George Floyd, antes de ser brutalmente assassinado, era Big Floyd e deixou legado lendário no rap de Houston

Big Floyd participou do coletivo texano Screwed Up Click

Charles Holmes, Rolling Stone EUA Publicado em 03/06/2020, às 09h35

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Paul Wall, Bun B, Trae tha Truth e Cal Wayne (Ilustração e Fotos: Bob Levey/Getty Images, Gary Miller/Getty Images, Prince Williams/Wireimage/Getty Images, Izzeddin Idilbi/Anadolu Agency/Getty Images)

As palavras de Cal Wayne surgem rapidamente, uma por cima da outra. “Eu não vou mentir, é devastador”, disse o rapper de Houston, Estados Unidos. “Eu idolatrava ele.” 

Então Cal descreve a manhã na qual recebeu uma mensagem de texto de um amigo que mudou a vida dele. A mensagem era sobre um acontecimento que iria guiar milhões de norte-americanos nas ruas com palavras de protesto.

“É o seu irmão”, dizia a mensagem. Incluía um vídeo também. Antes de Cal assistir o clipe inteiro, a namorada dele chegou em casa e deu a notícia na qual ele não conseguia acreditar. Ela implorou para o parceiro terminar de ver o que, inicialmente, parecia só uma prisão. “Eu olhei e assisti”, falou Cal. “Eu não percebi que eles tinham acabado de matar meu nigga.”

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Cal conheceu George Floyd por toda a vida. Georgefoi o homem que sempre acreditou na carreira de rapper dele. “É o meu vizinho do lado”, ele disse.”Eu, na verdade, vivi com ele por três anos. Quando eu era mais novo, minha mãe foi para prisão. A mãe dele apenas veio e nos levou, e nós ficamos juntos com ela.” 

No dia 25 de maio, Floydfoi preso por quatro policiais de Minneapolis do lado de fora da loja de conveniência Cup Foods após um funcionário afirmar que ele usou uma nota falsa de US$ 20 para comprar cigarros. 

Por mais de oito minutos, o policial Derek Chauvin pressionou o pescoço de Floyd no chão com o joelho, enquanto três outros policiais - Thomas Lane, Tou Thao e J. Alexander Kueng - assistiam. 

“Eu não consigo respirar, cara”, Floyd implorou, chorando pela mãe dele antes de ficar inconsciente. “Por favor”. Floyd morreu e, de acordo com o médico legista independente contratado pela família dele, a causa foi “asfixia por pressão sustentada”. Ele tinha 46 anos.

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“[George] não era agressivo”, contou Cal. “Ele não iria machucar ninguém.”

 

Na noite antes dos protestos marcharem para o Houston City’s Hall, dois organizadores do evento, Bun B e Trae tha Truth, soaram sinceros. Mesmo que Floyd foi morto em Minneapolis - ele mudou para a cidade para ter uma vida melhor em 2014 - ele foi criado em Houston, na região de Third Ward. E, como rappers e pais texanos, Bun e Trae testemunharam o impacto pessoal que a passagem de Floyd tinha nas pessoas ao redor dele.

“Nesta sexta-feira foi o primeiro dia no qual meu próprio filho percebeu que, como pai de uma criança negra, alguma coisa poderia acontecer com as crianças dele nesse mundo apenas porque elas não negras”, disse Bun B. “Na verdade, isso me levou às lágrimas por ele, por ter essa percepção.” 

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Trae descobriu sobre a morte de Floyd deitado ao lado da filha dele na sala de estar. Quando um dos amigos ligou perguntando sobre a identidade do homem do vídeo quase viral, Trae precisou olhar por si mesmo. 

“Eu estava apenas perdido no momento. Assistindo aquilo, fiquei chocado”, falou Trae. “Então eu liguei para Cal Wayne. Ele estava sempre com o George antes dele se mudar para [o estado] de Minnesota. Quando eu liguei, ele estava chorando. Era muita coisa acontecendo.”

Por uma década, enquanto Trae organizava eventos comunitários com a parceira Tiffany Cofield, Floyd estava ali. “George, na verdade, dirigia [com Tiffany], Trae contou. “Eles dirigiam para lá juntos pelas coisas que eu estava fazendo. Eles estavam lá me ajudando na prática. Quando eu ajudava nos projetos, eu dava para eles materiais, comida, coisas diferentes. Ele sempre estava lá fora”. 

 “Ele acreditava nas pessoas ao ponto de parecer que acreditava nas pessoas mais do que acreditava em si mesmo”, completou Trae.

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De volta ao início de 2010, quando a música de Trae foi banida das estações de rádio depois de um tiroteio em um dos eventos que organizou, Floyd apoiou ele quando muitos artistas e apoiadores fugiram. Em um vídeo postado na conta do Instagram de Trae, um jovem Floyd - vestido com um boné para trás - defende o amigo dele e, consequentemente, a comunidade dele. “É sobre se unir, cara. Porque Deus é bom”. 

“Eu fui banido das rádio ao redor do mundo”, disse Trae. “Vai fazer 11 anos neste ano. Em um momento, muitas pessoas me deixaram. Elas não queriam falar comigo. Eles não queria ter envolvimento, porque eu estava passando por um momento difícil até ser barrado.” 

Ele completou: “[George], sozinho, foi protestar e fez vídeos no qual disse tudo que Trae fez pela comunidade, que todos estavam tentando fazê-lo parar e isso não era justo. Ele sempre lutou pelo o que era certo mesmo quando jovens da vizinhança faziam coisas que não eram legais. Quando tinha muita matança na nossa cidade, ele sempre falava, tipo: ‘Esse não é o jeito’”,

 

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Para esse que cresceram em Houston, George, também conhecido como Big Floyd, fazia parte de uma cena local crucial que influenciou muito o hip-hop moderno. Um integrante do coletivo Screwed Up Click, a voz de Floyd aparece nas mixtapes clássica feita pelo DJ Screw

Como o inventor do “chopped and screwed”, técnica de desacelerar a gravação até os vocais e a produção soarem como se tivessem sido arrastados pelo melaço - o falecido DJ, que morreu em 2000, criou uma marca sonora, impactando as paradas a partir daquele dia.

“[DJ Screw] era um inovador”, disse Russell Washington, presidente do Bigtyme Records para o The New York Times. “Quem poderia pensar que alguém viria, reduziria a velocidade, colocaria artistas locais que ninguém nunca ouviu falar e venderia 300 mil discos?”

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“Isso, automaticamente, amarra-o em um legado lendário”, Bun B disse sobre o envolvimento de Big Floyd no Screwed Up Click. “Tendo esse nível de proximidade com o DJ Screw, você automaticamente ganhou um certo status e tinha grande consideração na cidade de Houston.”

No fim dos anos 1990, o rap de Houston ficou sozinho, com a própria estética e órbita cultural. A divisão entre aqueles que faziam rap como uma profissão de tempo integral e os entusiastas era, muitas vezes, fluida.

A mixtape prolífica do DJ Screw inspirou muitos como Floyd a tentarem fazer rap entre outras atividades. Aconteceu em uma era antes dos CDs, downloads de MP3 e as redes sociais, que mantiveram viva a memória desses talentos fundamentais. “[Uma] tradição vocal [que é] passada para frente de pessoa para pessoa”, de acordo com Paul Wall

“[Big Floyd] fez rap em fitas, mas você também escutava outros rappers dizer o nome dele nas fitas. Big Pokey dizendo algo sobre Big Floyd. Lil’ Keke dizendo algo sobre Big Floyd. Mike D dizendo algo sobre Big Floyd”, Wall falou. 

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“Por exemplo, as pessoas que viriam seriam aquelas do cotidiano da vida. A mixtape dele [Chapter 007:] Ballin’ In Da Mall, essa é uma das quais tem uma lenda por trás da mixtape. Ele supostamente trabalhou na Foot Locker, ele e outras pessoas. Era um dos aniversários deles. Eu acho que foi aniversário de Big Floyd e eles vieram. E ‘o que você quer de aniversário?’. ‘Eu quero fazer uma gravação do Screw’. ‘Ok, no meu aniversário, todos vamos até lá’. É o que muitas pessoas fariam. É seu aniversário, você vai e faz uma gravação do Screw”. 

No início dos anos 2000, Paul Wall, junto com o resto da Swishahouse (Mike Jones, Chamillionaire e Slim Thug), cumpriram a promessa comercial que a geração do Screwed Up Click nunca teve a chance. Como um rapper branco, Wall não é apenas respeitoso com a memória dos rappers que povoaram as mixtapes de Screw, mas com a cultura de Houston que aceitou ele.

“Não importa onde eu cresci. Não importa quanto dinheiro eu dou para as causa da comunidade. Não importa quantos comícios ou protestos eu vou. Não importa quantas músicas eu fiz espalhando positividade e mandando uma mensagem. Não importa quanto tempo eu passei com a comunidade. Não importa que eu tenho uma esposa negra”, disse Wall. “Sendo uma pessoa branca nos EUA, você representa um benfeitor da escravidão na qual este país foi construído”.  

Bun B e Trae tha Truth viajaram para Minneapolis para protestar por Floyd e todas as outras pessoas negras norte-americanas que foram mortas pela polícia. Dias mais tarde, eles voltaram as atenções dele para o local em que nasceram. Embora Bun B não conhecesse Floyd pessoalmente, ele conhecia alguém que tinha. 

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Stephen Jackson, ex-jogador da NBA, é amigo de longa data de Bun B e um homem que chamou Floyd de "gêmeo". "Imagine isso, um homem crescendo em uma área onde as chances já estão contra ele", disse Jackson em coletiva de imprensa na semana passada. 

“Você tem a oportunidade de se afastar do ambiente que o derrubou. Você foge. Você se torna bem-sucedido. Você consegue um emprego. Sua vida começa a girar na direção certa. Você tropeça um pouco novamente. Isso não vale a sua vida."

Bun B, Trae tha Truth, a família de Floyd e os manifestantes estão pedindo uma legislação que abrange uma revisão de um comitê da comunidade independente com poder de intimação que pode obter e analisar as evidências sem interferência da polícia para conseguir penalidades mais severas para os policiais que cometem crimes como aquele  resultou na morte de Floyd

Enquanto a nova legislação não trará de volta as inúmeras vidas negras assassinadas pela polícia, se for bem-sucedida, ela começará a garantir que o mundo não seja privado de outro Big Floyd.

Poucas horas depois do protesto, pergunto para Cal como é ver o mundo inteiro lutar por Floyd. "Essa é a melhor parte", disse Cal. “Ele abalou o mundo. Big Floyd é realmente Big Floyd, agora. Agora, ele é um mártir."


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