Helio Flanders e as partes que vão embora

Vocalista do Vanguart fala sobre o álbum Boa Parte de Mim Vai Embora e o futuro da banda, incluindo um disco inteiramente em inglês, a ser lançado em breve

Bruno Raphael Publicado em 24/08/2011, às 17h17 - Atualizado às 17h24

Vanguart
André Peniche

Quase quatro anos após o disco homônimo de estreia, o Vanguart lança seu segundo álbum, Boa Parte de Mim Vai Embora. Vocalista da banda, Helio Flanders falou à Rolling Stone Brasil sobre tudo que acarretou a criação do disco, que tem a participação especial da violinista Fernanda Kostchak nos arranjos das canções.

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"Nós estávamos esperando esse disco como um: ‘E aí, será que a gente tem a manha mesmo? Será que ainda faz sentido estar junto?' E a gente viu: faz sentido pra caralho", diz o cantor e compositor. "O motivo [do hiato de quatro anos] foi a gente ficar satisfeito com o trabalho, sabe? Eu sou fã de música, tenho noção do que é um segundo álbum. Conseguimos realmente tirar um peso. Quando eu digo peso, falo sobre nossa responsabilidade com nós mesmos: um peso de nós cinco em cima do nosso trabalho."

O primeiro teste para Boa Parte de Mim Vai Embora foi o show de lançamento do álbum, ocorrido no SESC Vila Mariana no último sábado, 20. Sobre a recepção do disco pelos fãs que acompanham a banda desde o single "Semáforo", de 2006, Flanders diz não ter preocupação com críticas. "Primeiro satisfazemos o nosso sentimento vital de criação antes de agradar as pessoas", diz o músico. "Somos artistas mais sinceros hoje e, fatalmente, mais dolorosos. Quem é fã do Vanguart vai saber apreciar isso".

Indo na contramão do que ele clama ser um "bundamolismo" presente na música brasileira atual, Flanders diz que a dor implícita nas canções de Boa Parte de Mim Vai Embora, um trabalho essencialmente em pretérito, reflete apenas a vida que os integrantes levavam durante o processo de criação do álbum. "Acho que as pessoas colocam uma leveza nas músicas que não condiz com a vida", pondera Helio. "Nesse disco a gente passou por demônios emocionais. Cada um carrega o fardo que a vida lhe deu, mas eu tenho um pouco de bode com coisa muito ingênua ou pessoas de 40 anos que agem como se tivessem 16."

Segundo Helio, as influências que serviram de inspiração para o disco pouco têm a ver com o rótulo folk que marcou a banda. "Minhas influências nesse disco são basicamente três: [Walt] Whitman, [Jorge Luis] Borges e o rap", conta o músico. "Para mim, o rap é a linguagem mais atual e contundente de todas. Acho que tive uma influencia literária no rap que ninguém tira. Quem gosta de ler literatura, gosta de rap. E vai gostar de Boa Parte de Mim Vai Embora. É inegável o poder de um Mano Brown, um Emicida e de um Criolo."

Abrindo a tracklist de Boa Parte de Mim Vai Embora, está "Mi Vida Eres Tu". A música, de refrão em espanhol, é a única canção bilingue do álbum: todas as outras doze canções são em português, o que se provou um desafio para Flanders e Reginaldo Lincoln, principais compositores da banda, acostumados a escrever em inglês. "Foi natural. Eu já pegava o violão e começava em português. E tinha a questão estética, aí pensei: ‘Meu, será que eu dou conta de escrever treze músicas em português que tenham profundidade e tenham a minha cara?’ Desde 2007 eu vinha praticando isso. E, curiosamente, a maioria das canções são de 2010."

Gravado de forma independente, Boa Parte de Mim Vai Embora representou também o fim do ciclo do Vanguart com a gravadora Universal, com quem fez o álbum e DVD ao vivo Vanguart: Multishow Registro, de 2009. “Nós tínhamos várias músicas que eram vendáveis. Mandamos 25 músicas pra Universal e dessas, só ficaram [no álbum] ‘Eu Vou Lá’ e ‘A Patinha da Garça’”, conta Helio. "Se eu tivesse gravado um álbum na época do DVD, não teria rolado mesmo. Naquela época eu tinha noção que a gente não estava pronto. Então ‘desovamos’ algumas canções que tínhamos e começamos do zero. Gravamos esse disco de forma independente justamente pra fazer do jeito que a gente queria."

Sobre o futuro, Flanders deixa de lado o aspecto enigmático de antigamente e a possibilidade de um novo álbum já está presente. "É absurdo como a gente conseguiu vislumbrar isso. Já temos quase um disco inteiro em inglês pronto pra lançar na internet e o disco em português já está em ebulição", revela Helio, exclusivamente para a Rolling Stone Brasil. "Paralelamente a isso, eu e Reginaldo devemos ter um disco solo, com uma outra onda."

Pesando os prós e contras da história do Vanguart e de sua própria vida, Helio diz que "as partes que vão embora" não levam consigo nenhuma vontade de mudar nada do que já passou. "A gente não se arrepende de nada não. Eu acho que Boa Parte de Mim Vai Embora é a tradução de um passado, levo essas canções como uma lição aprendida: com essas mulheres, com esses sonhos e com esse passado", filosofa o músico. "O Vanguart não é contar piada... e quem faz samba assim não é de nada", ele ironiza, fazendo referência ao clássico “Samba da Benção”, de Vinicius de Moraes e Baden Powell.