Quem são Hot e Oreia? Conheça a dupla mineira que une o teatro ao rap

Com o álbum de estreia, Rap de Massagem, a dupla se pauta em sátiras e resgata as raízes religiosas

Nicolle Cabral Publicado em 29/11/2019, às 10h28

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Hot e Oreia (Foto: Reprodução / YouTube)

"Eu não sei quem é o Hot e quem é o Oreia, que nome estranho", diz uma das dublagens que abrem o clipe do primeiro single, "Estilo", lançado em julho deste ano pela dupla mineira, Hot e Oreia. A faixa integra o disco de estreia, Rap de Massagem, assinado pelo beatmaker Coyote Beatz e Fred Pacoio.

É com essa preocupação estética e cômica muito bem alinhada que os mineiros saem na frente. Crias do Sarau Vira-Lata, projeto itinerante que engaja artistas na poesia em Belo Horizonte, e dos Duelos de MCs, a dupla protagoniza a cena cultural mineira a pelo menos cinco anos.

Para além desse território, o farol que os guiou para o line-up de alguns festivais, entre eles o Festival Cena que acontece neste sábado 30, no Sambódromo do Anhembi, foi o mesmo de Djonga, Clara Lima e FBC: a trupe DV Tribo.

Com eles, a dupla se reunia em estúdio como se estivessem em casa, rimavam em grupo e se apresentavam nas casas de shows e centros culturais da cidade. Hot e Oreia, desde então, se mostraram parceiros e assinaram vários trabalhos juntos, como "Consome" e "Diáspora".  

Desse aglomerado de influências que reuniam a literatura, artes cênicas, a cultura de rua e do hip-hop, Hot e Oreia acharam um equilíbrio que condensou todos esses pontos para a partir disso manifestarem os próprios personagens por meio da música. 

"Não somos rappers. Vestimos o rap para mostrar o que a gente sente das coisas que ouvimos desde pequeno", explica Oreia deitado em algumas almofadas coloridas em um estúdio de gravação em São Paulo para a Rolling Stone Brasil. Descontraídos e autênticos, esse é o clima da dupla.

Com a mesma tranquilidade contam como chegaram no conceito do primeiro disco, Rap de Massagem. Segundo Hot, o nome faz alusão ao "Rap de Mensagem" (que enfatiza a necessidade do gênero ser exclusivamente pautado por questões de cunho político). 

"A gente tinha feito na brincadeira, zoando o 'rap de mensagem', que é uma parada que a gente não faz", explicou rindo. 

"A ideia era fugir um pouco dessa coisa 'reta' do rap. E aí foi quando entrou uma peça fundamental no processo, o Henrique [conhecido por Fantasmatik, foi o produtor do disco]. Ele ajudou muito", completou Oreia. 

Mesmo que agora a dupla esteja em outro momento, com um empenho muito maior para construir o próprio som e fomentar a identidade que criaram, algumas coisas não mudaram. O clima de receber os amigos no estúdio, dar palpites e compartilhar aos poucos o que está sendo produzido se manteve. 

"Sempre tinha gente no estúdio dando pitaco: 'não, faz assim'. A gente tem muito disso, recebemos os amigos em casa e pedimos para que eles ouçam as músicas. Quando o disco foi saindo fomos mostrando tudo", conta Hot. 

Da mesma maneira, recebendo os amigos em estúdio, surgiram os feats presentes no disco. Ao longo das nove faixas, cinco recebem convidados, entre eles Rafael Fantini, Djonga, Luedji Luna, Luiz Gabriel Lopes e Marina Sena (os dois últimos integram o grupo Rosa Neon, também de BH). 

"Todo mundo é muito amigo. A música com o Luiz Gabriel [Rap de Massagem, que leva o nome do disco], foi gravada em um dia aleatório em 2018. Ele comentou que estava em BH e a gente se jutou para gravar de bobeira", explica Hot.

Ele acrescenta: "Com a Marina [Sena] foi a mesma coisa. Eu já tinha escrito a letra de 'Tema' com o Oreia, e eu trombei ela no rolê e ela topou."

Com batidas eletrônicas e os vocais fluídos da dupla, Hot e Oreia se destaca na construção dos diálogos nas faixas que, de certa forma, remetem à dramaturgia presente no teatro. Seja ao mudar o tom ou reforçar os adlibs (palavras de improviso entre as rimas), em cada faixa existe um personagem interpretado por eles de maneira tragicômica. 

E é claro que isso não veio por acaso. Tanto Hot quanto Oreia tiveram experiência com artes cênicas, participaram do teatro e retomaram essa vivência para fazer música. "Tá tudo na mesma caixa: o rap, o teatro. No final, a gente só faz arte", explica Hot. 

Além do disco, que já é um deleito nesse universo criativo criado por eles, a dupla investe no audiovisual ao lançar clipes que reforçam o atributo teatral. O clipe de "Eu Vou", em parceria com o Djonga, por exemplo, foi gravado em uma cidade no interior de Minas Gerais, Sabará, inspirado na peça Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna

"A gente pensou no clipe antes de ter gravado mesmo a música", conta Hot. 

"O Oreia escutou o beat e me falou: 'para tudo o que você está fazendo agora e escuta esse beat'. Ai eu parei em casa, ouvi e arripei até o cabelo de não sei onde", ri ao terminar de explicar. 

"E aí eu sentei no chão de casa e escrevi de uma vez. Mandei áudio pro Oreia e falei: 'tem um espaço no beat. É do Djonga'. Um tempo depois, mandei pra ele a parte do Oreia gravada no microfone dele e a minha no meu, tudo separado."

"'Cê é doido', respondeu o Djonga. 'Essa é a melhor coisa que eu já ouvi", relembram do momento com um sorriso.

Desse encontro, saíram as rimas mais afiadas do disco e que atribuíram a ele uma das mais características que apresenta.

"Ó tio, cê tá me dando medo / Disseminando o ódio, coitado do primo preto /
Fake news e zap zap, vicia que nem baque / Cê tá possuído, pelo KKK-crack /
Meus parente são PT, perda total / Agora tão dançando agarradin com Satanás /
Meus parente são o que? Mano, na moral / 
Parem, parem que eu tô passando vergonha demais"

Se em "Eu Vou", a dinâmica da dupla os fez apresentar o cenário mais pontual sobre a atual situação política do país, as fontes das quais sempre beberam também ganham espaço no disco, com temáticas definidas. A principal delas: a ancestralidade. 

Na abertura do disco, por exemplo, em "Eparrei", é apresentada uma saudação de Iansã (responsável pela chuva, tempestade e mudança no Candomblé - religião do qual Hot é iniciado há mais de um ano). 

"Mesmo que as pessoas não tenham ligação com a parada [religião], elas precisam ter consciência que isso é Brasil. E estamos em um momento em que isso está sendo massacrado", explica Hot.

"É sobre ter um ancestral comum. A gente coloca ali como um canto, uma energia, uma força. Mas ao mesmo tempo é um lembrete. É mais chamar do que ficar só apontando o dedo e falando: 'presidente vagabundo'. É trazer a parada mais bonita, com menos dureza. Porque acho que facilita um pouco para a galera puxar pela dança e pelo caminho da emoção".

De forma satírica e concisa, a dupla se lança como um dos nomes em ascensão da cena do rap nacional. Com apresentação marcada para estrear o disco no Circo Voador, no Rio de Janeiro, no dia 8 de dezembro, Hot e Oreia, ao divagarem entre os próprios personagens e inquietações, apresentam o exato momento em que o teatro e o rap se encontram e fazem disso a razão para não os perdemos de vista. 


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