José Mojica Marins será tema de filme

Provisoriamente chamado de Maldito, longa de Vitor Mafra fará apanhado das quase seis décadas de carreira do criador de Zé do Caixão; Matheus Natchtergaele poderá interpretar Mojica jovem na fita

Por Anna Virginia Balloussier Publicado em 05/05/2009, às 18h52

Há quase 16,5 mil noites, ele ameaça nos levar a alma. Foi em 1964, por acaso e ocaso ano do chumbado golpe militar, que Zé do Caixão surgiu em cena pela primeira vez, em À Meia-Noite Levarei Sua Alma. Em encontro promovido na última quarta, 29, no CineSESC, em São Paulo, o criador da criatura, José Mojica Marins, antecipou ao site da Rolling Stone Brasil que o 45° aniversário do primeiro capítulo da mítica trilogia do mal (completada por À Meia Noite Encarnarei no Teu Cadáver, 1967, e Encarnação do Demônio, 2008) será comemorado com filme sobre sua carreira.

Vitor Mafra, o escolhido para dirigir a obra - que, provisoriamente, é intitulada Maldito - , terá um legado e tanto para trabalhar. Por trás dos estoques vitalícios de groselha e das caretas de horror em eras pré-botox, Zé do Caixão cravou seu nome no insurgente cinema brasileiro de terror. Mas nem de longe é o único personagem da prolífica mente do cineasta paulistano, criado no bairro do Brás e com "uns 80 filmes, e isso só na direção, hein?" no currículo.

Para dar conta de tanta história, de terror ou não, Mojica pretende escrever ainda este ano um livro de memórias. Sua saga já foi esmiuçada em Maldito: a Vida e o Cinema de José Mojica Marins, biografia escrita a quatro mãos por André Barcinski e Ivan Finotti em 1998. Agora, no entanto, uma atualização até que cai bem. De lá para cá, afinal, o diretor lançou a aguardada obra-desfecho da trilogia do Zé do Caixão, Encarnação do Demônio - o roteiro estava na geladeira há 42 anos, mas, naquela época, a ditadura era fogo. "Em Levarei Sua Alma, a censura me obrigou a pôr o Zé falando: 'Eu creio!', numa espécie de redenção", ele resmunga à trupe de 15 pessoas. Só assim, com um "Zé arrependido", o filme profano foi capaz de passar nos cinemas da época.

Parte dessa pequena plateia talvez tenha se decepcionado na entrada. De Zé do Caixão, o hoje senhor de 73 anos só carrega mesmo a barba e a indefectível unha grande. Em vez de capa preta, uma camisa azul e listrada - daquelas que você talvez tenha visto, outro dia mesmo, seu pai usando na saída para o trabalho. Mas ao longo do encontro de duas horas Mojica não decepcionou. A voz - "feia e grossa; não adianta, não tem igual" - impostava as mais mirabolantes passagens de sua trajetória, com aquele talento nato de quem nasceu para contar história, seja nas telas, seja ao vivo e a cores - de preferência, em vermelho-sangue. A certa altura, o pioneiro do cinema de terror no país vai ao meio da sala e capricha mais ainda no vozeirão. "A quem pertence a Terra? A Deus, ao Diabo ou aos espíritos desencarnados?" A fala, avisa, é de Levarei sua Alma. Quer saber se o público já viu. Todos confirmam. Ali só tem fã de carteirinha. Mojica, envaidecido, prontamente continua: "Não! A Terra é da pureza das crianças. Pena que, quando cresce, vira tudo imbecil. Mas Zé do Caixão mudará isso!".

"Não tenho sucessor", ele declara, arrancando aplausos. Diz também que, em 1999, começou a selecionar um possível dublê. Entre 10 mil candidatos, achou um camarada que chegou a dublá-lo em várias cenas de Encarnação do Demônio ("ninguém percebe que é ele"). Mas não teve jeito. "Quando íamos a eventos, se eu não entrasse, o povo linchava o coitado". Recado dado: Zé do Caixão é Mojica.

No filme de Mafra, Matheus Natchtergaele está cotado para interpretar Mojica, em cenas que retomarão o começo de carreira do cineasta que diz não passar o dia sem "três ou quatro maços de cigarro, e até seis quando estou filmando - coisa que faço desde os oito anos".

Amostra de Zé no século 21, Encarnação do Demônio, com seus mais de seis mil litros de sangue cenográfico e duas mil baratas em uma só cena, chegou a passar no Festival de Veneza, conquistou inúmeros prêmios e cravou não estacas, mas flechas de cupido no coração da crítica. Nas sessões, a história foi outra. No fim de semana de estreia, a bilheteria muito aquém do esperado - segundo o site Filme B, 5,6 mil pessoas comparecerem às 37 salas que o exibiram, amargando o 16º lugar no ranking de bilheterias. No passado, contudo, as filas davam voltas no quarteirão para conferir fitas de Mojica. Do povão a intelectuais como Glauber Rocha - reza a lenda que, assistindo, na primeira fila, Levarei sua Alma, o cineasta baiano teria ruborizado senhoras com uma verdadeira roleta russa de palavrões, de tão entusiasmado com a obra.

Mojica então conta que, certa vez, o cineasta Ivan Cardoso (mestre do "terrir" brasileiro, uma mescla de horror e comédia) falou que "ele e Glauber eram almas gêmeas". "Mas eu ia mais com a cara do (Rogério) Sganzerla", revela, para então decretar Bebê de Rosemary, de Roman Polanski, como o maior dos filmes de terror.

Lembrando a produção cinematográfica do gênero, Mojica lamenta o futuro - ou melhor, a falta dele - do terror no cinema brasileiro. Nem Dennison Ramalho, corroteirista de Encarnação, se salva. Reclama, por exemplo, que o polêmico curta do amigo, Coração Só de Mãe "usa coração artificial. O de porco é muito mais realista!". Mojica tem birra com imersões tecnológicas. Para Encarnação, com poder de embrulhar o estômago de qualquer um que espera "um ou outro efeito especial tosquinho em filme brasileiro", garante que "só usou tecnologia pra colorir o céu de vermelho".

Tudo o que o palestrante do dia pede, agora, "são mais alguns aninhos para fazer uns quatro filmes", entre os "200 roteiros que tenho". O próximo é Sete Ventres Para um Demônio", que traz o coveiro linha-dura de volta à cena. Também estão em seus planos abrir um museu, na Avenida São João, centro da capital paulista, com roupas, apetrechos e os vários animais empalhados que usou em obras suas.

Dos anos 1950, quando o pobre menino do Brás colocou na cabeça que sua religião era o cinema ("um padre chegou a me dizer que 'aquilo não era meu talento'", ele se diverte), para cá, muita água - e sangue falso - rolou. No encontro do Sesc, Mojica ainda contou sobre as pragas rogadas nos 13 dias ("logo 13!") de filmagem do primeiro filme de Zé do Caixão, sobre sua crença ferrenha em alienígenas ("esses bichinhos estão entre nós") e sobre o fim do mundo vindouro - 2012, garante, "como os maias previram".

Uma sabedoria final para a classe? "Nunca peça conselho para outro. Muitas vezes, a pessoa não expressa, mas quer ser você e te aconselha a pior coisa. Olhe para o espelho e peça ao seu subconsciente. Se eu consegui vencer, você conseguirá."