Flashback: Neil Young e a Crazy Horse tocam a épica “Powderfinger”

Banda “chora” versão catártica, de 2013, da clássica canção de Rust Never Sleeps

GAVIN EDWARDS Publicado em 15/11/2015, às 10h05

Neil Young durante show com a Crazy Horse, em 2013

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Às vezes a música parece escorrer de Neil Young – que completou 70 anos na última quinta, 12 – de uma maneira que nem ele consegue entender. Segundo o produtor David Briggs, em algum ponto em 1975 Young comentou: “Acho que vou ligar a torneira”, pegou a guitarra e então escreveu metade de Rust Never Sleeps em um dia: “Powderfinger”, “Pocahontas”, “My My, Hey Hey (Out of the Blue)” e “Ride My Llama”.

Galeria: uma discografia selecionada e comentada de Neil Young.

“Powderfinger” é uma narrativa koan roqueira e inescrutável: uma música cantada por um homem morto, mas cheio de vida e desejo. O narrador, de recém-completados 22 anos, estava deixando a adolescência para trás ao defender a terra da família contra uma canhoneira que subia o rio. O dia em que ele vira adulto, entretanto, é também o dia no qual ele morre.

Young toca a música regularmente desde o lançamento, em 1979, mas levou décadas para ele conseguir contemplar todas as suas profundezas. Versões feitas há 30 anos (Live Aid de 1985, por exemplo) soam apressadas e agitadas, como se Young não conseguisse aguentar encarar por muito tempo a cena da morte.

Neil Young é um dos 100 maiores guitarristas de todos os tempos.

Recentemente, contudo, Young e a Crazy Horse têm tocado “Powderfinger” melhor até mesmo do que antes, como nesta excelente versão de 2013 em Sydney, na Austrália. Young desacelera e estende a canção por quase oito minutos. O baterista Ralph Molina e o baixista Billy Talbot travam o groove da canção enquanto Young apenas segue solando.

Young está contando a história do narrador com sua guitarra tanto quanto com sua voz: os solos são bonitos mas inexoráveis, uma lembrança de que a fé pode golpear você no rosto como o escudo de uma metralhadora. Assista à versão ao vivo de “Powderfinger”, na Austrália, abaixo.

Ao fim da canção, o narrador faz quatro pedidos. Um deles – “Shelter me from the powder and the finger” (“Proteja-me da pólvora e do dedo”) – não pode ser garantido: é um desejo final e desesperado de que ele possa não morrer. Com mais dois pedidos, o narrador espera ser lembrado: pela garota que ele amou e pelo ouvinte, que precisa entender que ele poderia ter alcançado muito mais se ele tivesse vivido por mais tempo.

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A quarta demanda vinda do fundo do túmulo: “Cover me with the thought that pulled the trigger” (“Cubra-me com o pensamento que puxou o gatilho”). Ele pode estar pedindo a você que cave a cova dele com raiva – ou apenas para lembrar-lhe de como ele morreu.

Perguntado pelo biógrafo Jimmy McDonough se “Powderfinger” era uma música antiviolência, Young disse: “Não sei. Depende de como você a interpreta. Pode ser. O cara vai dar um tiro mas acaba ele mesmo tomando um tiro. É apenas uma dessas coisas. É só uma cena, sabe?” Esta não é exatamente uma resposta definitiva, mas é confortante saber que uma das melhores músicas do catálogo de Neil Young é um mistério tanto para o autor quanto para os fãs.