Festival João Rock leva o som de potentes guitarras a Ribeirão Preto

Raimundos, Nação Zumbi e O Rappa estiveram entre as bandas que mostraram o poder do rock nacional no evento

Lucas Brêda, de Ribeirão Preto Publicado em 01/06/2014, às 10h20 - Atualizado em 02/06/2014, às 13h16

Raimundos - João Rock

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Em Ribeirão Preto, um recinto acostumado a receber rodeios e apresentações sertanejas surge como refúgio para camisetas de bandas de rock – em sua maioria, mostrando grupos estrangeiros, como AC/DC e Iron Maiden –, pistas de skate e cabelos compridos. Além do público da cidade, o João Rock, realizado neste sábado, 31, no Feapam, abriu as portas para gente dos municípios vizinhos aproveitar a oportunidade de ver e ouvir, ao vivo, o som das guitarras de grandes nomes da música feita no Brasil. Um line-up misturando passado e presente trouxe artistas como Paralamas do Sucesso, Nando Reis, O Rappa, Jorge Ben Jor, Raimundos, Nação Zumbi e CPM 22, entre outros.

No palco “Universitário”, o menor do festival, o Vanguart de Hélio Flanders e da graciosa violinista Fernanda Kostchak entrou em cena logo após o veterano (que mais parece um menino tocando) Zé Ramalho levar o sotaque nordestino de trovador ao palco principal do evento. “Vocês vão ter que cantar alto”, disse o baixista Reginaldo Lincoln, para a “turma do gargarejo”, surpreendentemente fiel e barulhenta. Na garganta, o público da primeira fila competiu em pé de igualdade com a voz do vocalista Badauí – entoando os hits do CPM 22 em formato acústico –, que vazava do palco maior.

O João Rock foi a oportunidade de levar o som do Vanguart a cidades não tão frequentadas pela banda, e o resultado foi uma resposta forte e instantânea do público. Quem não conhecia o grupo de Cuiabá simpatizou com os rapazes apaixonados e bem vestidos, que mostraram boa parte do disco mais recente, Muito Mais Que o Amor (2013).

Com uma agilidade impressionante, Nando Reis apareceu no palco principal do evento após o show do Vanguart. O fato de o palco maior ser formado na verdade por dois palcos, um ao lado do outro, eliminou o tempo de espera ente os shows. Privilegiado por ser dono de um cancioneiro pop sempre presente nas rádios, Nando Reis agradou a todas as idades. O show, que tinha cara de ser “família”, ficou ainda mais caseiro com a presença do Dois Reis, Sebastião e Theodoro, filhos do ex-titã, cantando, veja só, “Família”. Nando se apresentava orgulhoso e sorridente, enquanto o trio de Reis tocava mais uma, “Luz Dos Olhos”.

Uma característica compartilhada entre a maioria dos artistas que se apresentaram no João Rock foi a escolha de setlists recheados de hits. Músicas conhecidas do público fizeram do evento um verdadeiro karaokê ao vivo. Nando Reis, por exemplo, emendou, após as duas com os filhos, “All Star”, “O Segundo Sol”, “Marvin” e “Do Seu Lado”.

O Rappa e a Copa

Simultaneamente ao ex-titã, o grupo Ponto de Equilíbrio se apresentou no palco Universitário. Logo após o final do show de reggae, O Rappa chegou com algumas músicas novas e pedradas do tamanho de “Lado B Lado A”. É de se destacar a habilidade com que o homem de frente Marcelo Falcão conduz as músicas de sua banda. Em “Me Deixa”, ele interrompeu a faixa, pedindo mais animação do público, e, então recomeçou. Dito e feito. “Me Deixa” teve o dobro do volume após a paralisação de Falcão.

Apesar da perda de voz política após a saída de Marcelo Yuka do grupo, O Rappa foi o primeiro grupo a colocar o dedo na ferida com contundência na tarde desse sábado. “As eleições estão logo aí”, disse Falcão, após questionar a validade da Copa do Mundo no Brasil. Em seguida, o coro foi unânime: “Ei Dilma, vai tomar no...”. Falcão retrucou: “Não sou eu quem digo isso, é um desabafo de vocês”. Ainda sobre o evento da FIFA, ele disse: “Mesmo se ganhar eu vou continuar com esse pensamento”. “Eu estou fechado com vocês. Com a nação inteira”, concluiu.

O sentimento de karaokê voltou à tona logo com a chegada do Paralamas do Sucesso: “Óculos”, “Meu Erro”, “Alagados”, “Lanterna dos Afogados”, “Aonde Quer Que Eu Vá” e toda a criatividade que fez do grupo de Hebert Vianna um ícone no rock nacional.

Na apresentação seguinte, de Jorge Ben Jor, por volta das 23h, viu-se uma migração em massa. Enquanto os espaços sobravam logo à frente do carioca, muita gente partiu para o palco Universitário, onde a apresentação do Vespas Mandarinas precedia a do Raimundos. Por mais que tentasse com as irreverentes e contagiantes “Zazueira” e “A Minha Menina”, Jorge Ben Jor não saiu do ponto morto, deixando alguns a dançar e outros a filmar com o celular.

O triunfo dos anos 1990

O line-up do João Rock deixou o seu melhor para o final. Primeiro – com uma hora de atraso – o Raimundos deu um banho de guitarras ensurdecedoras e baterias frenéticas no palco Universitário. O espaço menor parece ter sido a moldura perfeita para a aceitação da banda brasiliense. “Mulher de Fases” foi logo a segunda da apresentação, e “Baculejo”, do novo disco Cantigas de Roda (2014), entrou sem deixar nada a dever no repertório.

Digão, à vontade como frontman, distribuiu gritos e foi ovacionado. A partir dali, já dava para ter certeza: o Raimundos agradou como ninguém no João Rock. Em “Me Lambe” – uma mais catárticas ao vivo –, Digão arrebentou uma corda da guitarra. Do lado de lá, Canisso mostrou que continua com cara de mau, e ainda dá chutes entusiasmados no ar. Foi o show de rock que a plateia do João Rock merecia.

Em um palco, “Puteiro em João Pessoa”; no outro, “Rios, Pontes & Overdrives”. As canções de Raimundos e Da Lama ao Caos, discos de estreia de Raimundos e Nação Zumbi, completam 20 anos de idade. Mas não só pelo saudosismo triunfou o rock do anos 1990. As duas bandas lançaram álbuns firmes recentemente, e eles parecem já ganhar espaço nos respectivos setlists.

“Cicatriz”, “Foi de Amor” e “Defeito Perfeito”, de Nação Zumbi (2014) entraram singelas e com identidade no show do grupo pernambucano, que fechou o palco principal, já nas primeiras horas deste domingo, 1. João Barone, baterista do Paralamas do Sucesso, engrossou o caldo da percussão em “Manguetown”, e “Blunt of Judah” e “Meu Maracatu Pesa Uma Tonelada”, faixas do Nação pós-Chico Science, soaram grandiosas. Com o guitarrista Lúcio Maria inquieto e, particularmente inspirado, o Nação Zumbi prestou homenagem ao disco aniversariante, finalizando com a simbólica faixa-título.

O dia de guitarras no recinto de exposições de Ribeirão Preto chegava ao fim. As pistas de skate serão possivelmente trocadas por cavalos e bois, o skate-mecânico deverá voltar a ser um touro mecânico, e a tirolesa provavelmente dará lugar a alguma loja de produtos agropecuários. A falta de ousadia na escolha do line-up é um limitador para o evento, mas o João Rock cumpre um papel importante no contexto, e tem uma boa organização. Por mais que se preocupe mais em vangloriar artistas já consagrados do que fomentar o futuro, o festival dá espaço ao rock nacional, mostrando que ele ainda pode ser relevante para muita gente ao mesmo tempo.

A reportagem viajou a convite da GVT.