“Ficamos surpresos ao saber que ainda há espaço para a nossa estranheza”, diz Thomas Mars, do Phoenix

Quatro anos depois de romper a barreira do indie para o mainstream com o bem-sucedido Wolfgang Amadeus Phoenix, a banda francesa lança o quinto álbum, Bankrupt!

Pedro Antunes Publicado em 12/05/2013, às 11h15

Phoenix
Divulgação

Thomas Mars fala rápido, em um inglês difícil e enrolado. Quase não ri, mesmo quando brinca com as referências buscadas por ele e os outros integrantes do Phoenix – formado por Laurent Brancowitz (guitarra), Christian Mazzalai (guitarra) e Deck D'Arcy (baixo) – para o novo e quinto disco, Bankrupt!, o primeiro após o muito bem-sucedido Wolfgang Amadeus Phoenix (2009). “Sim, as Tartarugas Ninja são mesmo uma influência para este disco”, garante o vocalista da banda francesa à Rolling Stone Brasil. “E não é só porque comemos muitas pizzas durante a gravação do álbum”, completa, em referência ao hábito dos personagens de quadrinhos e animação criados nos anos 80. Ainda, contudo, não há sinal de risos, apesar do evidente bom-humor do músico.

A ideia de encontrar o ponto em comum entre quatro tartarugas adolescentes, com formas quase humanas, treinadas nos ensinamentos ninjas por um mestre (na verdade um enorme rato), com as novas músicas do Phoenix é de fundir os miolos. Na verdade, a ideia de Mars é essa mesma: o nonsense. Os criadores dos personagens, Kevin Eastman e Peter Laird, embarcaram em uma viagem pelo inacreditável ao inventar estes que combatem o crime com armas de ninja e têm nomes de pintores renascentistas (Leonardo, Donatello, Michelangelo e Rafael). “Algumas letras nossas são assim também: nonsense”, diz ele. “Para nós, as letras deste disco têm profundidade, mas também possuem essa camada de estranheza e estupidez, que também é importante, entende?”

O conceito dessa dualidade do Phoenix está em tudo o que Thomas Mars fala, escreve e canta: uma espécie de contradição. Tudo tem esses dois tons, preto e branco, que dialogam entre si, agregando às músicas da banda uma profundidade que não está ali no raso, onde a água bate nos tornozelos. É preciso mergulhar fundo – até encontrar alguma tartaruga ninja, de repente.

A música “Entertainment”, primeiro single do novo álbum, é um exemplo que explica exatamente isso. A canção é a mais pop e festiva do disco, com um riff oriental dançante e uma efervescência que cresce até explodir no refrão. Mas o verso principal é exatamente o contrário de tudo isso: “I'd rather be alone” (“eu preferia estar sozinho”, em português). Frase mais anticlimática, impossível. Ainda assim, ela está escondida por trás de toda aquela fofura dance-punk. A solidão é um tema frequente em Bankrupt!: na faixa “S.O.S. In Bel Air”, outra que é embebida por um pop sacolejante, Mars grita, no refrão: “Alone, alone, alone”.

A busca pela ausência e reclusão é um reflexo, ainda que inconsciente, do próprio sucesso do Phoenix. Quando Wolfgang Amadeus Phoenix estourou a bolha do underground e pulou para o mainstream, muita coisa mudou na vida de Mars e companhia. E o ato de gravar um novo álbum se tornou mais difícil do que se poderia supor. Bankrupt! é, segundo o vocalista, o disco “mais estressante e controlado” que eles já fizeram. “Tudo foi muito frustrante e ambicioso, ao mesmo tempo”, explicou ele. Ao todo, a banda passou dois anos em estúdios em Nova York e Paris, para criar um álbum com dez faixas.

Uma versão deluxe do disco saiu com 71 pedaços de músicas e demos que foram gravadas ao longo desse par de anos. Durante a gravação do disco anterior, o maior sucesso deles, a música “Lisztomania”, levou um ano inteiro para ficar pronta. Neste novo disco, diz Mars, todas pareciam intermináveis. É a tal história de ter o excesso e o nada, ao mesmo tempo. Quando a banda não tinha nada, em Wolfgang, o foco era maior: “Não tínhamos empresário, gravadora, gravávamos porque precisávamos disso para fazer shows, para que a banda trabalhasse”, conta Mars. No novo trabalho, eles tinham a estrutura de uma major (a Warner Music). “Então não precisávamos terminar nada, entende?”

O foco veio quando o Phoenix se decidiu pelo isolamento, quase egoísta, na gravação. “Nós pensamos nos ouvintes, mas os ouvintes somos nós mesmos”, afirma o vocalista. Tudo, segundo ele, remete ao início da banda em Versalhes, cidade próxima a Paris. “Crescemos naquele ambiente sem música, que não tínhamos para quem tocar. Todo mundo ali estava interessado no passado, ninguém olhava para o presente ou para o futuro.”

A banda, que nasceu da ideia sonora de perturbar o silêncio antigo de Versalhes, se aproximou do topo do mundo da música. “Queríamos chocar as pessoas, perturbá-las, seguir por uma direção que seria desafiadora para nós mesmos”, justifica, sobre o direcionamento da banda desde o início. “Se a música é boa para a gente, vai ser boa para mais alguém. Queríamos impressionar a nós mesmos. É um processo meio egoísta.”

Mesmo egoístas, eles participaram de uma celebração cheia de altruístas em um dos maiores festivais do planeta, o californiano Coachella. Um detalhe: antes mesmo de Bankrupt! chegar às prateleiras – reais ou virtuais. “Tocamos oito músicas de um disco que ainda não tinha sido lançado, que as pessoas nunca ouviram. Isso foi uma aposta muito alta”, conta ele. “Eu tinha pesadelos de que tudo saísse errado.” Na avaliação do vocalista, eles foram bem: “Ficamos surpresos ao saber que ainda há espaço para a nossa estranheza”, diz. “O importante é perceber que nós não pertencemos àquele posto no line-up, aos grandes shows. Se você acha que pertence a eles, há algo de errado com você.” E Thomas Mars enfim ri desta que sequer foi sua frase mais cômica na entrevista. Mais uma dessas contradições nonsense que compõem o próprio Phoenix.