Festival Assim Vivemos reúne filmes que tratam sobre deficiências

Evento com 28 obras de 17 países acontece em São Paulo a partir desta quarta, 2, e vai até o próximo dia 12, no CCBB São Paulo

Stella Rodrigues Publicado em 02/10/2013, às 13h02 - Atualizado às 15h49

Missão Para Lars
Reprodução

Depois de passar pelo Rio de Janeiro, em agosto, a sexta edição do Festival Assim Vivemos chega a São Paulo nesta quarta, 2, onde será realizada até o próximo dia 12 no Centro Cultural Banco do Brasil. Com 26 obras (documentários, majoritariamente) de 17 países, o evento reúne filmes que retratem deficiências de alguma forma e, ainda, "mostrem como as pessoas com deficiência se inserem em suas sociedades e como são abordadas as questões cruciais em cada país retratado", explica Lara Pozzobon, uma das curadoras do festival, que promove ainda debates com diretores e portadores de deficiências.

Lara se envolveu com o tema acidentalmente. Um curta que realizou na universidade tinha como pano de fundo a cegueira de uma personagem. A obra integrou um festival alemão dedicado a filmes sobre deficiência e os trabalhos que ela viu no evento a encantaram. "Resolvi trazer a ideia para o Brasil", conta à Rolling Stone Brasil. Primeiramente, ela trouxe a programação do próprio Wie Wier Leben ("Como Nós Vivemos"), o primeiro festival do gênero, mas agora monta uma programação especifica para o Brasil, que conta com cada vez mais inscritos.

Dois dos longas que fazem parte da programação este ano trazem como tema a função da música na evolução de pessoas portadoras de deficiências. Um deles, o inspirador documentário britânico Missão Para Lars (foto), mostra a jornada de uma jornalista e um cineasta para levar o irmão deles, Tom, aos Estados Unidos para realizar um sonho: conhecer Lars Ulrich, baterista do Metallica. Tom tem Síndrome do X Frágil, doença dentro do espectro do autismo. Ele mora em uma casa no interior da Inglaterra onde ele e outros pacientes ficam sob cuidados especiais e mantém uma rotina estável, sem grandes emoções, algo importante para ele. Apesar de a síndrome impedir Tom de participar ativa e regularmente da sociedade, ele se conecta a ela de forma muito forte por meio de sua paixão pelo Metallica. Seus irmãos, em uma tentativa de se reconectarem a Tom, corajosamente o arrancam daquela rotina da casa e viajam para os Estados Unidos em busca de Lars. Chegando lá, em um motorhome, os três viajam pelos estados de Nevada e Califórnia tentando promover o encontro entre Tom e o músico. O filme mostra de forma indiscutível o poder da música e da paixão pelo ídolo em fazer com que Tom encare e supere muitas fobias que a doença coloca no seu caminho. Lara, com base em tudo que aprendeu com o cinema a respeito de deficiências, não tem dúvidas: "A música é um instrumento poderosíssimo, universal, que comove e mobiliza as pessoas. Tanto para alguém que tenha uma deficiência cognitiva ou qualquer outro tipo de limitação quanto para pessoas em geral, a música certamente é um instrumento mobilizador em todos os sentidos. No caso de uma pessoa com deficiência, especialmente cognitiva, ela ajuda não só nesse aspecto [de aprendizado], mas também com a sociabilidade".

Outro filme da mostra que deixa isso muito claro é o australiano Bruscamente Interrompido, que dá nome também a uma banda de rock formada por integrantes com diferentes deficiências e pelo musicoterapeuta que os acompanha. O doc acompanha a primeira turnê internacional do grupo, quando eles foram tocar na sede da ONU, em Nova York, seguiram para o Canadá e depois para Londres. Se uma turnê já tende a tropeçar em imprevistos, em um caso desses é notável a quantidade de barreiras, dentre elas um atropelamento, uma bebedeira, furto de passaportes, brigas entre os integrantes e, em uma das cenas mais tocantes, uma crise de ansiedade do vocalista Rory, que tem Síndrome de Asperger (uma espécie de autismo) e deficiência visual.

Bienal e gratuito, o festival continua, após dez anos, mantendo o foco em filmes que trazem a pessoa deficiente como personagem principal e tentando romper as barreiras que afastam o deficiente da integração à sociedade. "A diferença de um filme para uma reportagem de televisão, por exemplo, é a compreensão. O cinema é mediado pela emoção, não é apenas um aprendizado, como em uma reportagem. Então, tem essa importância para aproximar as pessoas do desconhecido", explica Lara. Como não poderia deixar de ser, o festival dá toda a atenção aos espectadores com necessidades especiais, de forma que garante acessibilidade ao público com deficiência visual (com audiodescrição em todas as sessões e catálogos em Braille) e auditiva (Closed Caption e interpretação em LIBRAS nos debates).

Veja abaixo a lista de filmes selecionados. A programação completa está no site oficial do festival.

Filmes concorrentes

Um Dia Especial - Dir. Yuri Amorim. Brasil, 90’

Eu Sinalizo, Eu Vivo - Dir. Anja Hiddinga, Jascha Blume. Holanda, 80’

Missão Para Lars - Dir. James Moore & William Spicer. Reino Unido, 74’

Meu olhar Diferente Sobre as Coisas - Dir. Gilca Maria Motta da Silveira. Brasil, 68’

Cromossomo Cinco - Dir. María Ripoll & Lisa Pram. Espanha, 62’

Bruscamente Interrompido - Dir. Benjamin & Susie Jones. Austrália, 56

Proteja a Todos que Eu Amo - Dir. Franziska Schönenberger, Anne Mona Hilliges. Alemanha, 52’

Improvisação Livre - Dir. Doron Djerassi. Israel, 50’

Liberte a Borboleta - Dir. Joanna Frydrych. Polônia, 45’

Imagine só - Dir. Peter Hegedus. Austrália, 31’

O Preço da Não Liberdade - Dir. Miglena Atanasova. Bulgária, 28’

A Criança que Sussurra - Dir. Heidi Sundby. Noruega, 28’

De Arteiro a Artista - Dir. Rodrigo Paglieri. Brasil, 28’

Different Theater. In search of happiness - Dir. Kate Makhova. Bielorússia, 27’

Ataque de Emoção -Dir. Sarah Barton. Austrália, 26’

Rótulos - Dir. Olga Arlauskas. Rússia, 26’

Diário do Não Ver - Dir. Cristina Maure e Joana Oliveira. Brasil, 22’

Estrangeiros - Dir. Sonia Machado Lima. Brasil, 20’

Gigantes da Alegria - Dir. Ricardo Rodrigues e Vitor Gracciano. Brasil, 12’

Jimmy - Dir. Martin Smith. Escócia, 12’

Andar com um Guia - Dir. Maciej Cendrowski. Polônia, 10’

Mal de Huntington - Dir. Jean-Baptiste Pinette, Johnny Pinette. Canadá, 8’

Seja Meu Irmão - Dir. Genevieve Clay. Austrália, 9’

Filhos de Surdos - Dir. Marie-Eve Nadeau. França, 52'

Terra Fria - Dir.: Shahriar Pourseyedian. Irã, 20'

Filme convidado:As Sessões - Dir.Ben Lewin. EUA, 98'

6º edição do Festival Assim Vivemos - São Paulo

2 a 12 de outubro

CCBB – Rua Álvares Penteado, 112 - Centro

Entrada gratuita

Informações: (11) 3113-3651 ou 3113-3652