Pet Sounds, dos Beach Boys, foi lançado há cinco décadas

Disco que contém sucessos como "God Only Knows" e "Wouldn't It Be Nice" é referência até hoje

Paulo Cavalcanti Publicado em 16/05/2016, às 09h14 - Atualizado às 12h38

Os Beach Boys mudam tudo com Pet Sounds 1966
Reprodução

No dia 16 de maio de 1966, há exatos 50 anos, as lojas de disco norte-americanas colocavam em suas prateleiras o novo álbum dos Beach Boys. O quinteto californiano era a banda número 1 da América, tendo resistido até à invasão britânica e às inovações musicais, estéticas e sociais trazidas pelos Beatles. Ao cantar sobre surfe, carros, garotas, praias e um sol que nunca deixava de brilhar, os Beach Boys eram os menestréis de um estilo de vida hedonista e descomplicado que todos queriam ter.

Mas aquele disco, com uma chamativa capa ostentando um layout verde e amarelo, mostrando os rapazes no zoológico de São Diego entre cabras e bodes, tinha algo muito diferente do que se esperaria dos Beach Boys. Em primeiro lugar, havia o titulo: Pet Sounds. Isto já despertou curiosidade. O que seria? Um disco sobre animais de estimação? Não, na verdade, eram "os sons de estimação" de Brian Wilson, o líder, produtor e gênio por trás de tudo que os Beach Boys faziam.

Brian, na época com 23 anos, era um rapaz introvertido, socialmente desajeitado e que se sentia pressionado a fazer discos que vendessem milhões. Afinal, dependiam dele os irmãos Carl e Dennis Wilson, o primo Mike Love e o amigo Al Jardine, que formavam o resto dos Beach Boys. Brian teve uma crise nervosa em dezembro de 1964; ele tinha acabado de se casar e se encontrava emocionalmente desorientado. Parou de se apresentar ao vivo e preferiu ficar nos estúdio. Depois de criar álbuns inovadores como Beach Boys Today! e Summer Days and Summer Nights, e faixas como "Guess I'm Dumb" (dada ao amigo Glen Campbell, que o substituiu por um breve período na estrada), o chefe dos Beach Boys estava pronto para começar a dar vida ao LP que se chamaria Pet Sounds.

Nas sessões, Brian teve a chance colocar em pratica tudo que aprendeu com seus mestres inspiradores – Frank Sinatra, George Gershwin, The Four Freshman, Burt Bacharach e Phil Spector. Ele usou no álbum o chamado Wrecking Crew, um grupo de músicos de elite de Los Angeles que esbanjavam técnica e criatividade. Hal Blaine (bateria), Carol Kaye (baixo), Tommy Tedesco (guitarrista), Larry Knechtel (teclado) eram alguns desses músicos geniais. Eles conseguiam traduzir em sons as ideias avançadas e revolucionárias que habitavam a mente de Brian. Instrumentos exóticos eram usados. Baixos, guitarras e pianos eram tocados de maneira pouco ortodoxa. Brian era o capitão de seu próprio barco. Phil Spector tinha arranjadores como Jack Nitzsche para auxiliá-lo. Os Beatles contavam com George Martin para produzir e orientá-los. Já Brian fazia tudo sozinho. Assim, o apoio e o talento do Wrecking Crew foram primordiais para o êxito criativo dele em Pet Sounds.

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O álbum era uma junção impecável de letra e música. Tony Asher, um jovem que trabalhava com publicidade, teve a missão de passar para o papel os sentimentos e desvendar a complexa psique de Brian. Eles conversavam muito e o beach boy abria o coração e alma. "Brian achava que os hits antigos não tinham profundidade e queria tentar algo diferente", disse Asher ao biógrafo Kingsley Abbott. Com tanta carga emocional, Pet Sounds se tornou o disco ideal para os perdidos e perdedores, solitários e desajustados. Não era apenas uma crônica de amor que não deu certo (que sempre foi a matéria-prima da música popular). O trabalho cortava mais fundo. Os sentimentos e sensações no álbum são vários: perda de inocência, inadequação, revolta em ser passado para trás, medo de envelhecer e de ficar sozinho, questionamentos sobre o papel na sociedade, dificuldade de encarar as pessoas. O disco tem um pouco de tudo, mas não soa piegas, choroso ou apelativo. É como a vida: difícil, complicada, banal e também repleta de momentos de uma beleza sublime.

Hoje, Pet Sounds é instrumento de culto e sempre entra nas listas de melhores de todos os tempos. Mas é bom lembrar também que ele foi extremamente influente e importante na época em que foi lançado. Os Beatles ouviram o trabalho em primeira mão em uma festa no Waldorf Astoria Hotel, em Londres. Bruce Johnston, que entrou para substituir Glen Campbell quando este voltou às atividades de músico de estúdio, levou uma cópia do LP e o apresentou para elite do rock inglês. Logo que chegou em casa, Paul McCartney escreveu "Here There and Everywhere".

John Lennon e Paul McCartney tiveram que se virar para superar Brian. Revolver e Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band foram o fruto da inquietação do grupo. Os Beatles queriam desbancar Brian como o gênio de estúdio. Mas, honestamente, por melhor que tenham sido os discos clássicos feitos pelos músicos de Liverpool, não conseguiram reproduzir o turbilhão emocional criado pelos Beach Boys. Pet Sounds deu origem ao movimento chamado rock barroco, que trazia canções com toques de música clássica repletas de letras sensíveis. Forever Changes (Love) e Odessey and Oracle (The Zombies) são outras obras-primas que não seriam possíveis se Pet Sounds não tivesse aparecido antes.

A poderosa mensagem emocional sustenta o disco até os dias de hoje. Ouvi-lo é sempre uma experiência poderosa. As pessoas crescem, envelhecem e só olham para objetos, personagens e ações do passado como um mero exercício de nostalgia. Afinal, filmes, álbuns e livros servem para isso mesmo. Mas quando uma obra transcende o mero aspecto lúdico, nos deparamos com algo especial e mágico. Novas gerações tomam contato com o as faixas todos os anos. Se os senhores de cabelos brancos que eram jovens dos anos 1960 tiveram o coração partido quando ouviram, há cinco décadas, faixas como "Caroline No" e "God Only Knows", o mesmo pode ser dito sobre indivíduos que agora têm 20 ou 30 anos e acabaram elegendo Pet Sounds como o disco de suas vidas, decorando cada detalhe do produto.

Muito já foi escrito e ainda será escrito sobre Pet Sounds. Ele é como música clássica: vai atravessar o tempo. Mas para sentir um pouco do que o álbum representa para as pessoas, basta lembrar do que saiu na tira Doonesbury publicada nos Estados Unidos em maio de 1990 e veiculada em mais de 500 jornais. Doonesbury surgiu em 1970 e até hoje é popular. Criado por Garry Trudeau, ela tem um mensagem liberal/humanista que comenta com humor e ironia as contradições da sociedade norte-americana. A tira gerou polêmica inúmeras vezes com seus comentários políticos e sociais. Na tira sobre Pet Sounds, o personagem Andy Lippincott, paciente terminal HIV positivo, só tem um desejo: ouvir a versão em CD de Pet Sounds, que havia sido lançada naquele instante. Ele consegue. Mesmo muito fragilizado, Andy junta forças para apreciar, extasiado, a versão digital da obra suprema dos Beach Boys. Ele morre enquanto o aparelho toca "Wouldn't it Be Nice". No final, quando amiga Joanie descobrem que ele morreu, é consolada pelos médicos, que falam que Andy foi em paz, não sofreu. Em seguida todos descobrem que ele morreu segurando uma nota onde tinha escrito a frase: "Brian Wilson is God" (Brian Wilson é Deus).