Jair Naves transforma inquietude política em caos, ruído, amor e saudade no disco Rente

Revelação do Prêmio APCA em 2013 e morando em Los Angeles, artista lança primeiro álbum solo depois de 5 anos

Pedro Antunes Publicado em 03/05/2019, às 19h09

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Jair Naves lança o disco 'Rente' (Fotos: Meredith Adelaide / Divulgação)

A verdade é que Jair Naves torcia pelo pior para suas músicas. Que se tornassem datadas e sem sentido album. Torcia para que Rente, álbum enfim lançado nesta sexta-feira, 3, se tornasse um daqueles pacotes de biscoito jogado no fundo da prateleira de "itens próximos do fim do prazo de validade". "Mas, pelo contrário, fui percebendo que elas estavam, na verdade, prevendo o que viria a acontecer", ele diz.

Rente, pelo contrário, ganhou força ao longo da gestação de um ano e meio, em quatro sessões de estúdio em São Paulo. Em vez de se enfraquecer, ele ganhou força em meio ao caos político vivido pelo Brasil desde 2017, quando começou a ser gravado.

Eleito como o artista revelação pelo prêmio APCA em 2013, quando rompeu estilisticamente com o som que produzia com a antiga banda, o Ludovic, uma ruidosa e deliciosa união de distorção, fundo do poço e corações partidos, para se transformar como artista solo, Jair Naves é um compositor de mergulhos.

Cada um dos álbuns lançados por ele até aqui foram assim. De Servil (2004) e Idioma Morto (2006), com o Ludovic, a passar pelo EP Araguari (o tal rompimento estético, comportamental e também autoral de Naves), e e chegar aos álbuns da fase solo, os discos E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando a Fuga, Cavando o Chão com as Próprias Unhas (sim, tudo isso!, de 2012) e Trovões a Me Atingir (2015) - vale incluir, na lista, o álbum mais delicado e amoroso, NavesHarris, criado entre ele e companheira norte-americana Britt Harris.

Com fúria e textos profundos por vezes mais proclamados do que cantados, Jair Naves é uma figura interessante da cena independente paulistana. Nos tempos de Ludovic, havia um sentimento de que "qualquer hora esse magrelo e alto vai morrer sobre o palco".

Pois não morreu e, na beira dos 40 anos, Jair Naves ainda é fácil de se encontrar a caminhar pela cidade dada à altura, mas mais impactante que isso é sua voz grave, retumbante. "Existem bons cantores e cantores com personalidade", ele diz, em dado momento, em papo com a Rolling Stone Brasil, "eu me considero um cantor com personalidade."


No contexto da frase acima, Naves elogiava as boas vozes ouvidas na sua nova morada, nos Estados Unidos, desde novembro de 2017, quando mudou-se para Los Angeles. Um resumo: Jair Naves conheceu a musicista e também atriz norte-americana Britt Harris e, apaixonados, decidiram morar juntos; de princípio, ela veio para o Brasil até que ele conseguisse ajustar sua vida e carreira para morar no exterior, o que aconteceu dois anos atrás.

E por que é importante saber que Jair Naves mora em Los Angeles para se falar de Rente? O disco, afinal, só existe da forma como é possível ouvir em qualquer plataforma de streaming, porque a distância entre São Paulo e Los Angeles é de quase 10 mil Km.

Quando deixou o País, meio no susto, ao conseguir concluir as burocracias necessárias para viver legalmente nos Estados Unidos, Naves largou por aqui uma parte de si aqui. Foi se tornar o estrangeiro, o gringo, o latino, aquele que não nasceu ali.

"Eu me senti ainda mais brasileiro. Porque era o brasileiro, o latino, as raízes pesam, pode morar onde for, você sempre vai ser lembrado de onde veio", ele analisa.

Ao mesmo tempo, o País do lado de cá fervia. Enquanto construía Rente à distância, Jair Naves via o Brasil desabar a partir de uma cisão entre "eles versus nós", "direita versus esquerda", "coxinhas versus mortadelas", entre outros tantos nomes.

"Eu tinha algumas preocupações com esse disco e essa temática", diz Jair, sobre o seu trabalho mais político. "Pensava que poderia ficar datado ou que eu estava caminhando mais por esse caminho do que eu deveria. Estamos vivendo uma polarização tão grande de vertentes e opiniões. Desde que comecei a fazer essas músicas, eu não consegui mais escrever sobre outras coisas."

Longe geograficamente de tudo, Naves se assustava com o que lia e ouvia. "Existe uma completa falta de empatia. Isso me pegou muito. Eu fiquei obcecado por esse tema".

Com tantas horas de voo de distância, Jair Naves se aproximava do Brasil ao escrever sobre ele, ao colocar para fora, da forma sempre visceral e barroca. "Quando se está longe, as pessoas pensam que você está em um conforto, com uma segurança maior. Para mim, foi uma sensação de isolamento, de preocupação constante. O que acabava chegando lá eras as manchetes mais chocantes."

"Você não tem ideia de como estão seus amigos e família", segue Naves, "se eles estão bem e qual é o real cenário, entende?"

Rente foi gravado ao longo de quatro sessões de estúdio em São Paulo, em novembro de 2017, janeiro, abril e outubro de 2018. Nesse período, Jair Naves passava de dois a quatro meses na casa dos pais para cuidar da carreira e se manter na ativa por aqui também. Rente foi gravado também por Renato Ribeiro (guitarra, violão e vibrafone), Rob Ashtoffen (baixo e sintetizador) e Lucas Melo (bateria). A produção é assinada por Naves, gravação e mixagem assinadas por Zeca Leme (BTG Studio) e master de Fernando Rocha (El Rocha). 

Grito político

Da primeira leva de canções, foram cinco, quatro delas sobreviveram até a versão final de Rente: "Mácula", Lampejos de Lucidez", "Rente" e "Tudo Grita".

Existe um claro reflexo do atual estado do Brasil em Rente, é claro. Jair Naves é, dentro do seu próprio universo estético, incisivo como sempre. "Qualquer busca por empatia, a essa altura, é ingenuidade", ele decreta no primeiro verso do álbum, na música "Veemente". "Eu me defendo esperando o pior", ele conclui, na mesma estrofe.

Discussões acaloradas, violência, falta de empatia, caos, medo. Rente representa a confluência de todos esses tormentos. Mas há mais. "O título vem dessa ideia de proximidade, de estar tão próximo a tentar entender e analisar, que, na verdade, isso te cega. Você não sabe por onde começar e passa a questionar. É a falta de um distanciamento necessário."

Rente é, em título e em canções, um álbum intensamente pessoal de Jair Naves, mas também é seu álbum mais exterior. E Você Se Sente Numa Cela Escura… e Trovões a Me Atingir eram nomes de discos mais narrativos, individuais. Agora, Naves expande sua temática também.

"Também existe o fato de estar longe, que oferece uma sensação de estar com as mãos atadas e que talvez você não consiga fazer nada. Não estar aqui [no Brasil], presente, é uma influência neste disco até por conta da dificuldade de adaptação nos Estados Unidos."

Um olhar mais atento, portanto, percebe que esse também é um álbum sobre o sentimento de isolamento, de rompimentos, de distância. A voz de Naves soa mais retumbante, com canções rasgadas e imensamente políticas em sua maioria, mas a melancolia já inerente agora é extravasada por inconformismo que beira a raiva.

Rente é um retrato de um artista distante do seu antigo habitat, a tatear um mundo novo, enquanto vê sua casa em chamas. Um disco de alguém com dois lares e, dividido, não ocupa nenhum deles. São fantasmas novos e antigos a assombrá-lo.

"As entrevistas contigo são uma espécie de de análise", brinca Jair Naves, durante o papo telefônico.

"Era um momento de transição e isso [o disco, com sua temática] foi algo com o qual me agarrei, tem um valor pessoal. Por estar tão ligado ao Brasil e quisesse tanto falar do Brasil."

Fragilidade depois da superfície

Portanto, ainda que a superfície de Rente, o terceiro disco solo de Jair Naves, se pinte muito como um álbum político, ele também é dramaticamente pessoal. Um dos grandes compositores da sua geração, Naves tem coragem de dizer aquilo que tanta gente tem medo de expor: sejam angústias, vontades ou dúvidas.

Há, no disco, lindos registros de fragilidade.

"Nas costas da minha mão,
lembrete apagado, um borrão
conselho e também confissão:
'eu não posso mais errar'", diz a letra de "Mácula"

Ou ainda em "Gira", uma canção com silêncios e mais vazia, algo ainda inédito dentro da obra de Jair Naves, quando a busca por adequação no novo mundo, nova vida, novo amor, se escancaram:

"Giro em torno de ti
eu cresço, eu mudo, eu moldo
Tudo em torno de ti
Não tem mais volta
Dentro de mim, eu sei:
não tem mais volta
Esse amor
não tem mais volta", ele canta, suave, delicado, com uma voz que chega a tremer.

É normal, contudo, encontrar tantos nuances em cada disco do artista. Nada é uma definição única, assim como é difícil encontrar uma só palavra para descrever suas líricas e sua voz.

Portanto, se Rente bater como um álbum político, como se dá o primeiro encontro com ele, tudo bem, também. Grande parte dele dialoga diretamente com o atual momento do Brasil de 2019, mesmo gestado a partir de 2017, por meio das lentes de Naves.

"O homem reprimido é o câncer social", ele decreta na vinheta "O.H.R.E.U.C.S.", 10ª faixa do disco.

Jair Naves lembra, com pesar pela situação, de como Brasil, álbum dos Ratos de Porão, ainda se faz atual, mesmo em comemoração de 30 anos de lançamento. "Eu sacrificaria o disco numa boa se ele se tornasse datado", ele diz, com a mesma veemência das suas criações. "Mas ele acabou se tornando uma previsão do que viria a acontecer."

Ouça Rente, novo disco de Jair Naves: 


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