Jason Mraz acena a um 2020 conturbado com 'leveza' em novo disco: 'A paz mundial começa de dentro'

Em entrevista à Rolling Stone Brasil, o cantor de "I'm Yours" falou sobre o projeto: "Reggae não canta só sobre amor, Jah e maconha"

Lorena Reis Publicado em 29/07/2020, às 07h00

None
Jason Mraz (Foto: Travis Latam via Instagram)

Dono de hits como “I’m Yours”, "93 Million Miles" e “I Won’t Give Up”, Jason Mraz acena a um 2020 conturbado “com leveza” em seu novo disco de estúdio, Look For The Good, disponível em todas as plataformas digitais.

Nenhum de nós esperávamos, é claro, que uma pandemia estaria a caminho, mas o músico de 43 anos já sabia que este seria um ano “estressante”, especialmente em decorrência da corrida presidencial nos Estados Unidos.

+++LEIA MAIS: 'This is America', de Childish Gambino, 'Fuck the Police', do N.W.A., e outros hinos antirracistas disparam em audiência com protestos nos EUA

“Eu imaginei que [essa disputa norte-americana pelo poder] traria muita energia negativa ao nosso meio, então eu quis fazer um álbum que representasse o contrário disso, ou seja, fé, coragem, alegria e amor”, disse Mraz em entrevista à Rolling Stone Brasil, acrescentando que ficou muito, muito feliz com a estreia de Look Fot The Good, no dia 19 de junho de 2020: “Só não estou mais feliz porque não podemos sair e tocá-lo ao vivo, e esse é o melhor jeito de compartilhar música.”

Se aprofundando mais no modo como ele e seus familiares têm encarado o isolamento social, o músico afirmou: “Não estou em posição para reclamar. Tenho o que preciso. Água, comida, abrigo... Mas devo lhe dizer, meus sentimentos são de sofrimento. Eu não gosto do que está acontecendo. Eu tenho medo. Me sinto desamparado, confuso. Mas não quero amplificar esses sentimentos. Pelo contrário, prefiro promover alegria, otimismo e cura.”

+++ LEIA MAIS: Como violência policial e racismo são normatizados pela produção audiovisual brasileira [ANÁLISE]

Pensando nisso, Mraz anunciou que todos os lucros obtidos com o álbum serão destinados a ONGs norte-americanas e ao movimento Black Lives Matter: “Eu tenho trabalhado com organizações sem fins lucrativos para ajudá-las a gerar renda e ganhar mais visibilidade. Elas precisam das nossas vozes para promover igualdade social e racial.”

Ainda, ele explicou a importância de ajudar o próximo: “De outra forma, eu só estaria tentando ficar famoso ou ganhar dinheiro. E eu fiz isso. Com o meu primeiro álbum, com o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto e o sexto. Mas lá estava eu, fazendo meu sétimo álbum e pensando qual seria o meu propósito, sabe? Se não fosse assim, eu só estaria cantando sobre essas ideias, o que é ótimo também, mas eu preciso tomar uma atitude para sustentar essas palavras.”

 

Black Lives Matter

Conversando com a Rolling Stone Brasil, Jason Mraz também mencionou o impacto que o #BlackLiveMatters provocou na vida dele. “Eu fui criado numa cultura que criminalizou pessoas negras pelo simples fato de serem negras”, lamenta. “E esse pensamento criou muita desigualdade e atrasou o progresso dessas pessoas. A mensagem deste ano é óbvia: Vidas Negras Importam. A história que nos contaram? É baboseira. Foi tudo desenhado para que algumas pessoas se tornassem vencedoras e outras perdedoras.”

A fim de melhorar hábitos e ideais antigos, Mraz tem se conversado com amigos, familiares e membros da comunidade onde ele vive, “para que a gente finalmente encontre um lugar onde todos tenham os mesmos direitos de viver, amar e prosperar.”

“O meu maior aprendizado com tudo o que está acontecendo é ajudar o outro e não deixar que este seja apenas um momento na história, mas, sim, um movimento que perdure pelo resto de nossas vidas”, conclui.

+++ LEIA MAIS: Como foi, afinal, o discurso de Martin Luther King Jr em 1963? Leia ou assista na íntegra

 

Um disco de reggae?

Ao contrário de seus trabalhos anteriores, em Look For The Good, Jason Mraz finalmente se rendeu ao reggae, gênero pelo qual ele é apaixonado desde 2004, quando visitou a casa de Bob Marley em Kingston, na Jamaica. Nessa viagem, ele diz que “obteve um senso de comunidade” e voltou para os Estados Unidos inspirado. 

“Quinze anos depois, eu estou aqui, no meu jardim, vivendo esse sonho ou esse destino de criar uma banda de reggae e cantar músicas que eu realmente acredito que sejam importantes. E isso só é possível por causa da minha parceria com [o produtor] Michael Goldwasser.”

Ao ser questionado sobre o verdadeiro significado que ele atribui ao reggae, Mraz argumenta: “O reggae é ouvido no mundo inteiro, mas não é uma música mainstream. Esperamos que o nosso álbum possa amplificar o reggae, especialmente em tempos revolucionários de despertar. Porque o gênero não canta só sobre amor, alegria, Jah e maconha. Ele também canta sobre revolução e assuntos com os quais nos importamos. Eu sei que o álbum vai demorar um pouco para chegar às pessoas, mas nosso objetivo é que ele eventualmente chegue ao mainstream e intensifique o poder do reggae.”

"Procure pelo bem em tudo /
Procure pelas pessoas que irão libertar sua alma /
Sempre parece impossível até que seja feito /
Procure pelo bem em todo mundo", canta Jason Mraz na faixa-título de Look For The Good. 

 

Durante a entrevista, Jason Mraz também revelou qual conselho ele daria para si mesmo no início da carreira e passou uma mensagem de otimismo ao público brasileiro. Acompanhe o bate-papo abaixo:

Se você estivesse frente a frente com o Jason do passado, que conselho você daria a ele?

“Ah, provavelmente: não fume cigarros. Eu fumei por um tempo e foi difícil sair dessa. Na verdade, eu cometi muitos erros, eu fui um tolo diversas vezes. Tenho certeza que queimei algumas pontes e alguns corações, mas é impossível voltar no tempo e desejar que algo fosse diferente. Em vez disso, eu posso trabalhar em quem dou hoje, para que amanhã eu seja uma pessoa melhor.

Do que você tem sentido mais falta durante a quarentena? 

Eu sinto falta das pessoas.

Você acredita que as mídias sociais, de certa forma, preenchem esse buraco? 

Eu não entendo as mídias sociais. Eu não consigo só apontar uma câmera para mim mesmo e cantar uma música. Não me parece real. Eu preciso estar num ambiente onde as pessoas cantam, dançam, aplaudem. É disso que eu sinto falta.

Quando tudo isso acabar, você pretende vir ao Brasil? 

Olha, quando tudo isso acabar, eu estou pensando em me mudar para o Brasil e me tornar um cidadão brasileiro [risos].

Nossa, essa foi inesperada!

Estou cansado dos Estados Unidos.

Eu não sei dizer se o Brasil está muito melhor, viu?

É, eu entendo. O mundo está passando por um momento difícil.

Enquanto isso, que mensagem de otimismo você pode passar para seu extenso público brasileiro?

A mensagem é que cada um de nós é amor. Devemos ajudar uns aos outros, amar uns aos outros e nos amarmos, mesmo em momentos de estresse. E isso é algo que devemos nos lembrar sempre. Cada indivíduo é capaz de mudar o mundo com amor. Só temos que nos perguntar: "O que o amor faria agora?"

Pode parecer terrível, mas devemos amar através da dor. Como no parto, quando nascemos, sabe? E o que obtemos do outro lado? Vida. Sonhos. Amigos. Família. 

Quero ressaltar, também, a importância do conceito de “Mindfulness”, que, com sorte, nos guiará a uma existência mais pacífica. A paz mundial é algo que começa de dentro. Não é sobre a paz mundial amanhã ou ano que vem. É sobre como promover a paz atualmente no meio onde nós vivemos?

+++ LEIA MAIS: Glória Maria relata racismo em clube carioca: ‘Me sentia como macaco no zoológico’

 


+++ PLAYLIST COM CLÁSSICOS DO ROCK PARA QUEM AMA TRILHAS SOBRE DUAS RODAS