La La Land: Cantando Estações fala sobre sonhos que nascem, morrem e se transformam

Filme musical estrelado por Emma Stone e Ryan Gosling é um dos fortes candidatos ao Oscar 2016

Paulo Cavalvanti Publicado em 18/01/2017, às 19h36 - Atualizado em 19/01/2017, às 15h05

Gosling e Emma: atrás dos sonhos
Dale Robinette/Divulgação

No cinema contemporâneo, apostar em musicais é um risco considerável. É possível argumentar que a versão cinematográfica de Os Miseráveis (2013) foi um grande sucesso de bilheteria, mas isso era esperado já que a peça original é bem conhecida e tem muitos fãs. Não é o caso de La La Land: Cantando Estações, que ainda assim se mostra ousado e cheio de frescor. Poucos têm coragem de criar um musical com material não testado, utilizando ideias e canções totalmente novas. O filme, que estreia oficialmente no Brasil nesta quinta, 19, ainda é um grande sucesso de bilheteria nos Estados Unidos e já se tornou alvo de um culto em miniatura, especialmente depois que ganhou sete prêmios Globo de Ouro.

La La Land: Cantando Estações não é endereçado a cínicos. Aqueles que não se deixam arrebatar pela mágica da música devem passar longe. O longa é basicamente sobre arte e como ela influencia as escolhas pessoais e profissionais. E também sobre coisas que estão esquecidas ou estão morrendo, como musicais antigos, jazz e filmes clássicos. Em outras mãos, poderia ser uma divagação sobre hipsters que cultuam manias vintage. Mas o diretor Damien Chazelle (Whiplash: Em Busca da Perfeição, 2014) soube usar as referências antigas sem cair do pastiche, na paródia ou em uma mera homenagem irônica e condescendente. O filme tem ritmo, vibração e, o mais importante, o coração e a alma dele estão no lugar certo.

Para aprimorar o resultado, Chazelle usou referências e citações de inúmeros filmes clássicos, como Ritmo Louco (1936), Casablanca (1942), Cantando na Chuva (1952), A Roda da Fortuna (1953), Sinfonia de Paris (1951), Amor, Sublime Amor (1961), dentre outros. Ironicamente, as duas principais fontes do diretor não vieram da era ouro de Hollywood. O cineasta, que tem ascendência franco-canadense, decalcou situações, cenas e a atmosfera de O Guarda-Chuva do Amor (1964) e Duas Garotas Românticas (1967), ambos do diretor francês Jacques Demy. Do primeiro, retirou o clima melancólico e a sensação de doce-amargo. Do segundo, o pique bombástico, o visual kitsch e a alegria de viver ao som do jazz.

Não é coincidência que as canções e o escore de Justin Hurwitz em La La Land sejam baseadas nas criações de Michel Legrand para os dois filmes já citados de Jacques Demy. É a mesma combinação da batida do jazz tradicional com a grandiosidade melódica dos poemas sinfônicos conduzidos pelo piano. As letras também são ambiciosas e comentam a trama com o humor, ironia e sofisticação de Cole Porter.

O filme já começa de forma delirante e nem um pouco quieta. Durante um engarrafamento, com as buzina ressoando de forma impaciente, uma garota com feições indianas (Reshma Gajjar) puxa a canção “Another Day In The Sun”, uma ode aos sonhos, frustrações, idiossincrasias e loucuras de Los Angeles. “Por trás destas colinas, quero chegar ao ponto mais alto e perseguir as luzes e o brilho”, diz a letra. As pessoas de diversas etnias, tribos e classes sociais saem de seus automóveis, cantam e dançam em uma coreografia que é vertiginosa e anárquica. A sensação é de ver o tema principal de Fama com a abertura de Duas Garotas Românticas. Em meio a tamanha euforia estão Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling). O canto e dança dos demais não os animam. Eles ainda não se conhecem e parecem serem os únicos que não estão satisfeitos em estarem presos no trânsito. Não entram no clima do carnaval improvisado.

Mia e Sebastian têm motivos para a rabugice. Eles são duas almas perdidas e sonhadoras que mais parecem habitar um parque temático retrô. Ela é uma mulher atraente, culta e talentosa, mas o resto do mundo parece não notar isto. Mia abandonou a faculdade e rumou para Los Angeles com a intenção de realizar o sonho de virar atriz. Mas fracassa em todos os testes em que faz. Tenta papéis em seriados adolescentes ou em dramas no estilo CSI (que ela odeia), mas só recebe em troca desdém e bocejos. Mia olha para os famosos que atravessam os estúdios e pensa se um dia vai chegar a vez dela. Enquanto isto não acontece (se é que vai acontecer), ela se vira trabalhando como barista na cafeteria do Estúdio Warner. Do apartamento em que vive cercada por pôsteres de Ingrid Bergman e de filmes dos anos 1940, ela vai para festas hollywoodianas com as amigas; mas se sente entediada e se esguia dos conquistadores baratos.

Já Sebastian é um talentoso pianista de jazz, mas infeliz, solitário e de difícil convivência. Ele é um purista e tradicionalista ao extremo. O jazz de que ele gosta é o antigo, da era quando aquela era a música mais popular do planeta, antes dos experimentos do bebop e do free jazz sequestrarem o estilo e torná-lo domínio dos intelectuais. Sebastian é uma figura vintage por excelência. Ele mora em um apartamento cheio de quinquilharias e tem como a mais amada possessão um banquinho que teria pertencido ao compositor e pianista Hoagy Carmichael. Ele lamenta que um clube onde os grandes mestres do jazz um dia tocaram agora tenha se transformado um point onde se ouve samba e sonha em abrir um clube de jazz em que as pessoas poderiam se deleitar com os improvisos dos músicos virtuosos que ainda cultivam o estilo. Contudo, nem emprego Sebastian tem, muito menos capital para uma empreitada como essa. "Cidade dos Sonhos, você não vai brilhar para mim?", ele canta em um píer, mirando as estrelas que iluminam o litoral. Ele se mostra meditativo, esperançoso e um pouco ansioso na recorrente "City of Stars", a canção-tema que exemplifica a filosofia do filme.

Atenção, pode haver spoilers

Depois de se conhecerem e passarem por alguns mal entendidos, Mia e Sebastian finalmente começam a sair e se soltar, a princípio apenas para ver até onde a coisa vai. Eles mal chegaram aos 30, mas ambos têm almas de alguém com 80 anos de idade e isso, de certa forma, os une. Fiel ao espírito das comédias românticas musicais de que tanto gostam, a dupla emula Fred Astaire e Ginger Rogers em "A Lovely Night". O número musical tem o espírito “você é um chato(a), não tem nada a ver comigo, mas eu inevitavelmente vou me apaixonar por você”. Eles se divertem e se apaixonam em uma Los Angeles que é ao mesmo tempo real e idealizada, cheia de luzes, horizontes amplos e iconografia cinematográfica.

Como fica claro, o romance entre eles é inevitável, mas fora do padrão, já que juntos se atiram em suas autoindulgências retrô. Em um momento, o casal vai assistir a uma exibição de Juventude Transviada no Rialto, um cinema especializado em velharias. Mas justamente na cena do filme que se passa no Observatório Griffith, o filme estrelado por James Dean enrola e a exibição é suspensa. Mia e Sebastian saem da sala para visitar o observatório in loco e vivem as fantasias que tanto os emocionam em filmes antigos. A realidade é suspensa; a atmosfera intencionalmente fake se torna real como nas antigas produções da Metro. Eles ensaiam um pas de deux e flutuam e dançam no ar ao som de uma valsa. Este momento se transforma em uma bela homenagem a Cantando na Chuva, quando Gene Kelly mostra a Debbie Reynolds como era possível criar mágica com os recursos de um estúdio. Só que aqui eles usam o que encontram no planetário.

Sem muita opção de carreira, Sebastian, de forma relutante, aceita tocar teclado na banda do amigo Keith (John Legend). Este é também um músico de primeira, mas não aceita o purismo do amigo. "É por causa de gente como você que o jazz está morrendo", ele diz a Sebastian. "É preciso modernizar." A banda de jazz funk liderado por Keith vira uma sensação. Sebastian ganha muito dinheiro com o estrelato pop, mas a agenda de turnês faz com que ele deixe Mia para trás.

Os conflitos surgem e Mia acusa Sebastian de ter se vendido ao comercialismo que ele tanto combatia. Ela segue insistindo para que ele finalmente abra seu clube de jazz enquanto ele sonha com a felicidade dela. Mia e Sebastian, por todo o talento, perseverança e confiança que têm, alcançam os sonhos. Mas é claro, tudo tem um preço.

Ryan Gosling e Emma Stone já haviam trabalhado juntos em Amor a Toda Prova (2011) e Caça aos Gangsteres (2013). A química entre ambos é evidente e imediata nesta terceira empreitada. Eles não são cantores ou dançarinos, mas é justamente a fragilidade e naturalidade de suas vozes e movimentos que torna La La Land uma experiência crível e charmosa. O grande mérito, contudo, é do diretor, Chazelle. A escolha narrativa que ele segue é adequada, incluindo até um final alternativo, uma espécie de filme dentro do filme. La La Land tem música, comédia e drama e em muitos momentos pode ser uma fantasia, mas não é exatamente um conto de fadas.

Na próxima cerimônia do prêmio Oscar, La La Land certamente estará concorrendo em várias categorias e terá uma competição acirrada. Manchester à Beira-Mar e Moonlight: Sob a Luz do Luar são excelentes filmes, produções com roteiros mais sérios e uma densidade dramática superior. Como pura experiência cinematográfica, o musical é superior aos outros candidatos. Pode ser o azarão da noite. O filme não é ingênuo ou meramente escapista. Fala de sonhos que nascem, morrem e se transformam. Toca em sentimentos como lealdade, compromissos e na dificuldade em conciliar as crenças pessoais com a rotina e a realidade frustrante. O filme junta encantamento, fantasia e muita nostalgia, além de ter uma trilha sonora memorável que pega na hora. Afinal, o cinema foi criado para isso.