, detalha ele, que se mudou para um sítio a três horas de carro de Chicago, em Western Illinois, em 2002. Lá, ele possui um grande celeiro, vermelho e imponente entre a grama verde que o rodeia. “E acho o ambiente muito importante. Dali eu consigo ver a tempestade chegando. Faço música para tentar fazer o tempo passar mais devagar”, teoriza.

E foi em 2012, dez anos depois de Bird ter se mudado para lá, que ele conseguiu gravar um disco naquele espaço. Depois do álbum de inéditas Break it Yourself, Bird quis aproveitar que a banda ainda estava aquecida por causa da turnê para gravar mais um disco, Hands Of Glory , um trabalho que flui com o show ao vivo, gravado com os músicos tocando juntos, rodeando um mesmo microfone. O repertório vai de covers de antigas referências a regravações de músicas dele próprio, como “Orpheo Looks Back”, presente nos dois discos do ano passado. “Adorei essa oportunidade de poder fazer uma música de novo. Uma música passa por múltiplas versões e estilos até chegar ao disco.”

Para a versão em Hands Of Glory , a faixa ganhou apenas o nome de “Orpheo”, sendo mais seca e dolorida. “Tentamos várias vezes, com banda”, explica ele. “Queria que tivesse uma energia de bluegrass. E então fomos beber. Voltamos ao celeiro de madrugada, somente eu e o Alan [Hampton, baixo e backing vocal]. Estávamos de ressaca, cansados, bêbados. E soou exatamente como deveria ser. Meio grogue, com aquele sentimento de ‘a festa acabou’.”

Este foi um ano extremamente produtivo para Bird, que depois dos dois álbuns, caiu na estrada sem parar. Com a chegada à América Latina, mais um ciclo evolutivo dele chega ao fim. Cheio de manias, o músico começa as turnês recheando o show com o material mais recente e, com o passar das apresentações, vai acrescentando canções antigas, dos tempos da velha banda, o Bowl of Fire, e covers e mais covers. “Depois de tanto tempo tocando, eu preciso voltar ao básico, entende?”, explica. Com isso, o show atual tem um caráter mais contemplativo e com um alcance maior por toda a carreira do músico – e de suas referências. “Ouvir e cantar essas músicas me lembra como a música deveria me fazer sentir. Só depois disso, eu estou hábil a compor de novo.” Um ciclo chega ao fim. Bird está pronto para uma nova mutação – e não se sabe para onde ela vai levá-lo.

Andrew Bird em São Paulo

Sábado, dia 23 de fevereiro, à 0h

Local: Cine Jóia – Praça Carlos Gomes, 82 – Liberdade – São Paulo.

Ingressos: R$ 160 (R$ 80 a meia entrada)

Informações: 11 3231-3705 ou no site oficial da casa