Jazz e blues com tempero funk

T. M. Stevens promoveu festa dançante no 8º Rio das Ostras Jazz e Blues Festival; Joey Calderazzo Quartet, Kuarup Cordas & Sopro e André Christovam também fizeram parte da programação

Por Antônio do Amaral Rocha Publicado em 08/06/2010, às 16h58

Delmar Brown e T. M. Stevens: baixista, à direita, fez show incendiário no Rio das Ostras Jazz e Blues Festival

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O 8º Rio das Ostras Jazz e Blues Festival começou na última quarta-feira, 2, na cidade fluminense de Rio das Ostras, e seguiu até domingo, 6. Como nas edições anteriores, a maratona jazzística e bluseira contou com três palcos: Costa Azul, Lagoa de Iriri e Praia da Tartaruga. Neste ano, a organização ainda criou um novo palco, na Praça de São Pedro, para receber grupos iniciantes.

A abertura do festival ficou por conta da Kuarup Cordas & Sopro, dirigida pelo maestro Nando Carneiro, com participação do flautista David Ganc. A Kuarup é uma escola de música focada na inclusão social, e seus alunos fabricam os próprios instrumentos. O repertório foi de música brasileira, com temas de Tom Jobim e baião.

No segundo número do line-up, uma boa surpresa com o quinteto Brazilian Blues Band, de Brasília, desconhecido no circuito Rio-São Paulo. Com uma levada roqueira (destaque para o tecladista Marçal Ponce), o quinteto foca seu repertório em blues abrasileirados. Nesta apresentação, a banda ainda contou com a canja do gaitista Jefferson Gonçalves.

Com 30 anos de estrada, o guitarrista André Christovam e sua banda foram a terceira e última atração da primeira noite deste Rio das Ostras Jazz e Blues Festival. André está comemorando 22 anos do lançamento do disco Mandinga, recentemente relançado, e executou diversos temas deste disco, além de clássicos do repertório de B. B. King. O músico é pioneiro do blues no Brasil e declarou que tocar num dos palcos do Rio das Ostras é o "ápice que um instrumentista brasileiro pode desejar".

Blues e chuva

Na quinta-feira, 3, desde cedo o céu prometia chuvarada em Rio das Ostras. Mas próximo ao horário do primeiro show, às 15h, o céu azulou e o povo compareceu à Lagoa do Iriri. Novamente, o blues de André Christovam era o programa. Ele estava tão empolgado quanto na noite anterior, e fez um show arrepiante - tanto que as três mil pessoas não arredaram pé, mesmo quando São Pedro virou o balde e molhou a terra.

O segundo show, às 17h, no palco montado sobre uma imensa pedra na Praia da Tartaruga, trouxe o Joey Calderazzo Quartet e também aconteceu debaixo de chuva. O piano de Joey ficou praticamente "afogado" e ele usou este acidente para mostrar o seu talento, fazendo música mesmo quando tentava enxugar as teclas com uma toalha. Pianista e banda conseguiram a adesão de um público de cinco mil pessoas, que assistiram ao show cobertas por um mar de guarda-chuvas.

Ainda na tarde de quinta-feira, nos bastidores do Hotel Vilarejo, empolgadíssimo com a música brasileira, o figuraça baixista T. M. Stevens deu show particular, regado a caipirinha, cerveja e um violão arranhado por um dos presentes. Stevens, que já tocou com feras como Joe Cocker, Steve Vai, Tina Turner e Miles Davis, queria estar onde estava o bafafá e se esforçava para entender o português. Confessou ser fã de Gilberto Gil, apontando para o próprio coração, e ali mesmo criou um funk com o refrão "Shake your bunda" - que viria a tocar para o público no sábado, 5.

Noite de surpresas

O quinteto Plataforma C iniciou a maratona noturna do segundo dia, no palco Lagoa Azul, trazendo temas de música brasileira e clássicos da música instrumental. O momento mais marcante foi a execução do tema do filme Cinema Paradiso.

Raul de Souza e banda (baixo, guitarra, bateria e teclado) fizeram o segundo set da noite, um dos mais concorridos e esperados até aquele momento. Tocando repertório próprio, Raul é, certamente, um dos maiores do mundo no trombone. A segurança de seu sopro chega perto da perfeição. O solo de "Brigas Nunca Mais", clássico de Tom Jobim, foi magnífico, e criou perfeita identificação entre os artistas e a plateia, formada por dez mil pessoas. Próximo do final do set, Raul apresentou a sua criação, batizada de Souzabone, um trombone de quatro chaves. Com pedaleira adaptada ao microfone, Raul provocou ecos e superposição de sons com resposta fissurada do público. Mas é difícil descrever o caldeirão sonoro de Raul em palavras - só ouvindo para ter uma noção do que ele e sua banda são capazes.

Quem imaginava que o show de Raul seria o ponto alto da noite, se surpreendeu com o The Michael Landau Group, um power trio excepcional que entrou com o som nas alturas. Michael é exímio em sua Fender '69 ralada, e entregou-se ao blues com paixão. Não que o som de seu trio sej novidade, mas a diferença se dá pela intensidade com que ele encara seu trabalho. Landau fez uma música "viajante", e levou a plateia a embarcar nessa viagem. T. M. Stevens estava certo quando declarou: "Vocês ainda não ouviram nada se não viram o Landau. Esperem para ver".

Em seguida veio a guitarra baiana e o bandolim de Armandinho Macedo, com banda formada por baixo, teclado, bateria e guitarra. O ponto alto foi a execução do Bolero de Ravel, com citações a Jimi Hendrix. Para encerrar a noite, mais uma grande surpresa: a apresentação de Stanley Jordan. Não é preciso fazer muito esforço para aceitar o virtuosismo de Stanley, o mais habitué dos músicos norte-americanos no Brasil, a ponto de ter uma banda só brasileira, formada por Dudu Lima no baixo e Ivan Condi, ex-Azymuth, na bateria. Stanley é tímido, pouco fala, mas sua presença é carismática. Apreciados em silêncio absoluto pelo público, Jordan e seus companheiros se destacaram na execução de "Insensatez", de Jobim. O show teve ainda canja de Armandinho. Nesse momento, o relógio já marcava 3h da manhã. Uma noite para não esquecer - mas o festival ainda tinha muito em sua programação.

Na sexta-feira, 4, terceiro dia do Rio da Ostras Blues e Jazz Festival, a festa tomou lugar na Lagoa do Iriri, com o blues branco da banda de Rod Piazza & The Mighty Flyers. Rod é um gaitista, bandleader e showman, e é impossível assistir à sua apresentação passivamente. Destaque para o teclado maluco tocado por Honey Alexander.

No palco da Praia da Tartaruga, Armandinho repetiu seu show com a canja da guitarra dedilhada de Stanley Jordan. Armandinho e Stanley tocaram o que as cinco mil pessoas presentes queriam ouvir, um repertório que foi de "Brasileirinho" a "Trenzinho Caipira", de Villa-Lobos.

A noite, no palco da Lagoa Azul, começou com uma celebração ao jazz tradicional. Ron Carter Trio, formado pelo baixo acústico de Carter, pela guitarra de Russell Malone e o piano de Mulgrew Miller fizeram set com uma hora de duração, executando composições próprias e até "Manhã de Carnaval", de Luiz Bonfá, demonstrando o respeito que reservam para a música brasileira. Carter, elegantemente vestido, percute o contrabaixo sempre de olhos fechados, numa veneração à música.

A Joey Calderazzo Quartet foi a segunda atração. O pianista Joel, que faz parte da banda do saxofonista Branford Marsalis, tem técnica esmerada e passeia pelas diversas vertentes do jazz, tocando com uma velocidade impressionante. Nesta noite ele pode fazer o seu set mais tranquilamente, livre da chuva que insistiu em cair em sua apresentação anterior.

O trompete vibrante de Michael "Patches" Stewart, que lembra a fase elétrica de Miles Davis, veio em seguida. O repertório foi bastante funkeado, num jazz fusion com sonoridade pesada, acompanhado de guitarra, baixo elétrico, sax, teclados e bateria.

A Rio Jazz Big Band, formada por três trompetes, dois trombones, quatro saxes, guitarra, baixo e bateria é o que pode ser chamada de banda completa - e quando se soma a isso a voz de uma cantora carismática como Taryn Szpilman a festa está garantida. Taryn fez um show didático baseado em repertório de clássicos do blues e da soul music, indo de Aretha Franklin a Ray Charles.

Uma verdadeira festa

No sábado, 5, quarto dia da maratona, a programação teve início no palco Lagoa do Iriri, à tarde. Michael Landau Trio tocou para um público de quatro mil pessoas, agora sob sol escaldante. Foi especialmente ovacionado quando executou o tema do filme Paris-Texas, usando os clássicos timbres distorcidos e dedilhados que lembravam lamentos. Na mesma tarde, Michael "Patches" Stewart, ocupou a pedra da Praia da Tartaruga e repetiu a performance da noite anterior.

Se o público soubesse o que iria acontecer na noite de sábado, com certeza teria poupado energia. O clima começou a esquentar no palco Costa Azul com o show de fusion do cerebral e exímio baixista elétrico Victor Bailey, sob forte chuva. Continuou a esquentar com a gaita de Rod Piazza & The Mighty Flyers e explodiu de vez com a entrada do tresloucado e carismático T. M. Stevens, de cabelo rastafári e túnica colorida. Seu som é trilha para uma festa, uma celebração à negritude, à dança. Ele toca o baixo usando o slap, e na maior parte do tempo desafia a plateia cantando funk, rock e o soul, numa mistura que vai de James Brown a Led Zeppelin, uma espécie de "heavy metal afro". Stevens convocou o povo do backstage (jornalistas, fotógrafos e produção) para dançar o tema que criou no hotel - aquele do refrão "Shake your bunda" -, uma apologia à liberação do corpo. Foi o número mais empolgante da performance de Stevens, que é acompanhado por um time de respeito: Delmar Brown no teclado, Blackbyrd McKnight na guitarra e Cindy Blackman na bateria.

A responsabilidade do trombonista e cantor Glen David Andrews teria tudo para ser um anticlímax, já que seria a última atração, mas ele segurou a onda. Sua banda inclui sax, guitarra, baixo e bateria e o som é o jazz de New Orleans, desconstruído e funkeado. A performance é inusitada: Glen mistura-se ao público e deixa ser carregado como em shows de rock. Mais uma tremenda festa - e para continuar no mesmo clima, ele ainda chamou T. M. Stevens e Cindy Blackman ao palco.

No domingo, 6, último dia do festival, Victor Bailey ainda tocou na Lagoa do Iriri e Stevens proporcionou mais uma oportunidade para quem perdeu a festa da noite anterior, apresentando-se na pedra da Praia da Tartaruga.

Depois dos acontecimentos desta edição fica uma questão para o produtor Stenio Mattos resolver: como preservar o sentido da festa que especialmente o funk e o jazz de T. M. Stevens proporcionou. Mantê-la não será pouca coisa.