Festival SXSW chega ao fim

Com exceção de Lucy and The Popsonics (foto) e Curumin, presença brasileira foi irregular

Por Mateus Potumati, do Texas Publicado em 17/03/2008, às 09h03 - Atualizado às 11h44

Fernanda, do Lucy And The Popsonics, no primeiro show da banda no festival, na quinta-feira
Janaina Felix

A maratona acabou. Foram mais de 1.500 bandas, a maioria tocando duas ou três vezes durante cinco dias. Algumas delas tocaram mais, como os dinamarqueses do Raveonettes (9 vezes), proporcionando uma quantidade praticamente incalculável de shows.

O South By Southwest é tão gigante que, como um imenso corpo celeste, atrai até outros festivais para sua órbita: no sábado, aproximadamente uma centena de bandas tocaram no Mess With Texas 2, a dez quadras do Austin Convention Center. A programação incluiu nomes do festival, como Simian Mobile Disco e Black Mountain, mas também trouxe atos inéditos, como NOFX e The Breeders, que atraíram milhares de pessoas. Mas, ao contrário do que se possa pensar, não havia nenhum espírito de concorrência no ar, pelo contrário: não importa onde, esses cinco dias são uma festa só.

Teve show do Spoon para 30 mil pessoas e canja de Lou Reed em uma festa dedicada em sua homenagem. Teve gente dobrando o quarteirão duas horas antes do show do R.E.M., e teve gente tocando acordeom sozinho na pacata tarde de domingo, fim de feira do festival. Teve J. Mascis, líder do lendário Dinosaur Jr., tocando guitarra, tocando violão distorcido, tocando bateria. Teve festa surpresa com Motorhead, teve Jandek tocando numa igreja presbiteriana. Teve Michael Stipe na platéia do Raveonettes, cantando todas as músicas. Teve Jann Wenner, publisher da Rolling Stone EUA, perdido em uma esquina da 6th Street, conferindo sua programação. Teve os membros do Vampire Weekend vendo o She and Him, da atriz e musa indie Zooey Deschanel. A variedade e insistência com que a música entra nos ouvidos é tanta que o termo poluição sonora não parece de todo exagerado.

O SXSW é um festival contraditório, que une vanguarda e populesco, consciência ecológica e uma imensa pegada de carbono, cosmopolitismo e provincianismo. Pela sala de imprensa, espaço bem equipado que conta até com massagem gratuita, circulou gente da Inglaterra, França, Espanha, Itália, Colômbia, Japão, Israel e outros países. Nos táxis, há desde o motorista texano com sotaque caipira a nigerianos com colares de ouro e, claro, brasileiros. Eles são mais de dois mil e quase não dão conta do serviço - no final da noite de sábado, esperamos mais de uma hora até conseguir um. Ainda bem que a maioria dos clubes podem ser alcançados a pé, ou no máximo com a carona de um pedicab, táxi-bicicleta que lembra um riquixá.

No domingo à tarde, as horas intermináveis de caminhada estão estampadas na cara de todo mundo, mas alguns ainda encontram energia para ver um show barulhento em um bar fedendo cerveja e cigarro - em Austin, ainda é permitido fumar em locais fechados. O South By Southwest é a cara sa cidade, é um orgulho local e é um acontecimento sem paralelos no mundo.

Destaques

Alguns artistas viveram momentos históricos no SXSW 2008. O maior deles, sem dúvida, foi o show do R.E.M. Dado como morto até o ano passado, o grupo está apostando em 2008 como o ano de seu retorno triunfal. A contar pelo SXSW - o que conta muito - isso deve mesmo acontecer. As músicas do inédito Accelerate exibem um vigor que não se via no grupo desde os anos 1990. São canções relevantes cultural e musicalmente. E a forma como o R.E.M. vem lidando com o disco - promoção descolada, shows para platéias pequenas - prova que Michael Stipe e cia. estão muito longe de se acomodar.

O outro hype do ano, Vampire Weekend, comprovou que provavelmente segue o caminho de Amy Winehouse no ano passado e ganha os EUA após o SXSW. Com um show carismático e impecavelmente executado, eles conseguem o feito de fazer uma platéia indie de 2008 reagir quase como adolescentes num programa do Ed Sullivan em 1962. E, aos fãs brasileiros, aí vai: Rostam Batmanglij, tecladista do grupo, declarou que quer muito tocar no Brasil. Em conversa com este repórter, ainda, ele disse ser apaixonado por Jorge Ben ("Você me ensina a pronúncia?"), Gal Costa e pelo filme Cidade de Deus.

Entre as mulheres, quatro nomes devem repercutir este ano: Katy Perry, Duffy, Sara Bareilles e Kid Sister. Perry, uma versão americanizada e mais pop de Lily Allen, ficou famosa no Myspace e no YouTube com "U R So Gay", outro hit-de-sacanear-ex-namorado. Duffy, uma inglesinha loira e atarracada, convence como candidata a diva R&B, com voz esganiçada e tudo. Sara Bareilles, que já definiram como um misto entre Feist e Norah Jones, ainda é desconhecida no Brasil, mas já é o grande novo nome na linha garota-bonita-ao-piano nos EUA. E Kid Sister, musa da cena juke/hip-hop de Chicago, é tida como grande promessa de renovação na música eletrônica norte-americana. As quatro fizeram shows animados e elogiados no festival.

Negócios e tecnologia

Na parte de tecnologia, os sites de relacionamento continuam sendo uma aposta forte. O marketing do ano é o do "controle total", por parte do público ou dos artistas. Dois deles, o OurStage e o mogulTunes, investiram pesado no SXSW.

No OurStage, cujo lema é "os fãs decidem", os artistas postam seu trabalho na comunidade para análise e julgamento dos fãs. Os mais votados ganham prêmios que variam de dinheiro a contratos de gravação.

No mogulTunes, a idéia é ser "guiado pelos fãs, controlado pelos artistas". Segundo o site, artistas cadastrados fazem parte de uma comunidade habitada por "gente que importa" (leia-se: djs, A&Rs, apresentadores de rádio e pessoas do mercado musical em geral). Outro serviço popular no SXSW 2008 foi o ChaCha, que tira dúvidas de usuários via mensagens de texto pelo celular e vem sendo chamado de "social searching".

Brasileiros

A irregular participação brasileira se encerrou no sábado, com shows de Debate, Fruet & os Cozinheiros, Tita Lima e Lucy And The Popsonics. Ao contrário da quinta, em que esta última e Curumin foram mais felizes, o sábado foi uma noite pouco memorável para os brasileiros.

As razões, basicamente, foram duas: local e programação. Sem atrações de renome e longe da 6th Street, rua que concentra o maior movimento, o Club 115 passou quase despercebido nas cinco noites do festival. E, claro, artistas pouco conhecidos sempre se beneficiam de lugares mais movimentados, para onde o público é atraído.

Para completar, a programação foi uma bagunça, misturando atos sem nenhuma afinidade entre si (além dos brasileiros, ainda havia um argentino), que acabaram prejudicando uns aos outros. Logo que o Debate, em nova fase, iniciou seu experimentalismo à Brian Eno, os perdidos que tinham ido ao clube em busca de um balanço abrasileirado deixaram o lugar horrorizados. Os que gostaram do show não entenderam nada quando entraram, na seqüência, Lucy And The Popsonics e Tita Lima.

Desfalques importantes na comitiva brazuca, como Marcelo D2, Nancy e O Quarto Das Cinzas, também prejudicaram o que poderia ter sido um ano marcante para o Brasil no festival. A falta de um trabalho conjunto e focado de promoção foi outro fator, já que as novas gerações norte-americanas têm demonstrado interesse pela música e cultura brasileiras (Rostam Batmanglij, tecladista do Vampire Weekend, até me pediu dicas de shows brasileiros no festival).

Em termos objetivos, quem lucrou individualmente com o SXSW foram mesmo Curumin e Lucy And The Popsonics. Mas são sucessos isolados: a primeira já tem estrada e conta com uma rede ampla de assessores, que inclui até um agente internacional; a ascensão da segunda é principalmente fruto do trabalho de Fabrício Nobre, dono da Monstro Discos e presidente da ABRAFIN. Nobre insistiu sobre a necessidade de os produtores e agentes públicos dialogarem mais, no sentido de promover oficialmente a nova música brasileira no mundo. Países como Canadá e Austrália já fazem isso há anos e tiveram tendas muito movimentadas no festival. De forma geral, porém, o espaço aumentou e os diálogos têm sido mais freqüentes. Ainda que pequeno, o SXSW 2008 foi um passo importante para a música brasileira.