As influências de David Bowie

Ainda que seja lembrado como o artista que serviu de inspiração para muitos outros, ele mesmo também tinha seus ídolos

Paulo Cavalcanti Publicado em 12/01/2016, às 18h22 - Atualizado às 18h30

David Robert Jones – o David Bowie – aos 18 anos de idade, em foto tirada no dia 15 de junho de 1965.

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David Bowie era um como esponja. O sempre mutante artista vivia se reinventando. Para isto, buscava todo tipo de fonte ou influência. Era natural que ele também se inspirasse em outros artistas, e às vezes, isso ficava muito evidente. Em outros casos, a coisa era mais sutil e apenas os mais observadores conseguiam saber de onde veio aquela inspiração.

Relembre a carreira de David Bowie em fotos marcantes.

O Yardbirds foi uma das grandes bandas inglesas dos anos 1960. Hoje, o grupo é celebrado por ter sido um celeiro de guitarristas – afinal, por lá passaram nada menos do que Eric Clapton, Jeff Beck e Jimmy Page. Mas ninguém se lembra do vocalista Keith Relf. Ele morreu em 1975, depois de ser eletrocutado em casa quando tocava guitarra em um ensaio. Relf, ao contrário de outros cantores ingleses que se inspiravam no blues e no R&B, como Mick Jagger e Eric Burdon (The Animals), não interpretava o blues tentando soar como um norte-americano. Relf tinha um jeito bem inglês e Bowie ficou de olho nele. O timbre "asmático" e com vibrato de Relf foi assimilado pelo artista, que morreu no último domingo, 10, aos 69 anos. E Bowie era tão cara de pau que muitas vezes entrava em clubes e shows sem pagar fingindo que era Relf –ambos eram loiros cabeludos e tinham a mesma altura. Em Pin Ups (1973), álbum em que Bowie fez covers de suas canções favoritas da década de 1960, a homenagem a Relf fica bem clara. Ele até cantou "Shapes of Things" e "I Wish You Would", canções gravadas pelo Yardbirds.

Eterna mutação: uma discografia selecionada com o que David Bowie fez de melhor.

Já Anthony Newley (1931-1999) é um caso curioso. Pouca gente se lembra do nome dele, mas já ouviu algumas de suas composições, dentre as quais estão "Candy Man", "Who Can I Turn To" e "What Kind of Fool Am I?". Newley era um homem de sete instrumentos: cantor, ator, compositor, escritor, diretor e showman. Ele fez muito sucesso nas décadas de 1960 e 1970, mas de alguma forma seu nome não se fixou na memória das novas gerações. David Bowie (1967), o primeiro álbum do cantor, não tinha nada a ver com rock. Era um disco teatral, sem guitarras, com toques de music hall. Algum desavisado na época poderia achar que era um trabalho de Newley, já que Bowie emulou com perfeição o vocal anasalado e impostado do mentor. Mas, é claro, as letras do álbum têm alguma morbidez, algo que nunca chegaria perto da produção de Newley.

Opinião: com David Bowie, a música não podia ser desassociada da imagem.

Em Scott Walker, Bowie achou uma espécie de matriz. Walker, cujo nome verdadeiro é Noel Scott Engel, é uma norte-americano que saiu de seu país e fez carreira na Inglaterra com os Walker Brothers (os outros "irmãos" dele eram John Maus e Gary Leeds). Quando se lançou na carreira solo, em 1967, gravou uma série de álbuns cultuados em que interpretava versões de composições do belga Jacques Brel, além de ter elaborado canções de próprio cunho altamente originais. Uma namorada de Bowie era fã de Walker e, assim, ele conheceu a obra do artista. A identificação foi imediata e ecos da música de Scott Walker foram ouvidos por toda a obra de Bowie. Na época do Thin White Duke, Bowie estava simplesmente radicalizando a postura de crooner e outsider de Walker. O álbum Nite Flights (1978), dos Walker Brothers, em que eles experimentavam com música eletrônica, foi uma inspiração especialmente relevante para Bowie. Ele gravou a faixa título em versão quase idêntica a de Scott Walker no álbum Black Tie White Noise (1993). Eles acabaram ficando amigos. Walker, que até hoje é uma das figuras mais enigmáticas e reclusas da história da música popular, até gravou um depoimento em homenagem aos 50 anos de Bowie. E o discípulo foi o produtor de Scott Walker: 30 Century Man o aclamado documentário sobre Scott Walker lançado em 2006 com direção de Stephen Kijak.

Relato: pelo direito de chorar por David Bowie.

O pioneiro Vince Taylor (1939-1991) foi um dos roqueiros mais viscerais das décadas de 1950 e 1960. Ele nasceu Brian Maurice Holden, na Inglaterra, mas depois foi morar nos Estados Unidos, onde não conseguiu emplacar uma carreira – usando blusão de couro e com uma postura selvagem, muitos o achavam um cópia de Gene Vincent. Contudo, Taylor obteve mais êxito na Europa, principalmente na França, com canções como "Twenty Flight Rock" e "Brand New Cadillac", mais tarde regravada pelo The Clash. Ele tinha um séquito fiel na Inglaterra, mas, em meados década de 1960, Taylor tinha entrado em declínio. Ele se envolveu com drogas e religião e vivia perambulando por Londres dizendo que era um mistura de Deus com um ser alienígena. Bowie o encontrou nessa época e se inspirou nele para criar o conto do roqueiro do outro universo que acaba caindo na terra. Assim nascia Ziggy Stardust, o personagem do clássico e influente disco The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972). Outra inspiração pra Ziggy foi o artista texano apelidado de Legendary Stardust Cowboy, cujo nome verdadeiro era Norman Carl Odam. O Legendary Stardust Cowboy lançou a amalucada "Paralized" em 1968. Bowie gostou do caos sonoro da música e depois cunhou o nome Ziggy Stardust em homenagem a ele.