"Gatos" fazem jazz experimental no Tim Festival

Um quinteto e dois trios fazem shows no penúltimo dia de festival em São Paulo

Por Artur Tavares Publicado em 25/10/2008, às 18h33

O pianista italiano Enrico Pieranunzi comandou show calcado no bebop
Ivan Storti

O quinteto polonês do trompetista Tomasz Stanko e os trios do pianista italiano Enrico Pieranunzi e do guitarrista norte-americano Bill Frisell fizeram nesta sexta-feira a última noite de jazz desta edição do Tim Festival paulistano. Foram apresentações conceituais, à exceção da de Pieranunzi, distantes do bebop ou do blues.

A platéia, quase cheia, recebeu como anfitriã a voz do pesquisador Zuza Homem de Mello, também curador do festival, que anunciou Stanko como "o melhor trompetista em atividade no mundo". O músico já tocou em um quinteto que tinha violino e saxofone. Agora, seu trompete é o único metal. É acompanhado por uma guitarra semi-acústica, um baixo elétrico e um piano.

A Rolling Stone também assistiu a duas outras noites de shows no Auditório do Ibirapuera, Sophisticated Ladies e Bossa Mod. Clique no nome de cada uma para saber como foi.

O primeiro show foi também o melhor da noite. Deixou James Back, seu baterista, comandar. Com sua criatividade e diferentes tipos de baquetas, o norte-americano deu um tom etéreo para a apresentação, dividida em três peças, cada uma com duas músicas. A primeira tinha "The Dark Eyes of Martha Hirsh" e "Terminal 7". Começou baixa, com o trompetista em maior destaque. Logo, baixo e bateria aceleraram e após menos de dez minutos, já eram aplaudidos pela primeira vez, em uma pausa de um solo de bateria.

Quando não estava tocando, o polonês observava seus músicos se tornarem um grupo de rock. Parecia impressionado com o que via, sempre com as mãos para trás com o trompete e balançando a cabeça com ar de aprovação. No segundo solo de Back, uma surpresa. O baterista passou um arco de violino em um dos pratos, como se aquele fosse o pequeno instrumento. Com uma mistura de batidas e de efeitos criados pelas vassourinhas, abriu caminho para uma nova investida do quinteto.

Todos os outros integrantes do quinteto já haviam feitos solos no palco, mas foi só em "Nice One" que Stanko fez o seu pela primeira vez. É muito rápido com as mãos, mas, aos 66 anos, teve que dar tudo de si para fazer bonito, como fez. A platéia aplaudiu ainda com mais força e por muito mais tempo do que das outras vezes. "Samba Nova" foi muito rápida e envolvente, dando uma virada por cima do clima etéreo das três primeiras músicas.

No solo de baixo em "Dirge for Europe", mais uma vez Stanko parou impressionado para olhar; a música continuava rápida e quente. Se agachou diversas vezes para beber água e descansar enquanto observava seus companheiros. Encerram "Eurofila" com uma longa Jam. Voltaram para o bis com "Sleep Safe and Warm", com mais destaque para Stanko, e saíram aplaudidos de pé pela platéia.

Após o rigoroso intervalo de quinze minutos, foi a vez do trio de Enrico Pieranunzi entrar no palco. Diferente de Stanko, ele conduziu seus músicos, os holandeses Hendrikus Van De Geijn e Johannes Van Oosterhout - contrabaixo e bateria - em cinco bebops, que tinham ainda a adição de uma técnica clássica de piano. Também tocaram três peças musicais.

Começaram com "From E. to C." - que após o fim da primeira peça foi dedicada a John Coltrane - e em seguida tocaram "Detrás Más Allá". Muito veloz no dedilhado, baixista abusava das duas cordas mais finas de seu instrumento, enquanto o baterista se concentrava nos pratos para dar o tom que Pieranunzi deveria seguir. Arriscaram um sambinha, aceleravam e desaceleravam. Se em um momento estavam tocando todos juntos, no momento seguinte dois dos três instrumentos repentinamente poderiam ser tocados com mais leveza para o outro ganhar destaque.

O italiano conversou muito com a platéia, arriscou um português muito bom para quem estava vindo para o país pela primeira vez, como fez questão de lembrar. Quando sentia que tinha falado algo errado, parava e esperava ser corrigido pela platéia, que educadamente respondia. Foi assim quando apresentou sua banda. "Gostaria que vos conhecessem meu grupo. Vos?". "Vocês", disse em coro a platéia baixinha. Pieranunzi riu, acompanhado da audiência.

A redução do estilo bebop para apenas três instrumentos mostrou que funciona em "El Canto de Los Dias", e também em "Persona", mais pesada e rápida que as anteriores. Ainda fizeram "Five Plus Five" e voltaram para um bis, com "Miradas". Foram ovacionados pela platéia.

Já o guitarrista Bill Frisell, também considerado um dos melhores do mundo em seu instrumento, fez uma apresentação em duas partes. A primeira, completamente experimentalista, com o uso de pedais sintetizadores e uma desconexão psicodélica com os sons do baixo e da bateria; a segunda, uma enorme jam session de blues.

Sua única composição tocada foi "Strange Meeting", a terceira da apresentação. Começou com "May man's gone now", de George Gershwin, e logo tocou "Raise 4", de Thelonious Monk. Nesta peça conceitual, foi rápido no dedilhado, mas não fez solos ou usou distorções. O baixo, com o menor volume entre os instrumentos, serviu para dar o tom.

Antes de começar sua peça de blues com "Masters of War", de Bob Dylan, acertou os pedais. Desde a primeira nota tocada a partir de então, passou a provocar e encarar o baixista, que devolvia com acordes mais habilidosos, que voltavam ainda mais complexos quando passavam pela guitarra de Frisell. Foi assim também durante "What's Going On", de Marvin Gaye, e de Baba Drame "Boubacar Traore".

Já passava de 0h30 quando saíram e voltaram para o bis, com mais quinze minutos de virtuosismo. Fecharam com "Love Sick Blues", de Hank Williams, e "A Change is Gonna Come", de Sam Cooke. A audiência já não era a mesma. Quanto mais perto o fim da noite chegava, mais pessoas deixavam o Auditório.

Ao fim da noite, não ficou difícil de entender por que a noite se chamava The Cats, ou "Os Gatos". O título, conforme contou Zuza Homem de Mello, é dado pelos próprios músicos de jazz àqueles que são considerados os melhores em suas apresentações.