Festival South By Southwest começa hoje

Austin, no Texas, hospeda 1.500 atrações musicais, que vão dos grandes R.E.M. e Lou Reed a novatos e independentes como os brasileiros Debate e Lucy and The Popsonics; acompanhe cobertura diária

Por Mateus Potumati, do Texas Publicado em 12/03/2008, às 16h46 - Atualizado às 17h24

People's Party: mandando ver do lado de fora
Janaina Felix

Começa nesta quarta-feira, em Austin, capital do estado norte-americano do Texas, a edição 2008 do South By Southwest. Iniciado em 1987 como um modesto concurso de bandas, o festival cresceu, agregou outras mídias e hoje é um evento único. Durante dez dias, três feiras independentes reúnem uma mostra de cinema de peso internacional, centenas de painéis, entrevistas e cursos e a astronômica cifra de 1.500 apresentações musicais.

A estrutura oficial atrai ainda uma série de eventos paralelos, que quase dobram o tamanho do festival. São festas promocionais - e, via de regra, gratuitas - de grandes gravadoras, grupos de comunicação e afins, que transformam Austin num cenário absurdo, que mistura boca-livre irrefreada a seqüências intermináveis de bares, nos quais se exibe todo tipo de música durante 10 horas por dia. Aliás, às vezes até os bares são dispensáveis: vários grupos se apresentam na rua, por conta própria, seja no tradicional esquema esquina-e-chapéu ou em empreitadas mais requintadas - por exemplo, do lado de fora do Stubb's, um dos principais clubes de Austin, uma banda chamada People's Party fez um show em cima de uma caminhonete adaptada, nesta terça-feira.

Quem lucra, claro, é a cidade, que tem no South By Southwest - abreviado como SXSW - seu maior gerador de renda. Nas ruas do centro, caixas eletrônicos surgem em meio a paisagens estereotipicamente texanas. Restaurantes de comida tex-mex exibem caubóis gigantescos de néon. Austin se dá até ao luxo de ter um funcionário como Jim Butler, que exerce a função de "gerente de desenvolvimento de indústrias criativas". Todo esse progresso, é bom lembrar, foi alcançado sem alterar a vocação do festival. Um elemento simbólico dessa firmeza de propósito é a logística: ao contrário da maioria dos festivais de música pop, as apresentações do SXSW são realizadas em casas de show pequenas, para no máximo 2 mil pessoas - a média de capacidade chega, se muito, a 200 lugares.

Sob a ótica de eventos de formato mais tradicional, como o Coachella ou o Glastonbury, isso é uma limitação suicida de possibilidades. No caso do SXSW, no entanto, só engrossa o mito - se tem dúvidas, pergunte a um dos pouco mais de 2 mil sortudos que conseguirão ver o R.E.M. na noite de hoje (você lerá sobre o show amanhã).

Destaques

Enquanto os shows oficiais não começam, a noite de terça trouxe pelo menos uma festa memorável. Num terreno nos fundos do Stubb's, Moby e o duo de djs britânicos Addictive TV levaram ao delírio uma platéia de aproximadamente mil pessoas. Num dos pontos altos do show, o Addictive TV mixou suas batidas com imagens e sons do filme brasileiro Cidade de Deus. Ambos os grupos voltam a se apresentar esta semana, dentro da programação oficial do festival.

Nesta quarta-feira, entre os destaques do SXSW estão, além do R.E.M, os shows de Van Morrison, Simian Mobile Disco, Lemonheads, The Slits e The Black Keys. Entre as bandas brasileiras, O Quarto das Cinzas deve se apresentar às 14h, no mesmo palco onde mais tarde tocam Akron/Family e Ra Ra Riot. Mais 9 grupos brasileiros se apresentam no festival, como Curumin, Debate, Lucy and The Popsonics e Marcelo D2. A presença brasileira é recorde e reflete a fértil fase que vive a música independente no país. Além das bandas, Fabrício Nobre, presidente da ABRAFIN, participa de um dos painéis.

Até o final da semana, a programação de shows ainda inclui Ice Cube, My Morning Jacket, Spoon, Vampire Weekend, Talib Kweli, Kevin Shields, Nada Surf, J. Mascis, Dolly Parton, Duffy, Sara Bareilles e mais uma pequena multidão de grupos vindos dos quatro cantos do mundo, para quem o SXSW é a principal vitrine de entrada no cobiçado mercado norte-americano.

Conferências

A feira de música traz mais de 70 conferências, divididas em temas que vão da criação musical a questões mercadológicas. O maior destaque é a presença de Lou Reed na quinta feira, dia 13.

Além de participar de entrevista, Reed promove a estréia mundial de Lou Reed's Berlin, aguardado documentário dirigido pelo cineasta Julian Schnabel. Schnabel ganhou fama em 2007 ao conquistar, entre outros prêmios, a Palma de Ouro em Cannes e o Globo de Ouro com o filme O Escafandro e a Borboleta. Filmado em Nova York em 2006, Lou Reed's Berlin documenta o show do álbum conceitual Berlin, de 1973, um dos marcos do rock no século XX. Também é dada quase como certa uma apresentação surpresa do compositor e ex-líder do Velvet Underground em alguma das noites do festival.

Além de Reed, outros destaques da programação são as entrevistas com Rob Glaser, CEO da RealNetworks, líder no mercado de software e serviços de mídia para a internet (quarta, dia 12); Seymour Stein, presidente da Sire Records, selo pertencente ao grupo Warner que lançou bandas como Ramones, Talking Heads e Madonna (quinta, 13); a entrevista conjunta com Steve Reich, compositor erudito de vanguarda, e Thurston Moore, líder do Sonic Youth e dono do selo Ecstatic Peace (quinta, 13,); Johnny Rivers, ícone pop-rock dos anos 1960 (quinta, 13); Sean Moriarty, CEO da Ticketmaster (sexta, 14); Mick Jones, guitarrista e líder do extinto grupo de punk inglês The Clash, e Tony James, baixista das também extintas Generation X e Sigue Sigue Sputnik (sexta, 14); e os rappers Ice Cube e DJ Pooh (sábado, 15).

Nos painéis diários serão enfocados assuntos como promoção e distribuição de música pela internet, gerenciamento de turnês de artistas latinos nos EUA e Europa, fotografia (moderada pelo escritor Michael Azerrad), uso de sites de relacionamento para promoção, assessoria de imprensa e vários outros assuntos ligados aos rumos da produção e promoção de música em um mercado em plena revolução. Após os painéis, os participantes podem ainda tirar dúvidas em sessões de aconselhamento para grupos pequenos.

O site da Rolling Stone publicará boletins diários direto do SXSW 2008.

Saiba mais: http://sxsw.com