The Jacksons relembram Michael e suplicam por justiça racial em remix de 'Can You Feel It' [ENTREVISTA]

Jackie Jackson falou sobre novidades da carreira, política, Brasil e família em entrevista à Rolling Stone Brasil

Gabriela Piva | @gabriela_piva (sob supervisão de Yolanda Reis) Publicado em 02/04/2021, às 10h30

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Jackson 5. (Foto: Reprodução/Instagram)

Aos 69 anos e com um sorriso de quem conquistou o Hall da Fama, Jackie Jackson, apelido para Sigmund, fez jus à imagem de simpático ao responder com entusiasmo e humor à ligação da Rolling Stone Brasil. Apareceu sentado em uma das salas de TV da própria casa, rodeado de memórias dos tempos de Jackson 5 e dos posteriores TheJacksons.

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“Tenho vários quadros dos Jacksons aqui,” disse, orgulhoso, exibindo os arredores. Sentado em um sofá preto de couro em uma sala cinza-escuro, cercava-se pelas fotografias dos irmãos, pelos sonhos conquistados, pelo amor e pela saudade - tanto da mãe, quem não vê pessoalmente desde o começo da pandemia, quanto da família e do irmão Michael Jackson.

Nesse momento, Jackie mostrou a única expressão tensa da entrevista. A internet da lenda do R&B e Soul Music caiu por cinco minutos. Uma das desvantagens do jornalismo em tempos de pandemia: as entrevistas a distância podem ficar sem conexão. (Em opostos, existe a facilidade de entrevistar artistas internacionais por videochamadas). Dos vinte minutos disponíveis para conversa, perdemos esses cinco. 

Conexão reestabelecida. O papo continuou.

Aproveitando o tempo trancado em casa pela quarentena, Jackie relança os discos dos The Jacksons gravados pela Epic Records entre 1976 e 1978. As versões estendidas de The Jacksons, Goin’ Places  e Destiny entraram nas plataformas digitais em fevereiro deste ano. Os outros álbuns gravados na era pós-Jackson 5 (Triumph, 1980; Victory, 1984; e 2300 Jackson Street,1989) chegarão em abril. 

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Como explicou Jackie - com ar de quem conquistou os próprios sonhos - os fãs são a motivação principal para relançar os discos em 2021. Não satisfeitos, The Jacksons deixam outras novidades pelo caminho: um remix de “Can You Feel It,” de Triumph (1980), um hino antirracista escrito por Jackie junto ao Rei do Pop. (Sem poder detalhar, confirmou um disco com inéditas dos Jacksons: “Não posso falar mais nada além disso.")

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“Mostrei a nova versão de 'Can You Feel It' para Obama, ele amou” Jackie apontou para si mesmo, enfatizando a atitude. O ex-presidente sabia do remix antes da edição final - feita por Greg Curtis e John McClain - porque o staff de Jackie pediu permissão para Obama para usarem o discurso do político na música.

A ideia de abrir “Can You Feel It” com Martin Luther King e nos colocar para ouvir Obama surgiu de McClain, amigo de infância da família e produtor de Janet Jackson. Os olhos de Jackie ficaram enormes, arregalados, ao explicar o motivo do grupo escolher a faixa para remixar e lançar antes de outras. A música original, lançada na década de 1970, “fala sobre a atualidade."

(Sem dizer nada, a música e o alerta de Jackie me lembraram George Floyd, Breonna Taylor e tantas outras vítimas do racismo e da violência policial dos Estados Unidos).

 
 
 
 
 
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Muito mudou para Jackie na pandemia - assim como para o mundo inteiro. Inclusive os encontros familiares: costumavam se reunir em feriados e outras festividades antes do novo coronavírus espalhar. Juntos, cantavam músicas dos Jacksons, matavam a saudade e os rumores de que não se dão bem. “Agora, é tudo pelo Zoom,” Jackie caiu na risada ao responder como mantêm contato. Por ser parte do grupo de risco e partidário do isolamento social, fica em casa para se proteger: forma sutil de exercer política na atualidade. 

Katherine Jackson, de 90 anos e mãe dos Jacksons, parece ser a grande preocupação de Jackie. Para vê-la, teria de pegar um avião - atitude perigosa em meio à pandemia viral. Assim como o primogênito, a matriarca ainda não foi vacinada contra a Covid-19:

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“Minha mãe aguarda para ver se as pessoas terão alguma espécie de reação contra a vacina. Há quem tenha medo, ainda, você sabe, de ter algum efeito colateral,” explicou. (No Brasil, os imunizantes aplicados, como a Coronavac ou a vacina de Oxford, passaram da fase 2 dos testes e não apresentaram efeitos colaterais graves. De acordo com a Folha de S. Paulo, sintomas leves demonstram eficácia do medicamento no organismo humano.)

A vacinação, para Jackie, lembra o governo de Joe Biden e Kamala Harris. Na visão do artista, o atual presidente dos EUA foi um alívio: “É alguém que, de fato, faz algo pelo país,” contrapondo Trump. “Todos precisam se vacinar, todos,” enfatizou. 

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Também penso como deve ser a pandemia para quem lançou trabalhos a vida toda e, logo em seguida, saiu em turnê. Apesar de uma carreira de 20 anos ativos, os irmãos se apresentaram no Brasil apenas duas vezes: em 1974 (como Jackson 5) e em 2019 (como The Jacksons). 

A última vez foi especialmente emocionante para Jackie. Lágrimas escorriam pelos rostos dos fãs no camarim: “Aquelas pessoas cresceram conosco, tornaram-se advogados e médicos. Foi tão emocionante que me peguei chorando de alegria."

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Planos para turnês, no entanto, não faltam. Apesar de não divulgarem a agenda de shows, existem datas para agosto deste ano em festivais de músicas na Inglaterra. Anteriormente, visitaram o país para se apresentarem para a Família Real: “A Rainha gostava tanto de nós, a ponto de nos convidar duas vezes para tocar para ela. Para você ter ideia, tinha toda a nossa discografia."

O palco lembra duas das maiores saudades de Jackie. A primeira, as apresentações ao vivo. A segunda, uma saudade da adolescência: "Meu irmão Michael Jackson, quem não está mais conosco"

O Rei do Pop morreu em 2009 por uma overdose acidental. Faz Jackie relembrar os anos dourados dos Jacksons: "Quando estou no palco, consigo visualizar perfeitamente onde [Michael] e se posicionaria para cantar, como se movimentaria. A presença dele é muito forte - até porque fotografias antigas passam no telão e nos ajudam a relembrá-lo."

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Quatro irmãos que não precisam de mais nada, mas ainda são apaixonados pela música, pelo palco e pela energia do público, os Jacksons ainda fazem história. Com as lembranças do passado, as reedições dos discos e o planos incertos de futuras turnês, o grupo trilha o caminho para uma nova fase e um disco com inéditas. Enquanto isso, a legião de fãs do mundo inteiro pode aproveitar as renovações dos álbuns e das músicas de sucesso.

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