Gene Simmons: “O rock está morto”

O baixista do Kiss também fala sobre Albert Einstein, Donald Trump e o que vai querer em sua lápide

Andy Greene Publicado em 25/09/2017, às 13h57 - Atualizado às 19h13

Gene Simmons
Associated Press

Já sonhou em receber Gene Simmons na sua casa? Se sim, tudo que precisa fazer é comprar o box The Vault e ele vai pessoalmente te entregar. Você pode até convidar um grupo de amigos (no máximo 25) e ele vai ficar duas horas na sua casa, talvez até tocar um som. Só tem um pequeno porém: a brincadeira sai por US$ 50 mil. Ele jura que vale a pena. "É o maior box de todos os tempos, tem material de 1966 a 2016," ele diz à Rolling Stone EUA. "Tem 150 músicas inéditas, incluindo uma que compus com Bob Dylan. Joe Perry aparece em uma faixa e os irmãos Van Halen estão em outras três. Muito do que tem lá é coisa que nunca consegui lançar porque estávamos sempre pregando o mantra do Kiss e muito daquilo simplesmente não soava como Kiss."

Nunca um rockstar do calibre de Simmons viajou pelo país visitando fãs em casa, mas o frontman do Kiss tem um longo histórico quando o assunto é encontrar novas maneiras de fazer dinheiro. Já vendeu de HQs a caixões do Kiss. Em uma conversa por telefone, ele compartilhou conosco as sabedorias que acumulou ao longo dos anos, falando de infidelidade, paternidade e sobre a morte do rock.

Qual foi o melhor conselho que você já recebeu?

A pessoa mais sábia que eu conheço continua sendo a minha mãe. Aos 14 anos, ela sobreviveu a um campo de concentração nazista enquanto toda a sua família foi morta. A perspectiva que ela tem sobre a vida é: “Estando vivo, todo dia é um bom dia, então busque alcançar as estrelas. Desde que ninguém esteja tentando te matar, o que você tem a perder?” Ela me ensinou também que sucesso é temporário. Quando mostrei à minha mãe meu primeiro cheque de 10 milhões de dólares, ela disse: “Fantástico. Agora, o que você vai fazer com isso?”. Ela está certa. É usar ou largar. Eu aprendi essa ética profissional com ela.

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Como você passa esses ensinamentos aos seus filhos?

Primeiro, eles nunca tiveram mesada. Além disso, não é permitido ficar chapado, bêbado ou fumar cigarro. Se quiserem fazer essas coisas, teremos que conversar – me conte primeiro, não depois. Se burlarem as regras, se forem contra minhas ordens, vão parar em um campo deserto cavando buracos, expulsos da minha propriedade e do meu testamento.

Você está com a sua parceira, Shannon Tweed, há mais de 30 anos. Qual é o seu segredo para um relacionamento duradouro?

Meu conselho para as mulheres é: larguem seus seus namorados. Procurem caras mais maduros, que talvez já tenham feito sua própria fortuna e que deixaram a vadiagem de lado – a maior parte dela, pelo menos. A vadiagem nunca deixará de existir, a propósito.

E o que fez você ficar com a Shannon esse tempo todo?

A Shannon é uma pessoa melhor que eu. Ela ficou do meu lado por 29 anos, criou dois filhos, o Nick e a Sophie, que são extraordinários, e, apesar de todas as minhas vadiagens, ela nunca foi embora. E aí tive um daqueles momentos de epifania: eu vou morrer solitário cercado por strippers ou pelas pessoas que amo? Então decidi casar com ela. Na verdade, me casei com ela de novo um ou dois anos atrás. Antes que você faça 60 anos, aproveite a vida ao máximo e não peça permissão a ninguém.

Qual é a sua cidade favorita no mundo?

Já estive por todo o mundo, mas para ser verdadeiramente honesto não tem lugar onde goste mais de estar do que os Estados Unidos – em qualquer cidade daqui. Existe uma certa liberdade de pensamento aqui. Você quer voar pelo ar? Desculpe, querido, isso foi inventado na América. Se você não gosta da noite, bom, a América inventou a luz. E a internet, o fast food, o rock and roll, o jeans – ou seja, a cultura do mundo é norte-americana.

Qual foi a compra mais hedonista que você já fez?

Nunca fiz. Eu moro no que a maioria das pessoas considera uma mansão, mas isso é um investimento. Tenho uma caminhonete, é a que eu dirijo. Uso uma calça jeans até ela se desfazer. Não tenho uma frota de carros de luxo. Não se trata de fazer muito dinheiro. Eu realmente tenho um bom montante, mas quando você é um atleta, compete com si mesmo e com todo mundo para garantir a melhor pontuação. Dinheiro é isso, apenas uma pontuação alta que você deve manter.

Você continua concordando com a sua afirmação de que o rock está morto, feita há alguns anos?

Deixa eu te perguntar: de 1988 até hoje, quem são os novos Beatles?

Eu acho que bandas como Pearl Jam e Radiohead...

Espera aí. Você está falando com um grande fã. Se Thom Yorke estivesse andando pelas ruas de Pasadena, o que aconteceria? Muita gente ficaria empolgada em vê-lo, isso é certo. Mas você está viajando. Astro mesmo era o Prince. Você podia vê-lo chegando a mais de um quilômetro de distância. Olha, o sistema está quebrado. As novas bandas de rock são como bebês. Você precisa dar a elas uma chance de surgirem com o melhor que podem fazer, aí elas começam com “Love Me Do” e acabam escrevendo “A Day in the Life.” Mas se as bandas têm que trabalhar para sobreviver, que é o que acontece hoje, isso nunca vai acontecer. É, o rock está morto. Não que não possa ressuscitar, mas o mercado está morto. E se o mercado está morto, o rock está morto.

Além da sua mãe, quem é seu herói?

Albert Einstein. Ele ia mal na escola e era um conquistador que se atraía por todo tipo de mulher, mesmo sendo casado e com filhos. E ele era singular. Einstein tinha uma facilidade extraordinária de pensar em coisas nas quais seres humanos nunca pensaram antes. Sem o Einstein, os japoneses e os alemães teriam vencido a Segunda Guerra Mundial.

Você acha que o presidente Donald Trump está fazendo um bom trabalho?

Ainda não.

Como assim?

Bom, eu acho que é preciso se livrar de todos esses caras do ISIS. A Coreia do Norte é um grande problema também. Se ele e o Rex Tillerson conseguirem resolver tudo isso, será um grande feito. A Rússia e a China só tumultuam.

Como você quer ser lembrado?

Sinceramente, não me importo com isso. Tive uma vida maravilhosa e continuo fazendo coisas incríveis todos os dias. Eu não tenho um “e se?”. Não tenho arrependimentos. E já sei o que quero gravado na minha lápide: "Obrigado e boa noite".