Fim da maratona Porto Musical

A quinta edição do evento traçou uma ponte entre Recife e o mundo sem passar pelo eixo Rio-São Paulo

Por Antônio do Amaral Rocha, de Recife Publicado em 02/03/2011, às 17h20

Zé Cafofinho e Suas Correntes no show de encerramento do Porto Musical 2011

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A grande ideia que esteve por trás da maratona Porto Musical, realizada em Recife, no Centro Cultural Correios, entre os dias 23 a 26 de fevereiro, é que a cidade é um mundo que se basta. E isso é verdade. Com uma cena musical das mais instigantes, é ali que acontece hoje a modernização da música brasileira, com bandas, cantores e compositores de todos os gêneros, que não abdicaram de buscar na sua rica fonte tradicional um modelo para as sua criações. É isso que fascina plateias europeias, norte-americanas e japonesas, e que permite também realizar um evento que, mesmo tendo as inscrições pagas (R$ 120 para assistir a 28 palestras), teve tanta participação, entre público interessado, produtores e músicos do lugar.

Produtores, DJs e programadores de casas de show da Europa e dos Estados Unidos aportaram na cidade nesses quatro dias, porque há um claro interesse em conhecer mais, divulgar e - por que não? - lucrar com a música do lugar. Além de dividirem suas experiências, eles foram também para aprender. Mas todos demonstraram um conhecimento acima da média da música pernambucana e também da música brasileira em geral.

Nomes como Bill Bragin (Estados Unidos), Makoto Kubota (Japão), Rémy Kolpa Kopoul (França), Octávio Aberláez (Colômbia) e Victor Ponieman (Argentina) deram dicas, em suas variadas palestras, de como os artistas brasileiros devem se preparar para alcançar esses mercados, já que há demanda para isso. Mas nem tudo são flores nesse terreno, como explicou o palestrante (e também um dos curadores do evento) Paulo André Pires. Paulo criticou a falta de apoio do Governo para tais empreitadas internacionais, já que ele entende que a música representa o país em outros lugares e os artistas funcionam como embaixadores informais.

Além dessas conferências, que enfocaram o tema do mercado da música, também algumas curiosidades foram apresentadas. A palestra do veterano DJ francês Rémy Kolpa teve uma abordagem mais informativa sobre a presença, muitas vezes equivocada, da música brasileira na França, desde o começo do século passado, quando Félix Mayol (1872 - 1941) gravou uma música chamada "Maxixe" que virou "La Matchiche", emendadas a partes de "O Guarani", de Carlos Gomes, chegando até a veneração que os franceses têm pela música brasileira - em especial a bossa nova, que virou trilha sonora de filmes na França na década de 60 e enfatizou o incrível sucesso de Vinicius de Moraes e Baden Powell nessa época, que influenciaram até o ícone francês Serge Gainsbourg. Também se referiu a uma certa atração que os músicos brasileiros têm pelos franceses, citando especialmente "Dans Mon Île", de Henri Salvador, gravada por Caetano Veloso.

Na data do encerramento do Porto Musical houve ainda um divertido papo entre dois músicos pernambucanos: Siba, ex-Mestre Ambrósio, e Lirinha, ex-Cordel do Fogo Encantando, que contaram suas experiências, enfocando especialmente as aventuras em busca de trabalho e reconhecimento no eixo Rio-São Paulo.

Na noite desse mesmo dia, nos shows no palco da Praça do Arsenal da Marinha, o público pôde assistir ao tecnobrega assumido e escrachado de Catarina Dee Jah (de Pernambuco). Catarina, apesar de ter só um EP lançado, é muito conhecida pelos festivais da região e consegue fazer o público cantar junto.

A banda DJ Tudo e Sua Gente de Todo Lugar, do paulistano Alfredo Bello, pesquisador do folclore do Brasil, produtor e compositor de trilhas sonoras, animou a plateia de cinco mil pessoas com sua mistura de funk, música eletrônica e folclórica com um revestimento sonoro moderníssimo. Alfredo mora em São Paulo, mas declarou "ser difícil encontrá-lo por lá", tamanha é a solicitação de sua presença em outros palcos do mundo.

Comprovando que a música é mesmo a única linguagem universal, o grupo Lindigo, da Ilha de Reunião (França), encerrou a festa. Com um som contagiante, a banda se apresentou com um cantor e também sanfonista, uma cantora e mais seis percussionistas, cantando músicas de seus ancestrais - e não precisou do entendimento de uma só palavra para conseguir ganhar o público.

Em um show denominado "Off Porto", no Bar Burburinho, se apresentou mais uma sensação da música de Recife, Zé Cafofinho e Suas Correntes. O cantor e compositor vai do samba de gafieira ao jazz de churrascaria, passando pelo ska ao sambinha de mesa de bar. Mas não é só isso: Zé Cafofinho, que também se acompanha ao violino, também é parceiro musical de Arnaldo Antunes.

A festa Porto Musical, realizada com o patrocínio do BNDES e Ministério da Cultura e em parceria com a Womex, da Alemanha, uma das maiores e mais conceituadas convenções de música no mundo, passará a ser realizada a cada dois anos. A sexta edição já está programada para acontecer próxima ao carnaval de 2013.

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