Farra (e revolta) eletrônica

Público da Campus Party participa de imersão tecnológica - e se ofende com as letras da banda carioca LEME

Por Bruna Veloso Publicado em 23/01/2009, às 21h37

A LEME sofreu com as vaias do público da Campus Party

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Entre computadores, robôs e palestras, os participantes do evento de tecnologia Campus Party 2009 também têm a opção de assistir a shows, performances e até uma peça de teatro - tudo ao vivo, sem intermédio de telas de computador.

Na noite da última quinta-feira, 22, a primeira atração musical foi a banda LEME, do Rio de Janeiro. Por volta das 22h20, uma gritaria parecia anunciar o início do show; engano: um dos participantes derrubou água em um computador.

O público (que conta com 2,3 mil pessoas acampadas dentro do espaço) parecia estar cansado por conta das atividades "eletrônicas" realizadas durante o dia. Depois de quinze minutos de apresentação, De Leve, Flu e Luciano tocavam suas músicas - com pitadas de conotação sexual nas letras, suingue na guitarra e batidas de funk carioca - para, no máximo, 30 pessoas. Enquanto isso, quem dormia sentado em pufes, com laptops no colo, ou aproveitava a internet ultra-rápida de 10 gbps para baixar filmes e afins não parecia prestar muita atenção.

"Os rótulos estão caindo. Há um movimento pós-nerd: não é porque você gosta dessas coisas [de tecnologia] que vai ficar de fora do mundo", diz Yves Albuquerque, 24. Acampado na feira desde segunda, 19, o carioca era um dos poucos que ouvia - e esboçava passos - o começo do show da LEME. Daniel Vilarreall, 18, aguardava o número ao lado de uma amiga, envolto em um cobertor. Não se animou a levantar quando a banda começou a tocar, e admite que "tem um lado nerd, mas não 'fissurado'". Enquanto esperava pela chegada da banda, seu computador permanecia ligado, fazendo downloads.

O pequeno palco onde acontecem os shows fica dentro da área reservada aos campuseiros (apelido dado a quem pagou a taxa de inscrição que dá acesso às apresentações e oficinas), no meio de um enorme salão, onde a visão é um mar de telas e gabinetes de computador de variados formatos. Entre as bandas que passaram por ali estão Teatro Mágico e Baque Bolado, além dos DJs Lalai e Lúcio Morais.

A revolta

A manifestação dos "nerds", como são chamados por aqueles que rotulam os amantes, neste caso, da tecnologia, vai se espalhando aos poucos. Começam vaias esparsas, um gritinho aqui e ali de "Fora!". Alguns, mais rebelados, agitam suas cadeiras no ar. Em questão de minutos, todos se põem contra a banda. O verso "pega seu diploma e limpa sua bunda", da faixa "Diploma", causa comoção, e à platéia de 30 pessoas unem-se mais algumas dezenas, reivindicando o fim do show.

Enquanto se ouve um cabeludo bradar "Como é que botam pra tocar um negócio desses pra um monte de gente inteligente?", e outro moço afirmar que "a questão não é inteligência, mas qualidade musical", um rapaz com chapéu de chifrinhos grita com o vocalista, pedindo explicações. Chamando de "incidente" o clamor do público pela saída do grupo, De Leve põe fim ao show. Se fosse uma festa, muita gente botaria a culpa em um nível elevado de álcool - mas na Campus Party não é permitido beber ou fumar (apesar de se verem bitucas no chão).

A apresentação termina com uma representante da Campus Party pedindo calma, "não violência" e avisando que a próxima atração seria a peça teatral "Deus é um DJ". E tudo volta ao normal: a maioria retorna a seus computadores.

A música na Campus Party

Neste ano, a perna brasileira do maior encontro relacionado à internet no mundo inaugurou quatro novas áreas: Vídeo, Design, Fotografia e Música. Em cada uma delas, acontecem palestras, oficinas e uma constante troca de idéias entre os participantes.

Nesta mesma quinta-feira, um debate sobre o mercado musical e as novas relações comerciais no mundo fonográfico movimentou a área, com uma discussão aberta, tomando como ponto de partida o livro digital O Futuro da Música Após a Morte do CD (que você baixa, gratuita e legalmente, clicando aqui). Irineu Franco Perpetuo, um dos organizadores da obra, diz que o debate vai além: "Daqui a pouco a gente vai discutir o futuro depois da morte do HD, porque numa situação ideal, nem existiria download: tudo seria de acesso livre, bastaria ligar o computador."

DJs também foram conhecer a área de música da CP. Novos programas de mixagem são assunto entre os profissionais, que além de buscarem novas ferramentas, usam a feira para fazer contatos. "Estou tendo oportunidades incríveis. Até consegui um espaço para tocar sábado à noite aqui no palco, na festa de encerramento. E vou dar uma palestra no sábado de manhã", anima-se Leandro Rossi, 25, produtor.

O evento

A Campus Party foi criada em 1997, na Espanha, e teve sua primeira edição brasileira em 2008. Na área Expo, entre as atrações que chamam a atenção, está o Eboman. Vestido com um macacão de sensores, o holandês é um DVJ - uma mistura de DJ e VJ. Em tempo real, manipula sons e imagens gravados na hora, e, por meio de movimentos com o corpo, cria músicas e imagens. Uma de suas "peças" eletrônicas misturou vozes do público a uma música do game LittleBIGPlanet.

No espaço Batismo Digital, quem não tem muita intimidade com o computador aprende a lidar com a máquina (a área 1.0 é reservada para o aprendizado de noções básicas; na 2.0, o conteúdo da oficina é direcionado à internet e ao uso de redes sociais).

Esta edição, que contou com a participação de nomes ilustres, como Gilberto Gil e Tim Berners-Lee, o criador da web, termina neste domingo, 25. Há ingressos gratuitos para a área Expo, com 12 mil metros quadrados, onde estão estandes e instalações interativas. No entanto, a área reservada aos "campuseiros" já não tem entradas disponíveis.

Campus Party

Para visitantes: 20 a 25 de janeiro, das 10h às 22h

Centro de Exposições Imigrantes - Rodovia dos Imigrantes, km 1,5

Área Expo: grátis

Estacionamento: R$ 20

Informações: www.campusparty.com.br