Eu Não Faço a Menor Ideia do que Eu Tô Fazendo Com a Minha Vida leva para as telas as crises da classe média jovem

“Se eu for esperar para fazer algo só quando estiver segura, nunca vou fazer”, diz Clarice Falcão, que estrela o longa

Stella Rodrigues Publicado em 21/12/2013, às 18h45 - Atualizado às 20h13

Eu Não Faço a Menor Ideia do que Eu Tô Fazendo Com a Minha Vida
Reprodução

Impossível não ter a sensação de “#classemediasofre” (assim, com hashtag e tudo) ao assistir à Eu Não Faço a Menor Ideia do que Eu Tô Fazendo Com a Minha Vida, novo filme de Matheus Souza, do ótimo Apenas o Fim (2008). Ao mesmo tempo, também não há como não se identificar com vários dos dramas da protagonista, Clara, vivida por Clarice Falcão. Rodado há dois anos e lançado apenas agora, o filme chega aos cinemas bem no momento quando a cantora, atriz e comediante é ao mesmo tempo uma das figuras mais amadas e mais odiadas da internet – o que não necessariamente terá algum reflexo nas bilheterias. No longa de nome longo, Clara e Clarice lembram uma versão nacional da atriz norte-americana Zooey Deschanel – com algo da personagem Amélie Poulain. Sempre vestida como a “garota-fofa-que-ama-unicórnios”, talvez para infantilizar Clarice de forma satisfatória, está perdida na vida. Acaba de ingressar no curso de medicina – o mais concorrido do país, apenas -, mas odeia a ideia de seguir na profissão. Então, com a ajuda de Guilherme (Rodrigo Pandolfo, onipresente no cinema nacional, ultimamente), ela falta às aulas e passa a investigar qual profissão quer seguir, um drama enfrentado por muitos vestibulandos. Aproveita a busca para reencontrar os parentes e perceber o quanto todos eles estão insatisfeitos com os caminhos escolhidos.

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“É um filme feito entre amigos, de orçamento irrisório, são todos universitários, foi o primeiro filme de muita gente da equipe. Com esse tipo de longa, você precisa aguardar a sorte de ter um espacinho no circuito exibidor”, diz o diretor sobre a espera para levar o projeto às telonas. “Acabou sendo positivo. Agora temos nossos próprios fenômenos dentro do filme, nossas estrelas.”

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Ele se refere, principalmente, ao fato de a Clarice Falcão pós-Porta dos Fundos, canal de comédia que estourou depois disso, e pós-Monomania, disco que ela lançou em 2013, ser muito mais conhecida do público do que aquela que rodou o longa. “É sempre doido. Tem uma agonia de que faria tudo diferente”, reflete a atriz sobre assistir ao trabalho tanto tempo depois. “Mas é bom ter registrada essa época em que eu faria as coisas assim. Quem tem tatuagem diz que não é pra você gostar dela para a vida inteira, mas aquilo de que você gosta naquela época ficou ali registrado”, diz. “É como quando você vai na casa da sua mãe e ela mostra para as visitas fotos suas no penico”, ri o diretor.

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O grande drama de Clara é descobrir para o quê ela tem talento, algo que vai ajudá-la a definir o que quer fazer na faculdade e na vida. Em certo momento, considera ser uma participante do BBB sem personalidade, algo que facilitaria a vida dela e a dos produtores do programa. Ela seria a garota que se molda às necessidades, ao que está em falta do mercado. Clarice já tem três profissões e Matheus foi visto como um garoto prodígio do cinema nacional quando lançou seu já citado primeiro longa. Ainda assim, os dramas ali no roteiro são exatamente os deles dois. “Eu ainda não me sinto ‘olha, que bom que descobri que tenho talento”. O filme diz que você tem direito de errar. Fazer as coisas é errar e eu não tenho vergonha de dizer, tenho meu único mérito que é fazer coisas que não sei fazer tão bem. Se eu for esperar para fazer algo só quando estiver segura, nunca vou fazer, sou cagona”, ri Clarice. “Eu comecei com o filme quando olhei no espelho e pensei exatamente o nome do filme. E vi que com todo mundo é assim, faz parte da vida”, lembra Matheus. “Tem aquela frase - provavelmente dizem que é da Clarice Lispector ou, agora do Nelson Mandela, que está mais na moda – que diz que ‘coragem não é ausência de medo, é você controlar o medo e aprender a conviver com ele. Acho isso real para todos os sentimentos de insegurança. Você não consegue não sentir, o que dá é para conviver”.

Crítica: Monomania

Os cinemas europeu e o norte-americano encontraram uma órbita para filmes assim, doces, meio existenciais, há algum tempo. No Brasil, eles ainda engatinham. A relação entre Clara e Guilherme lembra um pouco uma personagem criada – ou melhor, descrita - nas palavras do crítico norte-americano Nathan Rabin, que cunhou o temo “manic pixie dream girl” (MPDG), hoje parte da cultura pop. Trata-se da garota meio contente, meio rasa, um pouco tonta, “que existe apenas na imaginação fervorosa de roteiristas e diretores sensíveis” e que ajuda o mocinho do filme a se encontrar. No caso, é ela quem precisa se encontrar, esse é o foco - e uma diferença notável em relação ao clichê. Mas a busca de Clara acaba servindo como uma aventura para Guilherme, que larga o trabalho chato no boliche da família para ajudar Clara em tarefas como construir uma casa na árvore (para ver se ela gostaria de ser arquiteta - naturalmente) e passear pelo Rio de Janeiro.

“Eu gosto desse caminho. Meus filmes favoritos são do Noah Baumbach, Jason Reitman. É complicado porque ele não compensa por aqui, não vai para os festivais, não é sucesso de crítica, não faz parte do negocio da comédia. Fica no meio do caminho. É difícil de chegar ao cinema.”

Após dois anos das gravações (sabe-se lá quantos desde quando o diretor criou o roteiro), algumas das referências mais específicas soam um pouco datadas – de forma que nos faz pensar como soarão daqui ainda mais tempo. Mas isso não é algo que incomoda Matheus. “Eu penso principalmente no sentimento, até acho legal ter essas coisas datadas, fica de época”, diz. “É tão legal especificar”, complementa a atriz. “Começar por um sentimento comum a muita gente, algo vago, e depois especificar mesmo. Em qualquer curso de roteiro a primeira coisa que eles ensinam é a escrever sobre o que você conhece e o Matheus faz isso muito bem. Parece q vai ser de nicho, datado, mas especifica e dá verdade. Você percebe que, caralho, é um universo, é universo de alguém de verdade.” Matheus lembra que, aliás, é o universo de muita gente: “Sou eu, tudo que passei, é minha vida. Ainda assim, recebi centenas de e-mails de gente do Brasil todo – e da Holanda e Polônia e outros lugares - falando ‘sou eu!’.”

Filme pavê

Há algumas sacadas no filme que lembram bem o estilo dos diretores citados por Matheus. Umas mais óbvias, outras discretas. “Minha família é toda cheia de médicos de especialidades variadas. Fui pensar em problemas engraçadinhos com a profissão de cada um. Então, o cardiologista tem o coração partido, o oftalmologista não viu a vida passar, são várias coisinhas infames que fui fazendo para mim mesmo”, contou. “Meu tipo favorito de filme é quando tem uma camada e você vai assistindo outras vezes e sempre tem algo para perceber. Com Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças [de Michel Gondry], eu entendo uma coisa nova cada vez assisto. É um prêmio para quem vê mais de uma vez”. Outra piada diz respeito ao teaser do filme, que mostra personagens brincando de um jogo de memória em que, a cada rodada, o jogador deve acrescentar um novo item à lista, dentro do contexto dos outros, e sem errar a ordem. “Ela vai repetindo as profissões seguindo a mesma lógica. Quando ela erra, temos a virada do filme”.