Grammy 2018: politicamente carregado, evento foi plataforma de diversas causas em meio a performances marcantes

Bruno Mars ficou com os prêmios de Álbum, Gravação e Música do Ano, sendo que venceu nas seis categorias a que foi indicado; Kendrick Lamar também foi destaque com quatro troféus

Rolling Stone EUA Publicado em 29/01/2018, às 07h54 - Atualizado às 11h04

Bruno Mars no Grammy 2018

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Bruno Mars e Kendrick Lamar dominaram a 60ª edição dos prêmios Grammy no último domingo, 28. Os dois artistas ganharam diversos troféus e fizeram algumas das performances mais memoráveis da noite. Mars obteve um feito impressionante: ganhou nas seis categorias nas quais estava indicado, sendo que três eram dos maiores prêmios: Gravação do Ano ("24K Magic"), Música do Ano ("That's What I Like") e Álbum do Ano (24K Magic).

Grammy 2018: Bruno Mars ganha Álbum do Ano e Kendrick Lamar brilha na cerimônia

Depois de faturar com o Álbum do Ano, Mars primeiramente agradeceu os outros indicados: "Lorde, Kung Fu Kenny [Kendrick Lamar], Jay-Z, [Childish] Gambino, vocês são a razão de eu ficar lá no estúdio arrancando os cabelos, porque sei que não vão fazer nada que não traga o máximo em termos de maestria artística e musical”.

Ele continuou relembrando o início da carreira, quando era um adolescente se apresentando para turistas no Havaí. "Montava um setlist com umas dez ou 12 músicas e, vou ser honesto, eu era incrível aos 15.” Ele contou que só mais tarde soube que aquelas faixas tinham sido compostas por Babyface, Jimmy Jam, Terry Lewis ou Teddy Riley. “Lembro de ver as pessoas dançando juntas, gente que nunca tinha se visto antes, dos dois lados do globo, brindando, celebrando. Tudo que eu queria fazer com este disco era isso. Essas canções foram feitas com nada além de alegria e com um único motivo de ser, que é o amor – era só isso que eu queria trazer com esse álbum."

Mars também foi premiado nas categorias Melhor Performance e Música R&B ("That's What I Like") e Melhor Álbum de R&B Album e Melhor engenharia de Disco Não-Clássico (24K Magic).

Já Lamar estava sob os holofotes desde o ínicio, já que ele abriu a cerimônia com um medley pesado e político de faixas de Damn. ao lado de U2, um exército de bailarinos e comentários de Dave Chappelle ("Eu só queria lembrar o público de que a única coisa mais assustadora do que ver um homem negro ser honesto nos Estados Unidos é ser um homem negro honesto nos Estados Unidos”, disse o comediante).

Depois disso, Lamar ganhou quarto prêmios Grammy: Melhor Performance de Rap ("Humble."), Melhor Rap/Performance Cantada ("Loyalty", com Rihanna), Melhor Videoclipe ("Humble") e Melhor Álbum de Rap (Damn.).

"Esse é um prêmio especial porque o rap foi o que me fez querer subir a um palco, fazer turnê, sustentar minha família e tudo isso”, disse Lamar quando foi aceitar o troféu de Melhor Álbum de Rap. "O mais importante de tudo foi que me mostrou a real definição do que é ser um artista. Eu achava que o importante eram os prêmios, os carros, as roupas, mas o mais importante é se expressar e colocar aquela tinta na tela para o mundo se desenvolver, e para o próximo ouvinte, a próxima geração depois disso. O hip-hop fez isso por mim."

O apresentador do Late Late Show, James Corden, voltou a comandar o Grammy este ano, mas em vez de fazer um monólogo ou performance de abertura, ele basicamente apareceu ocasionalmento para fazer uma piada aqui, outra gracinha ali. A mente por trás do “Carpool Karaoke" convidou Sting e Shaggy para fazer uma versão reconfigurada de seu quadro mais famoso no metrô de Nova York. Mais tarde, Corden cutucou o presidente Donald Trump organizando uma bateria de testes para a gravação do audiolivro da explosiva obra do autor Michael Wolff Fire and Fury. John Legend, Snoop Dogg, Cher, Cardi B e – a grande surpresa – Hillary Clinton leram trechos do texto para a esquete.

Outros momentos politicamente carregados incluir a abertura, com Lamar, e a performance de “Get Out of Your Way”, do U2, em frente à estátua da liberdade. Mas o momento mais potente da noite foi protagonizado por Kesha, que ao lado de Camila Cabello, Cyndi Lauper, Julia Michaels, Andra Day e Bebe Rexha fez uma versão de "Praying", faixa do disco dela (indicada ao Grammy) Rainbow. A performance serviu como uma declaração poderosa sobre solidariedade ao movimento Time's Up, que outros artistas apoiaram ao usar rosas brancas. Janelle Monáe fez a introdução de Kesha com um discurso comovente, durante o qual declarou: "Viemos em paz, mas estamos falando muito sério. E para aqueles que ousam tentar nos silenciar, digo apenas que esse tempo acabou”.

A cerimônia do Grammy está cada vez mais focada nas performances e menos na entrega dos prêmios, que são anunciados na festa não televisionada, realizada sempre algumas horas antes. Foram entregues apenas nove troféus durante a transmissão. No resto do tempo, Bruno Mars e Cardi B ensoparam o palco de nostalgia noventista; Luis Fonsi e Daddy Yankee mandaram ver em uma performance cintilante de "Despacito"; DJ Khaled fez um de seus tradicionais discursos inspiracionais antes de mostrar "Wild Thoughts" com Rihanna e Bryson Tiller; Ladu Gaga e Mark Ronson apostaram no minimalismo para apresentar "Joanne" e "Million Reasons"; Pink deixou para trás a teatralidade de performances como a que fez em 2010 e soltou a voz em "Wild Hearts Can't Be Broken"; SZA impressipnou cantando "Broken Clocks" e Childish Gambino mostrou sua impressionante amplitude vocal em "Terrified".

Também chamaram atenção as colaborações especiais, como Miley Cyrus cantando com Elton John, que foi o recipiente do prêmio de conjunto da obra. Eles se juntaram para interpretar “Tiny Dancer”. Eric Church e Maren Morris fizeram uma cover de “Tears in Heaven", de Eric Clapton, para homenagear as vítimas do massacre ocorrido no Las Vegas Harvest Festival e no bombardeio da Manchester Arena. Chris Stapleton e Emmylou Harris fizeram um tributo a Tom Petty com uma performance de "Wildflowers".

Outros vencedores notórios desta edição do Grammy foram Dave Chappelle, que ganhou na categoria Melhor Álbum de Comédia, e Carrie Fisher, que ganhou um Grammy póstumo na categoria Melhor Disco de Palavra Falada graças à leitura de sua autobiografia The Princess Diarist. Greg Kurstin recebeu o título de Produtor do Ano (Não-Clássico) pelo trabalho com Foo Fighters, Beck, Liam Gallagher, Zayn, Halsey, Kendrick Lamar, entre outros.

Entretenimento em Luta

Enquanto edições passadas do Grammy Awards sempre tenderam a reunir estrelas para performances inesperadas, este ano foi mais como uma jukebox de tudo que aconteceu no pop em 2017. Talvez tenha tido apenas um momento que foi a cara do Grammy: Kesha cantando "Praying" após o discurso introdutório de Janelle Monáe. A batalha legal de Kesha com Dr. Luke, que ela acusa de diversos tipos de abuso, é um dos casos mais proeminentes de agressão sexual do qual já se ouviu falar no mundo do entretenimento. A performance vocal dela serviu como um lembrete poderoso de que a luta por igualdade e justiça está apenas começando. Mas este momento “dedicado” ao Time's Up e ao #MeToo foi bem isso, um só momento em meio quase três horas e meia de transmissão. Enquanto Janelle deixou bem claro em sua fala que abuso sexual “também é um problema na nossa indústria”, a questão não apareceu em nenhum outro momento, ao contrário de outras questões sociais e políticas (igualdade racial e o governo Trump, por exemplo), que não tinham como ficar de fora, já que estão nas letras e na atitude de várias das faixas, álbuns e artistas vencedores da noite.