Jup do Bairro: Transgressão e Pretitude de um Corpo Sem Juízo

Com o EP de estreia, a cantora retrata as próprias mortes e nascimentos ao longo da vida

Julia Harumi Morita | @the_harumi Publicado em 25/06/2020, às 07h00

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Jup do Bairro (Foto: Jup do Bairro, Felipa Damasco e Cai Ramalho)

Jup do Bairro é um manifesto sobre as possibilidades de existência. Muito além de um corpo, uma mente contestadora atravessada por ideias e questionamentos sobre a humanidade, a qual caminha sobre escombros e corpos há algum tempo.

Nascida e criada na divisa do Capão Redondo, extremo sul de São Paulo, com Itapecerica da Serra, a artista, desde cedo, flertou com o centro da capital paulista e a curiosidade cultural, social e sexual provocada pela região. 

Energética desde pequena, a cantora ficava deslumbrada com a televisão e o poder atração daquele objeto. Porém, não demorou muito para ela perceber que aquele mundo exibido na tela não tinha sido feito para o corpo dela. 

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Então, Jup foi em busca do próprio lugar. Por volta dos 13 anos, trabalhou em um campo de golfe como catadora de bolinhas, mais tarde, foi funcionária de lan house, locadora, lojas de grife e sex shop. 

A cantora era quem sempre pedia demissão depois de perder interesse por aquele ambiente e, como ela mesmo disse por chamada de vídeo para a Rolling Stone Brasil, era quem se f*dia por não ter direito a seguros ou rescisões. 

Ainda na juventude, a artista organizou um sarau com os amigos, no qual o texto dela teve o primeiro contato com a música. Ela também teve um vídeo de uma performance repercutido nos primórdios do Facebook e ganhou cachês de R$ 50, R$ 100 e, certa vez, inesperados R$ 600, em eventos e festivais.

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Na vida noturna da capital paulista, entre clubes e puteiros, Jup fez performances e conheceu potências da cena artística. Por outro lado, a cantora também enfrentou muitos desafios. 

Por volta de 2010, a artista estava pronta para lançar o primeiro disco da carreira, mas viu o trabalho dela ser deletado pelo produtor musical, que havia convidado a performer para fazer parte do projeto colaborativo, mas mudou de ideia após uma discussão sobre eventos e cachês. 

Este foi o corre de Jup do Bairro, que lançou o EP Corpo Sem Juízo no dia 11 de junho após explorar diferentes formas de ser e estar por mais de 10 anos. Um trabalho realizado por meio de um financiamento coletivo ao lado de Felipa Damasco (direção artística), Badsista (direção musical), Pininga (produção) e Thiago Felix (produção executiva).

Durante uma hora e meia de conversa, Jup falou detalhadamente sobre o processo criativo do novo projeto, além de compartilhar histórias de vidas essenciais para compreender o significado de Corpo Sem Juízo

Jup explica que "Transgressão" é uma metáfora para a crisálida, processo do desenvolvimento de uma borboleta, o qual é constituído pelas fases do ovo, lagarta, casulo e voo, segundo a artista. É um ciclo de nascimento, vida e morte que está presente em todo o EP e não segue necessariamente essa ordem.

“Me deparo voando com um par de asas / Paraliso com o som de um pulso forte / Descubro que a vida é possível, mas preciso ter sorte”, ao cantar sobre o passado, a artista olha para o presente e percebe a dimensão da própria metamorfose.

Longe das convenções humanas, Jup pode existir de inúmeras maneiras até mesmo como uma borboleta humana cibernética. Os sintetizadores constroem um ambiente vibrante cada vez mais intenso, que chega no ápice e, logo em seguida, some, deixando apenas resquícios sutis de uma transformação.

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Em qual momento da vida você tomou consciência de que estava em um processo de transgressão? 

“Transgressão” vem justamente marcando essa abertura de caminho e transformação. Eu gosto de falar que já morri muitas vezes em minha vida e já renasci muitas vezes também. E, eu acho que muitas pessoas também são assim, porque a partir do momento que a gente vai recebendo informações, se adaptando ao nosso tempo para não ficar em teorias caducas não pertencentes ao agora, eu acho que, de alguma forma, a gente morre. Mas também renasce com outras artimanhas, desejos e vontades.

Por que o clipe de “Transgressão” traz uma estética futurista ao falar do passado?  

A princípio, [essa] não seria minha primeira execução. Eu queria que esses clipes fossem captados pessoalmente. A gente já tinha levantado um roteiro e tudo mais, mas, por conta do isolamento, tivemos que nos readaptar, então foi quando eu logo pensei no 3D. E aí, [eu] já conhecia o trabalho do Rodrigo de Carvalho [diretor e roteirista], que é um artista incrível que já trabalhou com nomes como a Pabllo Vittar, Mc Tha e Jaloo.

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Jup do Bairro (Foto: Jup do Bairro, Felipa Damasco e Cai Ramalho)

Um sino toca e anuncia o interlúdio “O Que Pode Um Corpo Sem Juízo?”. Em um tom quase sacro, mas direcionado aos homens, a cantora questiona as construções que pré-determinam nossos gostos, sexualidade e conhecimento sobre o mundo. 

“Não somos definidos pela natureza assim que nascemos / Mas pela cultura que criamos e somos criados / Sexualidade e gênero são campos abertos”, canta a artista. “Conforme absorvemos elementos do mundo ao redor / Nos tornamos mulheres ou homens, não nascemos nada / Talvez nem humanos nascemos”.

Jup não explora o Corpo Sem Juízo sozinha. Segundo a cantora, o EP contou com quatro “cavaleiros do apocalipse” capazes de registrarem a violência, os medos e os desejos presentes em tantos corpos.

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Em “Pelo Amor de Deize”, em parceria com Deize Tigrona, ela traz a nostalgia da adolescência e as lembranças do pai, que morreu em 2007. Na juventude, ele foi punk anarquista e, na paternidade, trouxe para Jup uma consciência política, além de referências musicais do rock.

Foi na cena punk que a artista expôs pela primeira vez os pensamentos que percorriam a mente e o corpo, que muitas vezes se misturavam. Incentivada pelos amigos, publicou textos em fanzine e percebeu o eco que as palavras dela causavam nas pessoas ao redor - claro, as colagens com genitálias, tiradas de revistas pornôs do irmão, também ajudavam a causar choque no leitores.

Segundo a cantora, Jup do Bairro nasceu da mistura da curiosidade política do pai e do bom humor da mãe. O contraste da dor com a risada é feito com o funk “All  You Need Is Love” no EP, faixa que traz Linn da Quebrada e Rico Dalasam para cantar sobre o desejo e a paixão de um corpo que não sabe amar.

“All you need is love / Tenho tanto pra te dar / Só não sei se é amor / Eu não sei o que é amar.”

A parceria com Linn exemplifica o que a artista chama de rede efetiva, a qual vai além da afetividade e, de fato, fortalece o coletivo. Quando perdeu o primeiro disco e decidiu desistir da performance, Linnconvidou Jup para participar do álbum de estreia dela, Pajubá, que levou as cantoras para os mais diversos palcos do país e do exterior. 

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Como surgiram as parcerias do EP? 

Eu realmente queria trazer essas colaborações que chamo de ‘os quatro cavaleiros do apocalipse’ no meu universo. Pegar a Linn e Rico Dalasam, por exemplo, para falar de amor mesmo sem saber o que é amar. Pegar a Deize Tigrona para falar de um assunto que ela sempre tratou muito abertamente, a depressão e das poucas pessoas - enquanto recorte de periferia - que falam de depressão. Porque ainda tem um estigma de que depressão é doença de rico, é frescura.

Como surgiu a ideia de colocar uma faixa de rock no EP?

Eu quase fiz um álbum todo de rock, porque eu estava em um momento ouvindo muito Korn, Slipknot, Rage Against the Machine também. Então, eu estava muito enérgica, assim, muito ‘doidona’ para bater cabeça. E daí fui investigando referências que eram mais nostálgicas para mim, de coisas que meu pai me apresentava.

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A nostalgia de Jup ganha um retrato vivo em “O Corre”, que retoma os tempos de escola, a busca por moedas para comprar refrigerante e batom, a intimidação dos colegas de classe, os beijos com brilho labial e as contas de lojas para pagar.

Por fim, a artista completa a transgressão dela com um pedido: “Luta Por Mim”. Os vocais calmos da cantora conduzem uma “baladinha oitentista” de despedida feita por alguém que viu a morte de perto, mas está longe de desistir. 

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Jup do Bairro (Foto: Jup do Bairro, Felipa Damasco e Cai Ramalho)

A última canção do EP poderia muito bem ter sido escrita hoje, ontem ou no início do mês de junho quando as redes sociais foram tomadas de protestos virtuais contra o racismo e violência policial

Mas ela começou a ser composta há dois anos e poderia ter sido criada no início da carreira de Jup, há mais de dez anos atrás. A indignação da sociedade surge, desaparece e normaliza a morte dos corpos negros. 

“Virei postagem na sua rede social / 'Cê’ lamentou e escreveu sobre a repressão policial / Sua hashtag foi o ponto final / Dizer Vidas Negras Importam, ‘pra’ você, isso foi diferencial / É que é toda vez a mesma merda / 'Cês’ matam eu de carne ‘pa' fazer eu de pedra”, diz o rapper Mulambo

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Como foi o processo de composição ao lado de Mulambo em “Luta Por Mim”?

Quando eu o conheci - [foi] inclusive em uma apresentação dele - eu nunca tinha ficado tão impactada durante tanto tempo na minha vida com uma apresentação. Meus olhos encheram. Ele ia para lá, para cá e meus olhos o seguiam. As músicas entravam na minha cabeça e eu falei: ‘Gente, se eu habitasse o corpo cis de um garoto, eu acho que eu seria ele facilmente’. 

[...] E, quando eu comecei a pensar em quem seriam meus “Cavaleiros do apocalipse”, ele foi um nome que veio em muita evidência para mim, principalmente em “Luta Por Mim”. Eu só dei as coordenadas do que eu achava que seria interessante trazer e dei total liberdade para ele.

Inclusive, quando ele escreveu, falou: ‘Ai, analisa aí. Vê se está muito grande. Eu posso diminuir’. E eu falei: ‘Antes de tudo, quero que você esteja satisfeito’. Porque eu gosto muito de respeitar o tempo da obra, sabe?

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Como Jup disse anteriormente, o ciclo de transformação corporal dela é irregular e não segue a ordem de nascimento, vida e morte. Assim, a artista entrega para o ouvinte uma nova versão do primeiro single de carreira, “Corpo Sem Juízo”.

A canção simboliza toda trajetória da artista, que começou a escrever a letra por volta dos 13 anos de idade. Originalmente, a obra conta com a participação da escritora Conceição Evaristo, avó de uma amiga de Jup e grande inspiração literária da cantora.

Outra homenageada foi Matheusa Passarelli, amiga e estudante de artes que foi morta aos 21 anos por traficantes no Rio de Janeiro. Jup, que usou um trecho de uma performance de Matheusa na música, conta que costumava dizer para ela como “Corpo Sem Juízo” era parecido com “Corpo Estranho”, um trabalho da  ativista não-binária.

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Por que “Corpo Sem Juízo” foi colocado acapella? 

Quando eu fui compilar [o EP] Corpo Sem Juízo, vi a necessidade de ter [a canção] “Corpo Sem Juízo”, mas eu queria fazer ela enquanto bônus [...] é uma nova roupagem mesmo. Até o público tem recebido como uma música nova. Dá para prestar atenção ainda mais na letra, dá para ouvir também a fala da Matheusa com mais evidência. Por isso, eu achei tão importante e tão presente ter essa faixa, justamente porque eu sinto que amarra muito com meu interlúdio, que é “O Que Pode Um Corpo Sem Juízo?”. 

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No primeiro EP da carreira, Jup cria uma obra individual sobre as próprias dores e transgressões ao mesmo tempo que se relaciona com o coletivo, todos aqueles que ferem e protegem os corpos negros, pobres, LGBTQ+. 

Segundo a artista, ela foi preparada, de forma brutal e grotesca, para esse momento. Por isso, a cantora não deixou de lançar a obra durante a pandemia de coronavírus - que, aliás, apenas mostrou para todos como é viver em um corpo como o dela, o qual sai de casa e não sabe se vai voltar vivo. 

Além dos streamings e das contas verificadas, a cantora tem consciência de que, na rua, os riscos são os mesmos e os pretos continuam sendo educados para não pensar no futuro. Mesmo o assim, Jup luta pelo direito dela de existir.

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Como você percebeu que era o momento de compartilhar essa construção de mais de 10 anos de vida?

Mesmo com tanta dificuldade, com tanto perrengue, com tanto corre, eu continuo a acreditar que é a transformação é possível. Essa rachadura de luz é possível e que eu não confunda essa luz com holofote, porque é muito importante. Como eu já consegui morder a maçã do mainstream e do underground, eu sei o que isso significa. Eu preciso capitalizar um novo lugar e, principalmente, popularizar isso para que eu consiga de alguma maneira antecipar outros processos.

Eu tive um processo de 10 anos de criação e, sinceramente, eu não vou romantizar isso. Eu quero que outras pessoas venham com novas criações, com novas composições. Que a gente tenha outras urgências para serem ditas, que a gente consiga falar sobre outras dores, outras delícias e que a gente consiga realmente dar um passo à frente. Esse é o presente eu que posso dar para minha geração agora.


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