Guns N’ Roses atrasa 1h30, alterna hits com solos prolongados e faz homenagem a Ayrton Senna em São Paulo

Sexta e mais longa passagem pelo Brasil ainda terá apresentações em Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Recife e Fortaleza

Pedro Antunes Publicado em 29/03/2014, às 04h26 - Atualizado às 16h31

Guns N' Roses

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Como não se empolgar com “November Rain” ou “Sweet Child O' Mine”? E como suportar as canções do mais recente disco do Guns N’ Roses, Chinese Democracy, lançado em 2008, ou os solos exagerados de músicos contratados? Os fãs paulistanos da banda liderada por Axl Rose precisaram lidar com essa dicotomia sentimental durante a apresentação do grupo na Arena Anhembi, na noite desta sexta-feira, 28.

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Encarar o mito Axl de frente em 2014 pode não ser tão divertido quanto no fim dos anos 1980 e na década seguinte, quando a banda ainda conservava a formação original e trazia um frescor roqueiro a cada álbum, os clássicos Appetite for Destruction (1987), G N' R Lies (1988), Use Your Illusion I (1991) e Use Your Illusion II (1991). Depois que o vocalista perdeu Slash e companhia, passou a trazer músicos contratados para exercer as funções deles e o Guns degringolou.

Para constatar isso, bastava assistir à abertura da performance, com “Chinese Democracy”, música do último disco lançado pela banda, há seis anos. Apesar de ser a primeira faixa do show, a canção passou longe de empolgar e mostrou um melancólico cenário no qual o Guns N’ Roses se encontra atualmente: movido pela força dos hits com duas décadas de existência, a banda sobrevive do passado glorioso e pela curiosidade que o mito Axl instiga no público.

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Mesmo com o som bastante ajustado para aqueles que conseguiram ficar na frente do palco, seja na pista premium ou na comum, era possível perceber a voz de Axl se esvaindo diante da parede formada pelas três guitarras de Richard Fortus, Ron “Bumblefoot” Thal e DJ Ashba, ou escondida pelos backing vocals constantes.

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A todo momento, o vocalista dá mostras de que a voz já não é mais a mesma – e mesmo o fôlego parece faltar nas canções mais aceleradas, quando a tentativa de repetir o rebolado que o tornou famoso se mostra uma dancinha constrangedora. Axl esconde os 52 anos de idade com chapéus, óculos escuros e jaquetas largas o suficiente para não apertar a circunferência acentuada da cintura. A voz parece tremer para aguentar os agudos enfurecidos de outrora: em “You Could Be Mine”, a canção foi alterada para um tom abaixo, para que fosse possível ser executada ao vivo.

Fortus, Bumblefoot e Ashba fazem o possível para emular o carisma que Slash tinha sobre o palco. Só há um (grande) problema: enquanto o guitarrista que escondia o rosto com a vasta cabeleira era o criador da grande maioria dos riffs poderosos, o trio apenas faz o possível para não decepcionar os fãs – até os trejeitos de Slash no palco são imitados e Ashba ainda tem coragem de usar um chapéu similar à cartola do guitarrista original.

Todos os integrantes têm momentos solo para brilhar, ou, como é o caso de Bumbletoot, mostrar o trabalho solo – nesta turnê, o guitarrista vai ao microfone cantar a explosiva “Abnormal”. Já o baixista Tommy Stinson, do Replacements, decidiu por cantar e tocar “Holidays In The Sun”, do Sex Pistols. Apesar de parecer uma boa ideia, os solos se perdem na falta de criatividade e carisma dos músicos.

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Mas, mesmo diante de tudo isso, não há como deixar de se emocionar com “Don’t Cry” ou “November Rain”, faixas que contaram com uma grande quantidade de celulares colocados acima da cabeça dos fãs para o registro em vídeo – não basta assistir ao show, aparentemente, é preciso registrá-lo com as câmeras dos celulares.

Falta ao Guns criar uma nova identidade, já que a ideia de uma reunião com a formação clássica é praticamente impossível. Apenas Chinese Democracy veio após a debandada geral. O disco já tem seis anos de estrada e, mesmo com canções tocadas à exaustão, como “Better” e “This I Love”, não caiu no gosto do público que, nas laterais da Arena Anhembi, encontrava uma boa deixa para seguir em massa comprar cerveja.

Homenagens

Das covers tocadas no show, duas já fazem parte do repertório do Guns e se tornaram indispensáveis com o passar dos anos: “Live and Let Die”, do Wings, e “Knockin' on Heaven's Door”. O grupo aproveitou as várias vezes em que Axl deixava o palco para mostrar trechos instrumentais, com versões de Led Zeppelin e Rolling Stones. Bumblefoot aproveitou outro momento para executar o "Tema da Vitória", canção que invadia os lares brasileiros quando Ayrton Senna vencia alguma corrida de Fórmula 1 nos anos 1990.

Quando os hits vinham, contudo, o público incendiava mais do que a pirotecnia que surgia no fundo do palco em alguns momentos. “Welcome to the Jungle”, “It's So Easy” e “Mr. Brownstone” formam um trio de respeito para o início da apresentação. Axl não se furta em cantar “Civil War”, “Night Train” e “Paradise City” no volume mais alto possível, mas deixa a desejar justamente porque o público conhece o melhor que ele pode fazer no estúdio. E é o grande dilema do vocalista nesta (nem tão) nova era do Guns: tornar a banda relevante novamente. Público para isso, como o grupo tem comprovado nesta turnê brasileira, Axl e companhia têm de sobra.

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O Guns N’ Roses volta a se apresentar em Curitiba (Estádio Dorival Britto, dia 30), depois segue para Florianópolis (Music Park, dia 1º de abril) e Porto Alegre (Pavilhão da Fiergs, dia 3). O grupo visita Argentina, Paraguai e Bolívia, e retorna para tocar no Recife (Chevrolet Hall, dia 15 de abril) e em Fortaleza (Centro de Eventos do Ceará, dia 17).