Festival Superlativo

Com festival Mimo, Olinda se torna a convergência da musica erudita e popular no Brasil

Por Antônio do Amaral Rocha Publicado em 07/09/2010, às 18h12

Tom Zé se apresenta no Mostra Internacional de Música de Olinda

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Em sua sétima edição, a Mostra Internacional de Música de Olinda (Mimo) movimentou a semana de 2 a 7 de setembro em Olinda (PE) com presença superlativa de público. Com shows totalmente gratuitos, a programação do festival investiu em uma aproximação entre a música de concerto, a música popular e jazz, ocupando os espaços e as acústicas das igrejas da cidade.

Na abertura, na noite do dia 2, o espaço principal do evento, na Igreja da Sé, recebeu o maestro Isaac Karabtchevsky regendo a Orquestra Sinfônica de Barra Mansa. Pela receptividade do público, poderia se imaginar como se daria o restante da mostra: o concerto de abertura provou que toda a dificuldade que gira em torno da fruição da música erudita necessita ser repensada. Senão, como explicar tamanha adesão do público aos concertos? "Se houver boa oferta de música, o público responde positivamente", afirmou Lu Araujo, criadora e diretora geral da Mimo. "Não importa que tipo de música seja." Paralelamente à programação do festival acontecem oficinas de regência dirigida pelo maestro Karabtchevsky, ministrado a 15 alunos previamente escolhidos. O resultado deste trabalho será mostrado no concerto de encerramento da mostra, nesta terça, 7.

Além da música, este ano a programação da Mimo deu espaço também a um festival de cinema. Houve projeção de documentários recentes, como Loki, Um Morcego na Porta Principal, Uma Noite em 67 e Tom Zé - Astronauta Libertado, em um total de 28 filmes com a temática da musical. As obras foram exibidas em telões montados ao lado das igrejas onde aconteciam os shows.

Música popular, música erudita

A programação trazida pela Mimo colocou, lado a lado e com a mesma aceitação, a música de concerto, a música instrumental e até a música cantada. A maratona musical, iniciada oficialmente na noite do dia 3, trouxe o Trio Puelli, com piano, cello e violino, na Igreja do Convento de São Francisco. Em seguida, confirmando o ecletismo da mostra, apresentou-se na Igreja do Seminário de Olinda o Duofel, duo de violões formado por Fernando Mello e Luiz Bueno, interpretando temas dos Beatles com grande aceitação.

O free jazz com sotaque de salsa e reggae marcou presença com o piano do martiniquenho Mario Canonge Trio. Canonge reside na França, mas sua música carrega os fortes traços da música do Caribe. O show na Igreja da Sé proporcionou o primeiro grande momento da dessacralização do espaço religioso. Em duas horas de música, o público ouviu atentamente e dançou a som do jazz caribenho. Foi um acontecimento trangressor.

Na noite do dia 4, a mostra deslocou uma grande atenção para a Igreja Nossa Senhora do Rosário do Homens Pretos, em Recife, com a aguardada presença de Egberto Gismonti. Na mesma noite, a Igreja da Sé, em Olinda, também recebeu o show do grupo Selmer #607, nome inspirado pela marca do famoso violão que Django Reinhardt imortalizou, o de número 503. O Selmer é um quinteto que se apresenta como quarteto, fazendo revezamento de um dos membros. São três violões - um solo, dois em acompanhamento - e um contrabaixo acústico. Os violonistas se revezam, sempre com pitadas de bom humor, de forma que todos passem pelos diversos instrumentos, proporcionando diversas formações. O repertório se compôs de clássicos de violão e até "Wave" de Tom Jobim, momento em que o público foi ao delírio, dessacralizando mais uma vez o espaço da Igreja da Sé. Para encerrar, a banda fez uma concessão ao gosto fácil, tocando "Brasileirinho", de Waldir Azevedo.

A noite do dia 5 traria atrações de peso. Logo após o concerto do Duo Milewski e Jorge Armando (piano, violino e cello) encantar o público presente na Igreja do Convento de São Francisco, a atração se deslocou para a Igreja do Seminário de Olinda. Lá se deu mais um casamento da música clássica com a popular no ambiente da mostra: o quarteto da harpista pop Cristina Braga uniu-se à guitarra de Dado Villa-Lobos, que juntos realizaram um show competente. Cristina toca harpa como se estivesse tocando piano ou mesmo guitarra. Com a entrada de Dado, houve certo clima de suspense. Ninguém poderia imaginar o que viria e se o tal encontro de harpa e guitarra daria certo. Funcionou, mas o público parecia esperar de Dado uma performance digna de Renato Russo nos áureos tempos de Legião Urbana. O que ficou foi a competência de Cristina Braga e banda e o encontro inusitado proporcionando uma performance roqueira no espaço "sagrado" da Igreja. O show retomou seus melhores momentos quando fizeram juntos "Trenzinho Caipira", de Villa-Lobos e "Águas de Março", de Tom Jobim.

Ladeiras

Olinda é uma cidade colonial feita de subidas, descidas e extensas ladeiras, e o que se viu em todas as noites de Mimo parecia uma procissão: centenas de pessoas caminhando devagar, tentando vencer as dificuldades do terreno. E da Igreja do Seminário de Olinda, o público caminhou até a Igreja da Sé para conferir a presença marcante do veterano do jazz McCoy Tyner e Trio. O pianista norte-americano é um dos melhores da história do gênero: com 72 anos e 55 de carreira, toca com vitalidade e inspiração, deixando o baixo de Gerald Cannon, a bateria de Eric Kamau e o sax do convidado Gary Bartz brilharem. McCoy dá o tema, improvisa sobre ele e solta a continuação da peça para os companheiros. Em seguida, a música se fecha com todos tocando juntos. Um verdadeiro concerto de jazz que faz uma ponte óbvia entre o erudito e o popular.

E a noite prometia ainda mais. Após o show de McCoy, o público, mais uma vez em procissão, desceu até a Praça do Carmo, onde o palco estava armado para mais uma festa transgressora. Tom Zé deu as caras com a banda completa e fez show com o repertório do DVD O Pirulito da Ciência e outras do seu cancioneiro. Como um show de Tom Zé nunca é igual ao outro, pode-se dizer que ele fez por aqui uma apresentação inédita, que inclui, além da música, uma boa quantidade de humor.

Crédito das imagens: Beto Figueiroa, Tiago Calazans e Ana Paula Oliveira