Jazz brasileiro

Esperanza Spalding ganhou o público com toques de bossa nova e MPB; segundo dia do Tim Festival ainda teve Stacey Kent e Carla Bley

Bruna Veloso Publicado em 23/10/2008, às 16h56 - Atualizado em 14/09/2012, às 20h35

Três mulheres de diferentes estilos e gerações, mas com uma coisa em comum: o jazz. A noite das Sophisticated Ladies aconteceu em ordem crescente de idades e decrescente de público, que se encantou com Esperanza Spalding, se apaixonou com o romantismo e a voz doce e quase infantil de Stacey Kent e viajou ao som do experimentalismo da veterana Carla Bley.

Esperanza iniciou seu show com cerca de meia-hora de atraso, às 21h. Inovadora, simpática e com uma destreza ímpar ao se debruçar sobre seu contrabaixo acústico, a primeira "lady" da noite atraiu uma platéia mais jovem ao Auditório do Ibirapuera. Com dois CDs na bagagem - Junjo, de 2006, e Esperanza, de 2008 - ela escolheu "She Got to You", do segundo, para abrir sua apresentação.

Em um vestido preto acima do joelho, colete branco e botas cor de caramelo de cano baixo, Esperanza segura seu contrabaixo - menor que a maioria, adequando-se ao seu tamanho (magra, a cantora e compositora deve ter algo em torno de 1,60m) - misturando delicadeza e força. Os dedos da mão esquerda correm pelo braço do instrumento como se ali não existissem grossas cordas, enquanto a outra mão dita o ritmo marcado e influenciado pela música brasileira. Na segunda faixa, "I Know You Know", Esperanza toma uma baixo elétrico para comandar uma levada com pitadas de bossa nova. Em "Body and Soul" (composição de 1930, regravada por inúmeros jazzistas), ela realça seus dotes de cantora com longos trechos de vocalização, terminando sob uma chuva de aplausos.

Carismática, ela diz que fica nervosa quando fala e que é a primeira vez que toca com aquela banda - Leonardo Veronese no piano, Pedro Ito na bateria, Ricardo Vogt na guitarra e a participação especial do guitarrista e violonista virtuose Chico Pinheiro.

Depois de "Sunlight", Esperanza mistura português e inglês ao anunciar sua versão de "Ponta de Areia", de Milton Nascimento e Fernando Brant. "É uma das primeiras músicas brasileiras pela qual me apaixonei. Parece que o coração vai explodir, sair do peito e atingir o olho de alguém", afirma. Cantada em português perfeito, a faixa ainda teve direito a um longo solo de Pinheiro.

A certa altura, a cantora larga o baixo, para "deixá-lo descansar". No silêncio quebrado apenas pelo som do piano, era possível ouvir a sola de suas botas batendo no chão.

Depois de terminar a apresentação pedindo a ajuda da platéia em um grande backing vocal em apoio à sua voz, Esperanza volta, sozinha, em uma versão de "Look No Further", de Betty Carter. Faltou "Samba em Prelúdio", de Baden Powell e Vinicius de Moraes, lançada em seu segundo CD.

Stacey Kent não tem o mesmo vigor que Esperanza - o que nesse caso, é uma virtude. De cabelos curtíssimos, vestido preto e azul e um pequeno salto para elevar sua estatura, Stacey tem uma voz delicada, quase frágil. Visivelmente emocionada por estar no Brasil - "[Durante] minha vida inteira quis tocar aqui" -, a cantora reuniu sua banda bem no centro do palco, fazendo com que bateria, baixo, piano e saxofone (tocado por James Tomlinson, marido e compositor de suas músicas) ficassem muito próximos.

Stacey deu prioridade ao seu último CD, Breakfast on the Morning Tram, que mistura versões (como a bela "Ces Petit Riens", do compositor francês Serge Gainsbourg) e composições de Tomlinson (a exemplo da mais solta "I Wish I Could Go Traveling Again").

Reiterando sua alegria por estar no país, ela avisa que vai cantar "um dos poemas mais simples, elegantes e profundos já escritos", iniciando uma versão em inglês de "Águas de Março", composta por Tom Jobim e imortalizada na voz de Elis. "Samba de Benção", em francês, ajudou a suprir a falta de Baden e Vinicius no show de Esperanza. Nesse momento do show, destacam-se baixo e piano, enquanto Kent se posta ao lado do marido em uma dança contida. A apresentação termina com uma elegante releitura de "What a Wonderful World", no máximo da suavidade de sua voz - em contraponto à interpretação de Louis Armstrong, que cravou a canção na história com seu timbre potente e rouco.

Para terminar a noite das mulheres do jazz, Carla Bley subiu ao palco e tocou para uma platéia com mais da metade dos lugares vazios. Com 70 anos de idade, Bley era a mais experiente a se apresentar para o público do Tim Festival - e talvez a mais fiel ao jazz clássico.

Sua carreira na indústria fonográfica começou com Escalator Over the Hill, de 1968, disco que acabou se tornando uma referência para os amantes do avant-jazz, estilo que prima pela improvisação. Mas na noite desta quarta, Bley não fez questão de lembrar o passado e se ateve a The Lost Chords find Paolo Fresu, lançado em 2007.

Acompanhada por sua fiel banda, os The Lost Chords citados no título do disco, e com o apoio do trompetista Michael Rodriguez, Bley falou pouco. A pianista apenas apresentou a primeira peça de seu concerto instrumental, "The Banana Quintet: One Banana". O show seguiu com as outras cinco partes da obra, terminando com "One More Banana". O experimentalismo e um quê de free jazz (que mesmo para os apaixonados pelo jazz em geral, não é uma unanimidade) fizeram com a platéia fosse diminuindo ainda mais, ficando ali apenas os que realmente tinham apreço por estar diante de um dos grandes nomes femininos do jazz contemporâneo. Para finalizar a noite, Bley e sua banda tocaram "Ad Infinitum" e "The Death of Superman".

O palco Sophisticated Ladies também terá espaço no Rio de Janeiro, na sexta, 24. No sábado, 25, Stacey e Bley se apresentam em Vitória (ES).