Fats Domino, pioneiro do rock and roll, morre aos 89 anos

O brilhante cantor de “Blueberry Hill” e “Ain't That a Shame” ajudou a popularizar o gênero em sua forma inicial

Rolling Stone EUA Publicado em 25/10/2017, às 13h31 - Atualizado às 19h17

Fats Domino, cantor, compositor, pianista e pioneiro do rock and roll mundial
AP

Fats Domino, um símbolo da ascensão do rock and roll e a voz por trás de hits eternos como “Blueberry Hill” e “Ain't That a Shame”, morreu no última terça-feira, 24, aos 89 anos de idade. Mark Bone, oficial da polícia de Louisiana, nos Estados Unidos, confirmou a morte à Associated Press.

Contemporâneo de Elvis Presley, Chuck Berry e Jerry Lee Lewis, Domino esteve entre os primeiros artistas a entrarem no Hall da Fama do Rock and Roll e foi supostamente a segunda força em termos de venda – atrás apenas de Presley –, graças ao assustador feito de ter 11 hits entre as dez músicas mais vendidas do país entre 1955 em 1960.

De Led Zeppelin até Vladimir Putin: músicas de Fats Domino nas vozes de admiradores do cantor

Estes hits, que também incluem “I’m Walkin’”, “Blue Monday” e “Walking to New Orleans”, soavam como nada que havia sido feito anteriormente. Graças a criação dele em Nova Orleans, nos Estados Unidos, as músicas mais características de Domino fundiram ritmos dixieland – um subgênero do jazz –, uma voz charmosa e um estilo de piano acelerado.

Os hits, a maioria deles cocompostos com o produtor e parceiro de longa data, Dave Bartholomew, tornaram-se clássicos do rock, rendendo covers por Led Zeppelin, Cheap Trick, Randy Newman, Ricky Nelson e John Lennon, entre outros. Lennon, que recriou “Ain’t That a Shame” (originalmente chamada “Ain’t It a Shame” nas gravações de Domino) no disco Rock & Roll (1975), disse que a música tinha um significado especial para ele: foi a primeira faixa que quis aprender a tocar na vida, em um violão comprado para ele pela finada mãe. “Foi a primeira música que eu pude acompanhar sozinho”, ele disse em 1975. “Traz muitas memórias para mim.”

Carreira

Nascido em 1928, Antoine Domino tocava piano e se apresentava em bares tipo honky tonky em Nova Orleans quando era adolescente. Aos 14 anos, ele largou a escola no ensino médio, aceitando empregos em fábricas e como limpador de gelo das ruas, entre outras coisas, para complementar o trabalho como músico.

A carreira de Domino foi efetivamente iniciada no New Orleans Hideaway Club. Enquanto tocava piano na banda do cantor local, Billy Diamond, Antoine ganhou o apelido de “Fats” – parte em homenagem a tecladistas que o precederam, como Fats Waller, e parte, segundo Diamond disse uma vez à plateia: “Chamo-o de ‘Fats’ [gordo] porque ele fica comendo sem parar, ele vai ser grande!”. Inicialmente, Domino ficou hesitante com o apelido, mas ele pegou.

Depois, no mesmo clube, Domino encontrou Bartholomew e o chefe da Imperial Records, Lew Chudd, que o levou à gravadora. Em 1949, Domino gravou o primeiro single para a Imperial, “The Fat Man”, uma recriação da música sobre vício em drogas “Junker’s Blues”, que muitos consideram um dos primeiros registros de rock and roll da história. Ainda que não tenha chegado no top 40 das mais vendidas, foi um grande hit R&B e estabeleceu a sonoridade e a imagem de Domino para as décadas que viriam.

Dali em diante, Domino não parou. Ele teve nove singles que renderam mais de 500 mil cópias, apesar de não ter chegado ao primeiro lugar da parada de pop (a regravação de “Ain’t That a Shame” por Pat Boone curiosamente chegou ao primeiro lugar da parada pop em 1955). Só que Domino não era uma figura ultra popular como Presley ou Lewis. Casado aos 20 anos, ele era notoriamente um rapaz caseiro que eventualmente viria a ter oito filhos (os nomes de todos eles começam com a letra “A”).

Ainda assim, a influência de Domino era tangível. Em 1968, por exemplo, Paul McCartney escreveu “Lady Madonna”, música dos Beatles, com Domino em mente – e o homenageado até gravou a própria versão da faixa naquele mesmo ano. Nas gravações de Domingo, para garantir que os baixos pudessem ser ouvidos por trás do poderoso piano dele, Bartholomew costumava dobrar os baixos e guitarras – uma técnica que depois viria a ser usada por Phil Spector para desenvolver a fórmula de gravação Wall of Sound.

Em 1960, Domino lançou o último hit dele a chegar no top 10 da parada, “Walkin’ in New Orleans”. Pouco depois, ele deixou a Imperial Records e continuou gravando para diversos outros selos. Assim como os contemporâneos dos anos 1950, ele já vinha diminuindo a quantidade de hits na época – mais devido aos tempos em mudança do que qualquer escândalo ou convocatória para o exército, como nos casos de Presley e Lewis. Charles M. Young escreveu na Rolling Stone EUA que Domino, fora do palco, “apostava um pouco, tinha um gosto por carros e joias chiques e era conhecido por cozinhar feijão no quarto de hotel.”

Domino continuou a gravar e fazer turnês por décadas depois do sucesso inicial. Em 2005, ele voltou ao noticiário depois que teve a casa destruída durante o Furacão Katrina. Depois das reportagens iniciais darem conta de que ele estava sumido, Domino foi encontrado e resgatado com a esposa, Rosemary, e um dos três filhos do casal. No furacão, ele perdeu a maioria das posses, incluindo todas as placas de discos de ouro.

Destrastoso como foi, o Katrina deu uma nova vida a Domino. Alive and Kickin', um novo álbum lançado um ano depois de furacão, tornou-se um dos mais aclamados trabalhos dele. Em 2007, veio Goin’ Home, um tributo estrelado a Domino com covers por Elton John, Neil Young, Tom Petty, Robert Plant, Willie Nelson, Norah Jones, Lenny Kravitz e Lucinda Williams.

Domino deixa a esposa, os filhos e o lendário piano Steinway, que até foi danificado pelo furacão, mas foi restaurado com contribuições de nomes como McCartney.