Integrantes do Cranberries relembram Dolores O'Riordan e falam sobre o último álbum da banda

In the End tem gravações da vocalista, e será lançado em 26 de abril

Redação Publicado em 07/02/2019, às 13h52

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Dolores O'Riordan (Foto:Manu Fernandez/AP)

Durante as últimas sessões de gravação de In the End, último disco do Cranberries (que será lançado em abril), Fergal Lawler e os irmãos Noel e Mike Hogan, ainda não tinham acostumado com o fato de que Dolores O'Riordan não apareceria a noite para gravar os vocais. Ela raramente aparecia no estúdio durante o dia.

Dolores preferia chegar depois que o resto da banda já tivesse feito seu trabalho. “Ela ouvia o que a gente tinha feito, e então saíamos e ela fazia o que precisava ser feito”, conta o baterista Lawler

A vocalista foi encontrada morta na banheira de um quarto de hotel em janeiro de 2018, três meses antes de o trio começar a produzir o disco final da banda, usando as gravações inacabadas que a amiga deixou. O álbum marca o fim do Cranberries

Lawler lembra exatamente da primeira vez que a encontrou. Ela apareceu como candidata à vaga de vocalista para um grupo irlandês local então chamado Cranberry Saw Us. Depois de uma apresentação não muito excepcional, mas suficientemente cativante, o baterista entregou à jovem cantora uma fita com a melodia de “Linger”, e perguntou se ela voltaria para tocar na próxima semana.

Alguns dias depois, no ensaio seguinte, Dolores chegou com a letra pronta e cantando junto enquanto o resto da banda tocava seus respectivos instrumentos. Foi nesse momento que eles se deram conta. “Meu deus, ela é incrível”, Lawler lembra pensar.

Apesar de um recepção mediana no país de onde vieram, o Cranberries foi muito bem acolhido pelo público norte-americano, emplacando hits como a própria “Linger” e “Dreams”, além de “Zombie”, que refletiu a vontade da vocalista de fazer um som mais pesado. O auge do sucesso internacional chegou quando Dolores ainda estava com seus 20 e poucos anos, o que se mostrou pouco saudável para uma menina já instável.

Ela mesma se chamava de “desastre”. Só depois de algum tempo os integrantes da banda souberam do passado trumático da vocalista. Dos 8 aos 12 anos de idade, ela havia sofrido abusos sexuais. Fama e luxo (como um assistente de figurino particular) não foram o suficiente para amenizar a pressão e o sentimento de autodepreciação em Dolores. Talvez tenha feito exatamente oposto. 

“Foi muita coisa, e muito rápido”, recorda a mãe Eileen O’Riordan.

Depois de um hiato de 5 anos, e dois discos solo que passaram um tanto quanto despercebidos, Dolores se juntou de novo aos outros integrantes do Cranberries. Na época, ela começava a falar abertamente sobre seus problemas. Em 2014, foi detida por dar um pisão no pé de uma aeromoça e cabecear um policial, mas, após determinarem que ela era “mentalmente instável”, não foi presa, e precisou apenas pagar uma multa de US$ 6 mil.

De volta a 2019, e In the End chega para os fãs da banda daqui dois meses. Apesar de muita preocupação quanto à qualidade das músicas (já que as gravações deixadas pela vocalista não estavam completas), Lawler garante que o disco não soa como uma coletânea de partes desconexas.

Ele lembra também do último dia no estúdio, especificamente do momento em que, com a produção quase finalizada, os três integrantes escutaram a faixa “Lost” e desabaram a chorar. Além de todo o peso que a canção carrega, eles perceberam naquele momento que talvez tivessem tocado juntos pela última vez.

Há algumas semanas, Eileen admitiu ainda não encontrou forças para ouvir o disco. “Estou encantada que foi finalizado. Pensei que escutaria, mas não acho que estou pronta”, disse. “Acredito que agora ela está no céu. Acredito que ela está em paz”.