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HQ sombria do autor de Astro Boy chega ao Brasil pela primeira vez

Ayako ajudou a estabelecer o quadrinista japonês Osamu Tezuka como “O Deus dos Mangás”

Ramon Vitral Publicado em 16/02/2018, às 18h45 - Atualizado às 19h49

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Capa do mangá <i>Ayako</i> - Reprodução
Capa do mangá <i>Ayako</i> - Reprodução

Se o quadrinista japonês Osamu Tezuka (1928-1989) entrou para a história como “O Deus dos Mangás”, muito se deve a Ayako. Apesar de a fama do artista no Ocidente ter sido fomentada principalmente por seus trabalhos mais infantis, o épico familiar em preto e branco recém-lançado no Brasil pela editora Veneta é considerado por alguns como a obra-prima do autor.

Lançado originalmente entre 1972 e 1973 como uma trilogia e até agora inédito nas livrarias brasileiras, o álbum apresenta a versão integral do trabalho mais sombrio, cínico e pouco esperançoso de Tezuka, completamente distinto daqueles que talvez sejam seus títulos mais famosos no Ocidente: Astro Boy, Kimba - O Leão Branco e A Princesa e O Cavaleiro.

Tezuka sempre fez questão de explicitar a influência dos trabalhos de Walt Disney em suas obras, mas o diálogo mais óbvio de Ayako é com o sofrimento, a culpa e o niilismo presentes nos romances do russo Fiódor Dostoiévski – de quem o artista adaptou Crime e Castigo em 1953.

As 720 páginas de Ayako são ambientadas no Japão pós-2ª Guerra Mundial. O retorno de um dos cinco filhos da tradicional família Tenge de um campo de prisioneiros dá início a uma série de eventos que culminam em um período de 24 anos da caçula do clã trancada em um porão por decisão unânime de seus parentes mais poderosos, com o objetivo de proteger a honra de seus pais e irmãos.

“Nenhum personagem chega ao fim de Ayako ainda inteiro”, escreveu o crítico Simon Abrams, do tradicional site norte-americano especializado em quadrinhos The Comics Journal. Abrams classificou a obra como “mórbida” e “ideologicamente complexa”.

Enquanto a ingenuidade da jovem Ayako é preservada por seu distanciamento do mundo, os pais e irmãos dela expõem todas suas idiossincrasias e rancores ao mesmo tempo em que lutam pela manutenção do poder e das riquezas da família Tenge e tentam proteger interesses pessoais.

O contraste entre os valores tradicionais da fechada sociedade japonesa pré-2ª Guerra e a modernização imposta pela regência dos Estados Unidos pós-1945 fomentam ainda mais as tensões dos Tenge.

Ayako chega ao Brasil no ano em que é celebrado o aniversário de 90 anos do nascimento de Tezuka, marcado também por uma exposição aberta no fim de janeiro durante o tradicional Festival de Quadrinhos de Angoulême, na França, comemorando a carreira do autor. A edição nacional ainda apresenta como extra sete páginas com um final alternativo cogitado pelo autor.

Além da presença do traço característico de Tezuka, marcado pelos cenários realistas e rico em detalhes e pelas feições caricatas de seus personagens, o mangá é obrigatório principalmente por seus aspectos singulares no contexto do conjunto da obra do artista.