"Faça-se luz", diz o Gogol Bordello

A algazarra multicultural da banda de Eugene Hütz energiza a plateia no dia em que meio país fica às escuras, enquanto o bom show do Super Furry Animals tem "apagão de público"

Por Anna Virginia Balloussier Publicado em 12/11/2009, às 00h33

Eugene Hütz, o líder do Gogol Bordello, comandou festa "cigana" na Via Funchal nesta terça, 10

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Talvez você não tenha ficado sabendo, mas na virada de terça, 10, para quarta, 11, um apagão pegou que nem gripe em vários estados do Brasil. Não fossem os celulares colados nos ouvidos, tal qual radinho de pilha para o jogo de futebol que você não pode perder, o público do Indie Rock Festival corria sério risco de passar batido pelo blecaute generalizado que pôs o país no noticiário de tudo o que é canto do mundo. Se o gerador da Via Funchal segurou a onda, foram os volts da quermesse balcânica promovida pelo Gogol Bordello que fizeram da casa de espetáculos algo próximo a uma grande aula de spinning, tamanha a energia no recinto.

Eugene Hütz é este ucraniano de longos bigodes que, de camisa com a bandeira de Pernambuco (fã confesso de frevo que é) e sua cara de "sou feio, mas tô na moda", desperta sentimentos diversos no público-alvo do festival. Se existe uma expressão que todo mundo usa para definir o som da banda sob seu comando é "caldeirão cultural" (com variações menos elogiosas, como "farofada étnica"). E esse caldeirão cultural, como se sabe, é expert em fritar sonoridades que passeiam pelos sons do Leste Europeu, dobram a esquina da música brasileira e se jogam na vala do punk. Foi esse fervente sopão sonoro que o Gogol voltou a derramar na plateia brasileira, após o igualmente pilhado concerto no Tim Festival 2008.

No show desta madrugada: estranhos se davam os braços e rodopiavam freneticamente, num ritual bizarro que passava tanto por arraial cigano como por dança da chuva numa São Paulo acalorada. Uma multidão que não sossegou um segundo ao também incansável som da banda formada por integrantes da Ucrânia, Rússia, Equador, Etiópia, Estados Unidos, Escócia e Israel. O vocalista autointitulado cigano que punha as mãos na cintura e comprimia os músculos do corpo magrelo como uma espécie de super-homem (ou anticristo) contra o tédio indie.

As faixas, em vez de engatadas uma atrás da outra, quase que se atropelavam. Deu-se, então, um bate-bate musical que enveredava histórias de reis visionários ("Wonderlust King"), mulheres que não param de usar roxo ("Start Wearing Purple") e o tal camarada que vai a Nova York para começar uma revolução cigana ("Think Locally, Fuck Globally"). Tudo o que importa, afinal, são as conexões tribais ("Tribal Connection") e os sentimentos primitivos do homem que, liberados lá no passado, não fariam ninguém ir ao xilindró ("Not a Crime").

O Gogol Bordello pode não ter mudado a vida dos fãs ou a opinião dos detratores. Mas, em quase duas horas de show, certamente fez daqueles metros quadrados uma fonte de energia inesgotável numa São Paulo escurecida pela pane em Itaipu.

Super Furry Animals: blecaute de público

Cena esdrúxula esta: bem mais apagado (com o perdão do trocadilho), o show de abertura, a cargo do Super Furry Animals, não atraiu mais do que algumas dezenas entre o público já escasso (menos de 20% da lotação máxima, de seis mil pessoas) para a frente do palco. Se um recall de injustiça fosse possível, muitos que saíram de casa pela esquizofrenia sonora do Gogol Bordello teriam abandonado as latinhas de cerveja na porta e entrado mais cedo na Funchal para conferir o rock ninado em psicodelia do grupo galês.

Gruff Rhys estava mais sereno nas primeiras faixas, como líder de uma colônia de férias hippie que leciona sobre coisas tão doces como a autodestruição em massa ("Slow Life", escolhida como uma das Nove Canções no filme de Michael Winterbottom). A certa altura, canta placidamente sentado sobre uma caixa de som. Em seguida, levanta um cartaz gigante com Nick McCarthy: ele encosta o microfone na foto do guitarrista do Franz Ferdinand, que colaborou com vocais em alemão para "Inaugural Trams", a música da vez no setlist do Super Furry Animals para o Indie Rock Festival.

Em 1h30, o SFA misturou faixas do recente Dark Days/Light Years ("Crazy Naked Girls", "The Very Best of Neil Diamond", "Inaugural Trams", "Mt.") com repertório das antigas, como "Golden Retriever", "(Drawing) Rings Around The World", "Juxtapozed With U" e "The Man Don't Give a Fuck".

A manha eletrônica veio com os vários efeitos sonoros, em geral distorções e estranhezas (como pingos de chuva) que espessaram a atmosfera psicodélica. O clima remetia a ex-pirralhos que, no passado, escutavam a trilha de Woodstock colocada pelos pais enquanto criavam as mais alucinantes viagens com bibelôs de berço (todos nasceram entre os anos 60 e 70).

O show fechou com "Keep the Cosmic Trigger Happy" e novo cartaz erguido por Rhys: desta vez, o retângulo branco com letras garrafais em preto solicitava "obrigado" (em português e no alemão "danke"). Como num sitcom em que a produção pede palmas da plateia, também sobem ao palco placas com as inscrições "aplauso", "fim" e "the end". O show do Super Furry Animals, de certa forma, pareceu uma daquelas séries que você nunca entende por que não vingaram nova temporada (no caso, o bis): dirigiam-se a um público específico com qualidade e carisma. Mais indie que isso, aliás, impossível.

Cidade dos festivais

A agenda cultural de São Paulo foi agitada nos últimos dias: além do Indie Rock, a cidade recebeu, no último fim de semana, os festivais Planeta Terra e Maquinária. Para você, qual foi o melhor show?