A hora de Gotye

Músico australiano sente o gosto do sucesso com sensação causada pelo vídeo de “Somebody that I Used To Know”

Dan Hyman Publicado em 21/02/2012, às 16h34 - Atualizado às 18h57

Gotye
James Bryans/Reprodução Facebook oficial

No final de 2008, em uma noite gelada em Winton, uma cidadezinha nos arredores da Austrália cuja população era estimada em menos de mil habitantes, Wally De Backer, (mais conhecido pelo nome artístico Gotye) resolveu dar um passeio. No começo daquele dia, um morador o tinha levado a um lugar remoto da cidade. Perto de uma parada de caminhões, numa planície de terra, fica a famosa Cerca Musical de Winton. A cerca consiste de cinco grandes cordas amarradas em um poste de metal. Quando tocadas, elas geram um vibração incomum, com um som sereno.

De Backer, cujas canções mais intrigantes têm samples de ruídos naturais e outras coisas estranhas, não perdeu a oportunidade. Ele se aproximou da cerca, tocou as cordas e sampleou o som improvisado. O resultado está na linha de baixo cheia de reverberação de "Eyes Wide Open", uma das mais belas faixas do álbum Making Mirrors, lançado em agosto do ano passado.

Esse processo “faça você mesmo” de usar sons para criar algo ousado e novo está no cerne da elaboração das canções do multi-instrumentista e é o formato básico usado em Making Mirrors. “Eu estava atrás de descobrir sons que tivessem algum apelo pessoal para mim”, De Backer diz sobre a estrutura que escolheu para seu terceiro álbum. Ele já é um artista premiado na Austrália, mas é novidade para o público nos Estados Unidos. “Tem algo nisso que eu gosto”, filosofa.

De Backer, 31 anos, passou quase dois anos e meio escrevendo, gravando e escavando sons para Mirrors. Graças um vídeo no YouTube para o single “Somebody that I Used To Know”, parceria com a cantora neozelandesa Kimbra, que já teve 80 milhões de visualizações no YouTube, o álbum esta atraindo atenção nos Estados Unidos. De Becker já está acostumado com a aclamação da crítica. Ele é um superstar em sua terra. Mas ele está apreciando seu novo status na América do Norte: “Isso dá um frescor a minha arte”, ele diz. A música, inclusive, tem um sample de “Seville”, faixa do brasileiro Luiz Bonfá.

O músico de cabelo desgrenhado está agora tocando em shows lotados pelos Estados Unidos. Mas, contrastando com seu novo status de celebridade, ele conta que gravou seu disco em total isolamento. No começo de 2010, De Backer deixou sua casa em Melbourne e montou um estúdio na fazenda de 13 acres de seus pais em Vitoria, na remota Península de Mornington. Ele considera a rotina mecânica de estúdio profissional “uma perda de dinheiro”. Assim, seu jeito descontraído de gravar no celeiro combina com seu método louco de criação: ”Eu posso perder o tempo que quiser e gravar a hora do dia que quiser, no momento em que uma ideia surge. Combina bem com o jeito como eu escrevo e produzo.”

A maneira como De Backer compõe une métodos antigos e novos. Ele é rápido em descrever como vasculha lojas de discos e antiguidades para achar instrumentos antigos e discos obscuros para buscar samples. Ele simultaneamente cria o que chama de “versão virtual” de instrumentos acústicos ao criar samples múltiplos de gravações feitas em instrumentos anticonvencionais, como a kalimba e a chromaharp. “É como se eu olhasse para trás e para a frente ao mesmo tempo”, diz, explicando que esse processo serve para dar vida nova a instrumentos e gravações totalmente esquecidas. “Tem um aspecto de olhar para o passado e trazer esse sons para o presente. É como se eu pegasse um disco antigo ou um velho instrumento e fizesse uma justaposição com algo existente em um contexto mais moderno.”

Para De Backer, que começou como baterista, o ato de samplear se tornou um processo tão grande em seu ato de fazer música que ele perdeu a necessidade de ter instrumentos tocados “ao vivo”. Mas em “Eyes Wide Open” ele tocou bateria pela primeira vez em uma gravação. “Quando comecei a fazer música, estava tão entusiasmado e satisfeito em combinar samples no computador que entrei de cabeça nesse lance de programação de instrumentos. Eu deveria largar um pouco isso [a programação] e seguir em frente.”

Traduzir estas canções para um formato ao vivo também se transformou em um novo desafio. Backer agora está à frente de uma banda de cinco músicos em sua atual turnê norte-americana (eles recentemente tocaram no programa Jimmy Kimmel Live) e sente que “está desempenhando o papel de diretor musical”. Ele acha que o ideal é achar um canal adequado para se comunicar com seus colegas de banda e assim criar algo verdadeiramente especial: “É sobre como comunicar e desenvolver as coisas e trabalhar devagar a forma como você ouve as coisas”, ele teoriza sobre os desafios inerentes à recriação de canções tão intrincadas e pessoais junto a outros músicos. “Todo mundo ouve de uma forma ligeiramente diferente ou traz uma abordagem diferente para o resultado final”, conclui.