Alemão, filme com Caio Blat e Cauã Reymond, cria faroeste desengonçado na favela carioca

Filme que estreia nesta quinta-feira, 13, exibe os últimos momentos de cinco policiais no Complexo do Alemão antes da invasão da polícia, em 2010

Pedro Antunes Publicado em 13/03/2014, às 11h29 - Atualizado às 13h16

Caio Blat
Divulgação

A sensação claustrofóbica, tiros, corpos estendidos sem vida no chão. Tudo que gira em torno de Alemão promove a impressão de estarmos diante de um filme de faroeste. Não deixa de ser uma espécie de western contemporâneo, com motos em vez de cavalos, capacetes no lugar dos chapéus e um grande complexo de favelas substituindo o costumeiro cenário de uma vilinha árida do oeste norte-americano.

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A produção, contudo, vacila justamente pela ausência de uma boa execução e chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 13, desengonçada, como uma boa ideia que não foi executada com o mesmo brilhantismo com o qual foi concebida.

A veracidade e profundidade necessárias para fazer o público embarcar na trama de cinco policiais infiltrados no Complexo do Alemão, conjunto de favelas no Rio de Janeiro, é tão rasa quanto caricatural. Perde-se o caráter humano dos personagens e ficam cascas vazias e sem humanidade.

Caio Blat (Samuel), Gabriel Braga Nunes (Danilo), Marcelo Mello Jr. (Carlinhos), Milhem Cortaz (Branco) e Otávio Muller (Doca) integram o esquadrão de inteligência da polícia carioca. São cinco homens infiltrados no complexo de favelas buscando colher a maior quantidade possível de informações para a tomada do local pelas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), que subiu os morros na capital fluminense na tentativa de tirar o poder do tráfico, em 2010.

O estopim para a ação se dá quando um mensageiro da polícia é descoberto pelos soldados do traficante Playboy (Cauã Reymond) dois dias antes da entrada da polícia e exército no Alemão. Ele escapa, após uma primorosa cena de perseguição de moto pelos becos do complexo, mas deixa para trás os perfis de quatro dos infiltrados. Com as identidades reveladas, Samuel, Danilo, Branco e Carlinhos encontram refúgio com Doca, único que ainda mantém a identidade secreta e vive como afável dono de uma pizzaria na favela.

Grande parte da história se passa no porão do estabelecimento, dando ao “faroeste carioca” ares de thriller. Claustrofóbica, a câmera do diretor José Eduardo Belmonte aposta em sequências velozes e imagens fechadas. Ao fundo, sons de tiros e gritos dos traficantes. Os cinco só precisam sobreviver até a chegada das UPPs, mas isso não parece ser realmente fácil.

Caricaturais, os cinco policiais se encaixam em estereótipos manjados, como o policial durão, fumante e viciado em jogo (Cortaz), o nerd de bom coração (Blat), aquele que se identifica com a comunidade (Mello Jr.), o ex-corrupto (Braga Nunes) e o veterano e sem pulso (Muller). Nenhum deles foge deste cabresto e não se descobre como cada um se tornou o que é. Os diálogos são uma sucessão de lugares comuns e gírias que soam tortas ao saírem das bocas dos personagens.

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Até mesmo o discurso político por trás da trama se mostra pouco direcionado, ora evidente, ora desaparecido como uma das vítima da guerra entre polícia e tráfico. Belmonte não tem medo de escancarar as boas intenções dos cinco policiais e tomar partido deles no meio da violência. São todos heróis bem intencionados de um faroeste urbano.

Discursos esperançosos com a tomada do complexo pela polícia são vomitados sempre que possível, enquanto isso, a personagem de Mariana Nunes, que leva o nome da atriz, faz o contraponto. Como moradora da comunidade (e ex-namorada e mãe do filho do chefe do tráfico Playboy), ela questiona o processo de pacificação. Nada disso, contudo, chega a um objetivo e os diálogos parecem funcionar apenas como tapa-buracos.

Ainda que os momentos de ação sejam capazes de manter a respiração do público presa por alguns instantes, logo a realidade está de volta e, com ela, a impressão de que Alemão traz uma grande ideia, mas mal realizada.