Golpe militar em caricatura

Pastiche marca o longa Reis e Ratos, estrelado por Selton Mello, Rodrigo Santoro e Cauã Reymond

Stella Rodrigues Publicado em 17/02/2012, às 07h58 - Atualizado às 12h03

Selton Mello em Reis e Ratos

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Para assistir ao novo trabalho do diretor brasileiro Mauro Lima (Meu Nome Não É Johnny) é necessário estar com a porta de acesso às aulas de história do colégio aberta. Mas, ao mesmo tempo, disposto a esquecer dela e atentar ao fato de tudo no filme é torto, muito torto. Vale retomar também na memória o período do auge das chanchadas no cinema, ao gênero noir detetivesco e à interpretação de sobrancelhas altivas e canastras dos atores clássicos da década de 50. Sim, Reis e Ratos passeia por tudo isso e chega ao fim sem se comprometer direito com nenhum desses estilos. Não é uma peça histórica, mas dá uma versão “alternativa” para explicar o golpe militar de 1964 no Brasil. É uma comédia, mas sem piadas claramente delimitadas no roteiro. Tem espiõe, tramóias e cenas em preto e branco, mas nada disso define muita coisa no filme, que estreia nesta sexta, 17.

Em suma, é uma produção que parece ter feito força para fazer tudo ao contrário: conta com a maior parte dos grandes atores do Brasil atualmente, mas teve orçamento baixíssimo, distribuindo cachês simbólicos, rodando em 17 dias e usando os restos cenográficos de O Bem Amado. Além disso, transformou Rodrigo Santoro em um sujeito feio e maltrapilho e Cauã Reymond em um radialista médium de trejeitos femininos com atitudes caricatas levemente irritantes. Sem contar que a trilha conta com uma faixa “Reis e Ratos”, feita por Caetano Veloso especialmente para o longa, mas ela só aparece no final, quando entram os créditos, sem interagir com a trama.

A mistura é tanta que o roteiro chega a ficar confuso em alguns momentos. O básico da história é que um agente norte-americano, Troy Somerset (Selton Mello), ao lado de um major brasileiro (o ótimo Otávio Müller), arma para cima do presidente de forma que ele, o agente, não seja mandado de volta aos Estados Unidos. Correm em paralelo as histórias da crooner encarnada por Rafaela Mandelli (que aparentemente não canta nada, já que não entoou uma nota ao longo do filme), o trambiqueiro Roni Rato (Santoro) e o marinheiro Américo Vilarinho (Seu Jorge), de forma que, como era de se esperar, todas as histórias acabam se cruzando. Iniciado em cores, o filme mostra de cara um epílogo, sendo depois convertido ao preto e branco para narrar a história pregressa dos personagens e voltar ao colorido no final para dar o desfecho.

O jeitão caricato dos personagens resulta em momentos divertidos. Selton Mello escolhendo fazer seu ianque já dublado foi uma sacada bem bacana. Em vez de ele ter um sotaque que lembraria Chapolim Colorado forçando uma fala americanizada, o ator aproveitou seu passado como dublador para falar da forma como as dublagens antigas costumavam falar, soltando pérolas típicas como “vamos mexer nossos trazeiros fétidos”. Por outro lado, em alguns pontos isso deixa o filme insuportável e risível (no mau sentido). Exemplo: a dança russa do personagem de Cauã Reymond quando ele “intercepta” mediunicamente os planos dos agentes soviéticos, em determinada cena.

É uma colcha de retalhos, mas talvez lembre mais aquela colcha de retalhos da avó, que já está gasta em algumas partes, tem furos em outras, mas vem carregada de histórias e referências e, portanto, a gente não se desfaz dela.