Entrevista: Jair Rodrigues conta por que Herbert Vianna disse que ele era o "pai do rap"

Cantor de "Deixa Isso pra Lá" morreu nesta quinta, 8

Cláudia Boëchat Publicado em 08/05/2014, às 12h09 - Atualizado às 13h04

O último trabalho de Jair foi o disco Samba Mesmo, dividido em dois volumes, lançado em 2014 com clássicos do samba
Jair Oliveira / Divulgação

O primeiro sinal de que Jair Rodrigues estava por perto era o som de uma gargalhada deliciosa. Depois, surgia aquele homem simpático, que cumprimentava a todos que o cercavam sempre com um largo sorriso nos lábios e uma canção na ponta da língua. Conversava com um, conversava com outro; fazia fotos com todos que lhe pediam sem reclamar. Ao contrário: ele cantarolava. Como publicou o Facebook do artista, a morte de Jair Rodrigues nesta quinta, 8, aos 75 anos, deixa o mundo mais triste.

Além de ter entrado para a história da música popular brasileira pelo talento ímpar, Jair ajudou a fazer a história da nossa cultura - e lá fora também. "'Deixa Isso pra Lá' foi o primeiro rap gravado no mundo", ele disse em entrevista à Rolling Stone Brasil, em meados de 2012, sobre a canção composta por Alberto Paz e Edson Menezes. "Quando eu fui para o Festival de Montreux, na Suíça, o Herbert Vianna também estava lá, com os Paralamas do Sucesso. E ele me deu essa informação, de que eu seria o pai do rap. Eu falei: ‘Eu sou pai do Jairzinho, da Luciana, que diabo de filho que você quer arrumar para mim, rapaz?’ [risos] Ele disse: 'Na verdade, é um ritmo que está surgindo, e o primeiro versador desse lance é você'.”

Pelas mãos de Jair Rodrigues passaram grandes nomes da MPB quando ninguém dava nada por eles – a não ser Jair, que tinha a capacidade de enxergar longe o dom de cada artista. E sabia valorizá-lo. Foi assim com Alcione, com Elis Regina, com Martinho da Vila e muitos outros. Sabia que fez um samba em parceria com Wando? E que ajudou Raul Seixas em uma fase difícil?

A memória do músico sempre foi impressionante. Jair se lembrava de datas e nomes, de acontecimentos de muitos anos antes, nos mínimos detalhes. Não esquecia letra de música. Nem em japonês. Era mesmo uma figura admirável. Cheio de gírias, atuais ou já em desuso. Quem já ouviu falar em “Bernardo Cintura” (fome), por exemplo? Quem chama cachê de “faz-me rir”? Ele falava que em “tirar o time de campo”, que algo foi “feito nas coxas” ou que alguém “cantou pra subir”, entre muitas outras divertidas expressões, que soavam diferentes para a geração mais nova. Mas o cantor também falava em “rango” e em “vazar”, expressões mais contemporâneas. Ele vivia o presente intensamente sem perder de vista o passado. Quem conheceu o Beco da Fome? E o Beco das Garrafas? Jair tinha muita coisa pra contar.

Falando em tempo e história, com mais de meio século de carreira, Jair Rodrigues tinha a vitalidade das crianças: dançava, cantava, brincava e sonhava. Talvez por isso encantava a todos. Mesmo os que não gostam de MPB, adoram rock and roll e nem imaginam qual foi a trajetória desse cara. Mesmo os que nunca o ouviram cantar. Bastava Jair abrir o sorriso, dar uma remexida (com os seus trejeitos bem particulares) e soltar a voz que todo mundo parava. O vozeirão forte e certeiro atingia a todos. No coração. E ele ria. E cantava.

Recentemente, ele pôde ser visto também nos cinemas, estrelando o filme Super Nada, sob a direção de Rubens Rewald. Ele já havia atuado com Oscarito em Jovens Pra Frente (1968), e até com a atriz americana Talia Shire (estrela de Rocky – Um Lutador e de O Poderoso Chefão) em Caminho dos Sonhos. Era colocar a bola na frente que ele chutava para o gol. Falando em futebol, também bateu bola com Pelé: não em campo e sim na música, interpretando uma canção composta pelo rei.

Jair Rodrigues – também chamado carinhosamente de “garfinho de ouro” e “cachorrão” – vivia em São Paulo em uma casa cercada pelo verde e sempre muito bem cuidado pela esposa Claudine, outra figura admirável. Os filhos Luciana Mello e Jairzinho trilham o caminho do pai na música. Uma família linda, que perdeu agora seu patriarca.