Jair Naves, ex-Ludovic, busca o redescobrimento em carreira solo

Depois de EP lançado em 2010, cantor e compositor apresenta seu visceral disco de estreia no CCJ, em São Paulo

Pedro Antunes Publicado em 13/10/2012, às 11h27 - Atualizado em 17/10/2013, às 15h15

Jair Naves
Patrícia Caggegi / Divulgação

O canto dos pássaros chega junto à voz de Jair Naves do outro lado da linha. A pureza e a paz das aves, em um daqueles inexplicáveis acasos, coincide com o reconstruído Jair Naves, que fala com a Rolling Stone Brasil naquele fim de tarde pelo telefone.

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O visceral (não existe palavra melhor para defini-lo) ex-vocalista do Ludovic, grande banda de rock de garagem independente da primeira década dos anos 2000, em São Paulo, hoje aos 32 anos, passou por uma transformação. Agora como artista solo, ele ainda traz sua energia e letras cativantes, mas é mais maduro e, principalmente, seguro de si.

Jair se apresenta neste domingo, 14, com o disco E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando a Fuga, Cavando o Chão com as Próprias Unhas, no Centro Cultural da Juventude, em São Paulo, após uma longa jornada pessoal de autodescobrimento de quase quatro anos. Do fim do Ludovic, em 2008, banda com dois discos criada por ele oito anos antes, passando pelo redentor EP Araguari, em 2010, o single “Um Passo por Vez”, do ano seguinte, até a sua última criação, lançada agora por meio da Travolta Discos e da Popfuzz Records.

É como se cada um desses lançamentos fosse uma fotografia de um momento do músico. O peso e a sujeira do Ludovic foram completamente exterminados em Araguari, ainda que as letras tivessem mantido os sentidos metafóricos e autobiográficos. Dos dois extremos, Jair encontrou o rumo final com E Você Senta Numa Cela Escura.... Um caminho acidental, garante ele.

“Algumas coisas levaram a isso. Uma delas foi que este é um disco que eu quis que fosse gravado praticamente ao vivo. Em Araguari, fiz cordas e um pouco de teclado quase sozinho. Fiquei muito tempo no estúdio, numa tentativa de acerto e erro contínua. Na análise que fiz posteriormente, o disco poderia ter soado um pouco mais orgânico”, avalia o músico. No novo trabalho, a crueza voltou por ter sido “gravado num período de tempo muito curto, sem muitas tentativas, que dá uma urgência maior do rock”.

O EP de 2010, entende ele, teve um caráter de dissociação com a sonoridade do antigo grupo, daí o motivo de tal curva abrupta na trajetória. “A ideia era não me repetir. Para mim, não era interessante que aparecesse um projeto novo que remetesse tanto ao Ludovic”, analisa. “Hoje, eu me sinto um pouco mais confortável para tentar alguma coisa que lembra a minha antiga banda”.

“Claro que não vou fazer um funk carioca”, brinca Jair. “Mas você só consegue manter o interesse pelo seu trabalho se não se repetir muito. Se não for para a contramão do que esperam, pelo menos é tentar fazer uma coisa inédita para você.”

Em E Você Se Sente Numa Cela Escura..., Jair volta com dez canções que trazem o melhor do seu repertório. Se nos tempos de Ludovic, Jair chamava a atenção não só pela insanidade nos palcos, mas também pelas letras que traduziam, de forma muito íntima, a angústia e frustrações dos jovens nos anos 2000, o músico chega a 2012 experiente . Aos 32 anos, ele entende melhor a forma como palavra e melodia se unem numa canção do que aos 20. “Nos tempos do Ludovic, tinham trechos falados, porque não conseguia encaixar letra e música”, confessa Jair. “As palavras em português são mais longas, tem sílabas tônicas diferentes.”

Para Jair, as referências básicas ainda são Bob Dylan, pelas crônicas em forma de canção, e a explosão sonora do Black Flag e a poesia do Velvet Underground. No Brasil, elas chegam nas vozes de Caetano Veloso e Titãs, com o imprescindível Cabeça Dinossauro. “A minha relação com música sempre foi muito textual.”

E imagética. Jair não é um dos melhores compositores de sua geração por acaso. Com uma fórmula rítmica diferenciada e uma inigualável voz grave, ele canta desamores e o fundo do poço como poucos. “Vem até mim um senhor de fala lenta / Diz que bebendo assim eu nem chego aos quarenta / Teima que sabe bem o que deixa um homem no estado em que eu estou / e me alerta que a autopiedade é a sequela mais comum do amor”, canta Jair em "No Fim da Ladeira, Entre Vielas Tortuosas". A cena é comum para qualquer um que já tenha sofrido de amor na Rua Augusta. “Eu moro perto de lá”, comenta Jair, aos risos. “Você acertou em cheio.”

São outras preciosidades como “Pronto Para Morrer (O Poder de uma Mentira Dita Mil Vezes)”, “Poucas Palavras Bastam” e “Maria Lúcia, Santa Cecília e Eu”(uma homenagem à mãe, Maria Lúcia) que configuram o álbum como um livro de contos reunidos por Jair por meio de uma identidade sonora. O nome do disco, mesmo, vinha de uma música que acabou excluída da versão final do álbum por ter uma batida mais rápida do que as outras.

E Você Se Sente Numa Cela Escura... não possui a mesma estética conceitual de Araguari, que vinha como objeto central a cidade de Minas Gerais de mesmo nome, onde Jair nasceu, e era algo quase como uma ópera rock com início, meio e fim. Porém, as dez canções acabam se unindo pela forma peculiar de Jair cantar e compor.

Ainda que ele esteja acompanhado por uma banda – Renato Ribeiro (guitarra), Alexandre Molinari (baixo), Thiago Babalu (bateria), Alexandre Xavier (piano) e Cimara Fróes (sanfona) -, Jair agora está sozinho. O menino ainda inseguro que tinha como proteção o nome de uma banda passou dos 30 anos e caminha encarando o mundo de frente. Com calma o bastante para se dar ao luxo de prestar atenção aos pássaros que cantam na copa das árvores por onde caminha.

Jair Naves em São Paulo

14 de outubro de 2012, às 18h

Centro Cultural da Juventude – Av. Deputado Emilio Carlos, 3641, Vila Nova Cachoeirinha

Preço: Entrada gratuita (300 ingressos retirados a partir das 17h)