Rolling Stone Brasil
Busca
Facebook Rolling Stone BrasilTwitter Rolling Stone BrasilInstagram Rolling Stone BrasilSpotify Rolling Stone BrasilYoutube Rolling Stone BrasilTiktok Rolling Stone Brasil

Farra (e revolta) eletrônica

Público da Campus Party participa de imersão tecnológica - e se ofende com as letras da banda carioca LEME

Por Bruna Veloso Publicado em 23/01/2009, às 21h37

WhatsAppFacebookTwitterFlipboardGmail
A LEME sofreu com as vaias do público da Campus Party - Lucas Lima
A LEME sofreu com as vaias do público da Campus Party - Lucas Lima

Entre computadores, robôs e palestras, os participantes do evento de tecnologia Campus Party 2009 também têm a opção de assistir a shows, performances e até uma peça de teatro - tudo ao vivo, sem intermédio de telas de computador.

Na noite da última quinta-feira, 22, a primeira atração musical foi a banda LEME, do Rio de Janeiro. Por volta das 22h20, uma gritaria parecia anunciar o início do show; engano: um dos participantes derrubou água em um computador.

O público (que conta com 2,3 mil pessoas acampadas dentro do espaço) parecia estar cansado por conta das atividades "eletrônicas" realizadas durante o dia. Depois de quinze minutos de apresentação, De Leve, Flu e Luciano tocavam suas músicas - com pitadas de conotação sexual nas letras, suingue na guitarra e batidas de funk carioca - para, no máximo, 30 pessoas. Enquanto isso, quem dormia sentado em pufes, com laptops no colo, ou aproveitava a internet ultra-rápida de 10 gbps para baixar filmes e afins não parecia prestar muita atenção.

"Os rótulos estão caindo. Há um movimento pós-nerd: não é porque você gosta dessas coisas [de tecnologia] que vai ficar de fora do mundo", diz Yves Albuquerque, 24. Acampado na feira desde segunda, 19, o carioca era um dos poucos que ouvia - e esboçava passos - o começo do show da LEME. Daniel Vilarreall, 18, aguardava o número ao lado de uma amiga, envolto em um cobertor. Não se animou a levantar quando a banda começou a tocar, e admite que "tem um lado nerd, mas não 'fissurado'". Enquanto esperava pela chegada da banda, seu computador permanecia ligado, fazendo downloads.

O pequeno palco onde acontecem os shows fica dentro da área reservada aos campuseiros (apelido dado a quem pagou a taxa de inscrição que dá acesso às apresentações e oficinas), no meio de um enorme salão, onde a visão é um mar de telas e gabinetes de computador de variados formatos. Entre as bandas que passaram por ali estão Teatro Mágico e Baque Bolado, além dos DJs Lalai e Lúcio Morais.

A revolta

A manifestação dos "nerds", como são chamados por aqueles que rotulam os amantes, neste caso, da tecnologia, vai se espalhando aos poucos. Começam vaias esparsas, um gritinho aqui e ali de "Fora!". Alguns, mais rebelados, agitam suas cadeiras no ar. Em questão de minutos, todos se põem contra a banda. O verso "pega seu diploma e limpa sua bunda", da faixa "Diploma", causa comoção, e à platéia de 30 pessoas unem-se mais algumas dezenas, reivindicando o fim do show.

Enquanto se ouve um cabeludo bradar "Como é que botam pra tocar um negócio desses pra um monte de gente inteligente?", e outro moço afirmar que "a questão não é inteligência, mas qualidade musical", um rapaz com chapéu de chifrinhos grita com o vocalista, pedindo explicações. Chamando de "incidente" o clamor do público pela saída do grupo, De Leve põe fim ao show. Se fosse uma festa, muita gente botaria a culpa em um nível elevado de álcool - mas na Campus Party não é permitido beber ou fumar (apesar de se verem bitucas no chão).

A apresentação termina com uma representante da Campus Party pedindo calma, "não violência" e avisando que a próxima atração seria a peça teatral "Deus é um DJ". E tudo volta ao normal: a maioria retorna a seus computadores.

A música na Campus Party

Neste ano, a perna brasileira do maior encontro relacionado à internet no mundo inaugurou quatro novas áreas: Vídeo, Design, Fotografia e Música. Em cada uma delas, acontecem palestras, oficinas e uma constante troca de idéias entre os participantes.

Nesta mesma quinta-feira, um debate sobre o mercado musical e as novas relações comerciais no mundo fonográfico movimentou a área, com uma discussão aberta, tomando como ponto de partida o livro digital O Futuro da Música Após a Morte do CD (que você baixa, gratuita e legalmente, clicando aqui). Irineu Franco Perpetuo, um dos organizadores da obra, diz que o debate vai além: "Daqui a pouco a gente vai discutir o futuro depois da morte do HD, porque numa situação ideal, nem existiria download: tudo seria de acesso livre, bastaria ligar o computador."

DJs também foram conhecer a área de música da CP. Novos programas de mixagem são assunto entre os profissionais, que além de buscarem novas ferramentas, usam a feira para fazer contatos. "Estou tendo oportunidades incríveis. Até consegui um espaço para tocar sábado à noite aqui no palco, na festa de encerramento. E vou dar uma palestra no sábado de manhã", anima-se Leandro Rossi, 25, produtor.

O evento

A Campus Party foi criada em 1997, na Espanha, e teve sua primeira edição brasileira em 2008. Na área Expo, entre as atrações que chamam a atenção, está o Eboman. Vestido com um macacão de sensores, o holandês é um DVJ - uma mistura de DJ e VJ. Em tempo real, manipula sons e imagens gravados na hora, e, por meio de movimentos com o corpo, cria músicas e imagens. Uma de suas "peças" eletrônicas misturou vozes do público a uma música do game LittleBIGPlanet.

No espaço Batismo Digital, quem não tem muita intimidade com o computador aprende a lidar com a máquina (a área 1.0 é reservada para o aprendizado de noções básicas; na 2.0, o conteúdo da oficina é direcionado à internet e ao uso de redes sociais).

Esta edição, que contou com a participação de nomes ilustres, como Gilberto Gil e Tim Berners-Lee, o criador da web, termina neste domingo, 25. Há ingressos gratuitos para a área Expo, com 12 mil metros quadrados, onde estão estandes e instalações interativas. No entanto, a área reservada aos "campuseiros" já não tem entradas disponíveis.

Campus Party

Para visitantes: 20 a 25 de janeiro, das 10h às 22h

Centro de Exposições Imigrantes - Rodovia dos Imigrantes, km 1,5

Área Expo: grátis

Estacionamento: R$ 20

Informações: www.campusparty.com.br