Jards Macalé encontrou o fundo do poço e conta o que viu em Besta Fera, o primeiro disco de inéditas em 21 anos

Internado por 31 dias no início de 2018, artista fez da sua quase-morte uma metáfora para o momento político brasileiro

Pedro Antunes Publicado em 23/03/2019, às 10h09

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Jards Macalé (Foto: José de Holanda)

O ar não vinha. Tão essencial e não vinha. A caminho do aeroporto, no dia 7 de fevereiro de 2018, Jards Macalé comprou um equipamento para ajudar asmáticos a respirar. Não vinha. Tentou, em vão, encher os pulmões. Falhou. Não vinha. Apagou.

Ao abrir os olhos mais uma vez, viu-se entubado, respirava com a ajuda de aparelhos. Dez dias haviam passado enquanto ele estava desacordado. Melhorou, deixou a UTI. Piorou, voltou para a UTI.

Ao todo, o carioca Jards Macalé esteve 31 dias internado no Hospital Santa Cruz, em São Paulo, com um quadro clínico preocupante de broncopneumonia. Depois, seguiu para o sítio em Penedo, no interior do Rio de Janeiro, onde costuma se enfurnar para criar novas músicas e arranjos, para continuar o tratamento da doença. Naquela altura, já armava encontros com Kiko Dinucci, músico paulistano, para a criação de um disco, mas o trabalho ficou interrompido por três meses no início de 2018.

Seria o primeiro álbum com material inédito do carinhosamente chamado de "professor" desde O q faço é música, trabalho lançado em 1998 - e, ainda assim, eram somente três canções novas.

Além do tempo entre álbuns de músicas inéditas, também criava ansiedade o que se sabia do novo disco. Aprovado no edital da Natura Musical, Jards teria ao seu lado uma trupe mais jovem, parte deles integrante da turma que reergueu a carreira musical de Elza Soares e colocou-a no devido lugar (no topo, obviamente), com os discos Mulher do Fim do Mundo e Deus É Mulher, de 2015 e 2018, respectivamente.

Estiveram no projeto de Elza e seguiram com Jards Romulo Fróes e Kiko Dinucci. Com o carioca, Fróes é o diretor artístico, Dinucci, produtor musical - eles também assinam canções em coautoria com Jards, como autores das letras e parceiros na criação das músicas.

Um disco de inéditas depois de 21 anos

Um ano depois de encarar a escuridão, Jards Macalé soltou Besta Fera, um dos álbuns mais esperados do ano, com um trevoso retrato do Brasil contemporâneo, soturno, pesado, pessimista.

O álbum terá seu show de estreia neste sábado, 23 de março, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, com ingressos já esgotados.

"É a sinfonia de Jards", conta o músico à Rolling Stone Brasil, indicando a interligação entre cada uma das 12 faixas do trabalho. Ele ri da prepotência da algunha de Besta Fera, criada por Gregório Gananian, o responsável por dirigir o primeiro clipe do single que iniciou os trabalhos do álbum, lançado em janeiro de 2019.


Terceira do disco, a música veio bem a calhar naquele 10 de janeiro. Jards foi cirúrgico ao adaptar o "Canto I", obra publicada em 1925 pelo norte-americano Ezra Pound, a partir da tradução de Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos.

Ao soltar o clipe naquele momento, a canção tinha, infelizmente, o frescor do novo - dias antes, havia sido realizada a cerimônia de posse do novo presidente da República.

"Chegamos ao limite da água mais funda / Levanto o olhar pro céu", ele canta, como se estivesse ali, no fundo do buraco, no ponto mais escuro do poço. "Trevas, trevas", ele grita. "Treva a mais negra sobre homens tristes", conclui. Somos todos, tristes, cobertos pelas trevas.

Arrepiou? A cada canção que passa, Jards se mostra contemporâneo e atualíssimo, infelizmente. Não era planejado, contudo, como conta o músico. "Eu havia pedido letras para o pessoal há algum tempo", recorda. Ainda assim, é profético.

As trevas chegavam, afinal.

Jovens no caminho de Jards Macalé

Jards se cercou de artistas mais jovens para criar Besta Fera. Romulo Fróes, como escrito acima, assina a direção musical, mas também é um dos responsáveis pelos arranjos (no total, trabalharam neles: o próprio Jards Macalé, Fróes, Guilherme Held, Kiko Dinucci, Pedro Dantas, Thiago França e Rodrigo Campos.

Já Kiko Dinucci e Thomas Harres são os produtores musicais, aqueles que foram até Penedo, com Jards já recuperado, para trabalhar o início das canções, como ele costumeiramente o faz.

Na imensa ficha-técnica que acompanha Besta Fera, José Carlos Capinam é o único da mesma geração de Jards. Ele assina a letra de "Pacto de Sangue". Além de Capinam e do artista Eduardo Climachauska, o Clima (autor de "Longo Caminho do Sol"), estão artistas mais jovens, como Tim Bernardes (autor da letra de "Buraco da Consolação", na qual também canta), Ava Rocha (letrista de "Limite") e Rodrigo Campos (cavaquinho, autor de "Peixe" e arranjador de "Besta Fera").

Thomas Harres é o baterista do disco e participou da criação da música "Meu Amor e Meu Cansaço". Já Dinucci e Fróes estão tão entranhados no álbum que é difícil elencar cada feito. Dinucci, por exemplo, é autor de "Vampiro de Copacabana", além de gravar violão e outras mil participações on disco. Já Fróes, entre outras funções, "Meu Amor e Meu Cansaço" e canta em "Longo Caminho do Sol".

A banda-base ainda foi formada pelos já citados Dinucci (violão e sintetizadores), Harres (bateria e percussão), Pedro Dantas (baixo) e Guilherme Held (guitarra).

Ufa.

Um disco mais "paulistano"

Embora Besta Fera seja introduzido com Vampiro de Copacabana, o cenário logo deixa a capital fluminense, enquanto a figura vampiresca de Jards se encaminha para São Paulo, onde fixará morada para testemunhar o fim do mundo.

Nascido no Rio de Janeiro, morador do Jardim Botânico, Jards gravou Besta Fera em São Paulo, no Red Bull Music Studios São Paulo, localizado no centro da cidade. Também foi gravado com músicos da cena local.


Tudo isso faz com que exista ali um sentimento de resposta à provocação e à provação imposta pela cidade tão diferente do habitat fluminense. O cinza está no horizonte do álbum, não o azul do céu ou o verde da mata. A pressa, a urgência, a ensurdecedora barulheira dos motores de carros, dos freios dos ônibus, das buzinas das motocicletas na hora do rush.

E Jards se hospedou em um hotel no centro, próximo da Praça Roosevelt, no meio da muvuca sob a luz do sol e agitação noturna.

Faz sentido, na narrativa criada pela "sinfonia de Jards", a chegada de "Buraco da Consolação", também no começo do disco, a completar a trinca inicial formada por "Vampiro de Copacabana" e "Trevas". As duas são a transição geográfica e sentimental. Da inadequação às trevas, ainda em meio a confusão.

Agora, o vampiro sofre, solitário, a vagar pela capital paulistana. "Vamos pro fundo do poço / Pois não tem mais nada pra você aqui", canta Tim Bernardes. Jards responde, mais profético e desolado do que nunca: "Você não via que o mundo está podre / Porque estava cego de amor / Não ouça aquele ditado, pois a esperança há tempos se foi".

A esperança se foi?

O que nos leva de volta a fevereiro de 2018, quando Jards encontrou o seu fundo do poço, internado, entubado, desacordado, adoentado. "Era um poço profundo", recorda-se. O disco também faz essa viagem para a escuridão e para o desconhecido, nesse sentido.

Tudo isso embalado por arranjos lindos - e tortos - responsáveis por apocalipticamente pincelar com cores escuras uma tela que retrata o País em meio ao caos político, social e econômico.

A todo momento o buraco está ali. Em "Vampiro da Consolação", o poço se relaciona ao amor perdido, Em "Obstáculos" ("Piso sempre devagar / E por mais que eu me esquive, num precipício eu posso terminar / É preciso cuidado pra que eu possa continuar", canta Jards), o buraco está no caminhar, "entre vidros e cascalhos", como diz outro trecho da música.

Dói, mesmo, na pele, ouvir "Limite" (escrita por Ava Rocha), a penúltima do álbum, mas, a partir do conceito de jornada do vampiro de Copacabana, é a derradeira - isso porque "Valor", escrita por Jards, gravada em fita cassete, é uma linda reavaliação do artista pela própria obra ao longo dos anos.

"Da beira do caos, à beira do mundo / À beira do poço sem fundo / Tanto faz a beira / A beira da direita, da esquerda e da borda / À beira do suicídio / À beira da despedida / À beira do infinito", canta um Jards. Há medo, há consternação, há sofrimento e desespero na sua voz.

É o grito dele, mas também do mundo. "Em 'Obstáculos', é estar na beira do precipício", avalia Jards, "em 'Limite' também." "É um disco que faz muito mais sentido em 2019. Com o que o Brasil está passando", avalia.

Na beira, contudo, Jards se manteve parado. Não saltou, permaneceu ali, para cantar o que viu. "Estive no fundo do poço, no hospital, e consegui voltar para a luz", ele diz. "Cada poço sempre tem uma saída." Afinal, até mesmo o ar, que não vinha, voltou a encher os pulmões de Jards, afinal. Talvez o mundo esteja prestes a ser internado na UTI, mas ainda não saiba disso.

Ouça Besta Fera, novo álbum de Jards Macalé: