Pet Sounds, que completa 50 anos, fala de decepções, perda e espiritualidade

Veja o faixa-a-faixa do disco

Paulo Cavalcanti Publicado em 16/05/2016, às 20h06 - Atualizado às 20h20

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Em linhas gerais, Pet Sounds poderia ser considerado uma ópera -rock sobre a chegada da maturidade. Embora não tenha sido planejado inicialmente como um álbum conceitual, a sequência de canções conta uma história. O jovem herói do LP que assume uma alta dose de perda e decepção é, sem dúvida, um alter ego de Brian Wilson. Com 23 anos, ele havia se casado, mas sentiu que tinha tomado uma atitude precipitada. Era apaixonado pela esposa, Marilyn, mas não se achava emocionalmente apto a satisfazê-la. Brian já dava sinais de misantropia e no futuro isso fez com que ele literalmente se isolasse do resto do mundo.

“Wouldn't it Be Nice” abre Pet Sounds e começa a história com jovens amantes sonhando com um futuro em que poderiam permanecer a noite inteira juntos. Eles esperam que seja eterno. A melodia é otimista, mas no final a canção traz dúvida e incerteza. Já a balada contemplativa “You Still Believe in Me” introduz culpa e ressentimento. A mensagem é que votos sussurrados em segredo podem ser negados em público. A faixa deságua em “That’s not Me”, que dá sequência ao enredo – o rapaz sai de casa e se depara com um mundo ruim e injusto: “Eu queria ser grande aos olhos do mundo, mas só me interessa o quanto eu poderia ser grande para uma determinada garota”. As emoções se avolumam e Mike Love, o vocalista da faixa, começa a narrar o drama criado pelo primo Brian. “Eu tive um sonho e empacotei minhas coisas”, ele admite ansioso e desesperado. “Mas logo descobri que minha vida solitária não era assim tão legal”.

Cada canção é respondida pela seguinte: “Don’t Talk (Put Your Head on My Shoulder)” é uma elegia romântica, com melodia e arranjo de música de câmara e que tem a voz de Brian apoiada pelo coral do grupo. “I’m Waiting For The Day” coloca o personagem em um perturbador novo papel: ele se depara com uma garota que é abandonada e ele fica esperando até o dia em que ela possa amar novamente. “Let’s Go Away for Awhile”, o primeiro dos dois etéreos e cinematográficos instrumentais, se choca com o hit “Sloop John B”. Embora a sonoridade da faixa seja compatível com o restante do álbum, o single de sucesso não ter nada a ver com o resto das canções. Foi colocada no álbum por insistência da gravadora Capitol.

“God Only Knows” é a jóia da coroa de Pet Sounds e abre o lado B. A introdução, com baixo a teclado, é uma das mais marcantes da história da música pop. A mensagem aqui é: você não é nada sem o amor da pessoa amada. Este é o chavão mais antigo e batido que há, mas a verdade é que Brian buscava a redenção espiritual com esta canção. Uma junção de arte e espiritualidade, “God Only Knows” é ancorada pelo vocal de anjo de Carl Wilson. A memorável ponte instrumental da canção é um dos fragmentos independentes que Brian criou a esmo no estúdio.

A saga continua com “I Know There’s an Answer”. Meio confuso, o protagonista ainda está de pé e lutando. “Eu sei que existe uma resposta”, relata Brian. “Eu sei, mas eu vou ter que achar por minha própria conta”. Logo ele descobre que promessas são quebradas de forma dolorosa. Na perturbadora “Here Today”, o narrador abandonado diz a outro sujeito: “Eu sou o cara que ela deixou antes de você a encontrá-la”. Construída sob um mar de mudanças de tempo melódicas e uma instrumentação vertiginosa, “Here Today” joga o ouvinte em águas turvas: “Tenha em mente que o amor está aqui hoje”, canta o vocalista Mike Love, “e, amanhã, se foi”.

Depois disso, o narrador ainda segue andando em círculos, a procura de algo. “Eu estou desesperadamente tentando achar gente que eu não vou ter que deixar para trás”, ele canta em “I Just Wasn't Made For These Times”, a declaração mais pessoal de Brian desde “In My Room”. Esta é uma canção sobre arte, amor, amizade e vida. O líder dos Beach Boys quer descobrir quem vai conseguir acompanhá-lo. E não encontra ninguém. “Toda vez que eu tenho a inspiração para mudar as coisas ao meu redor”, canta, “não aparece ninguém para descobrir os locais onde coisas novas podem ser encontradas.” Resignado, ele reforça o título da canção: “Eu acho que não fui feito para estes tempos”.

“Pet Sounds”, a faixa-título, um insinuante instrumental, antecede a declaração final, “Caroline, No”. É uma crônica sobre o fim da inocência e passagem do tempo. O baterista Hal Blaine acerta o fundo de uma garrafa mineral e cria um efeito arrasador de coração partido. “Onde foi parar seu cabelo comprido?”, pergunta Brian. Ele já não é um rapaz – agora é um homem e vive em uma terra estranha. “Onde está a garota que eu conheci antes?”, ele lamenta. Tudo parece igual, mas agora é um pesadelo. Brian Wilson, que já havia se despedido da alegria do verão, dava adeus às ilusões na metade de 1966. Naquele ano, ainda teria um grande triunfo com o single “Good Vibrations”, mas a implosão do ambicioso projeto Smile o jogou nas trevas por um longo período.