Dossiê Kraftwerk: como a banda alemã criou e definiu a música eletrônica há meio século

Criada em 1970 por Florian Schneider e Ralf Hütter, a banda fez parte do movimento pioneiro a incorporar sonoridade sintética às composições

Igor Brunaldi Publicado em 02/07/2020, às 07h00

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Kraftwerk (Foto:Getty Images / Mike Coppola / Equipe)

Florian Schneider, um dos quatro integrantes do Kraftwerk, e um dos dois que de fato fundaram o grupo, morreu no dia 21 de abril deste ano. Mas o legado deixado pelo músico alemão é daqueles que está para sempre cravado na história da indústria fonográfica.

E com o objetivo não apenas de honrar a memória desse gênio, mas também de mapear toda a influência que ele e o trabalho do Kraftwerk tiveram no desenvolvimento da música eletrônica, organizamos uma caminhada pelos principais momentos da carreira do grupo, desde a era krautrock até a incorporação total da sonoridade sintética, ou o que eles mesmos denominaram robot pop.


Anti-nazismo, fuga da cultura dos EUA e krautrock

Antes de chegarem na sonoridade com a qual se imortalizaram na história, Schneider e Ralf Hütter (dupla fundadora da banda) tinham em mente um caminho bem diferente para o projeto idealizado e iniciado em 1970, na cidade de Düsseldorf. 

Apesar de nunca terem realmente apostado em um som completamente orgânico (afinal de contas, eles já se apresentavam sob o nome traduz literalmente para "usina elétrica"), as composições presentes nos três primeiros discos não apresentam a mesma imersão computadorizada que chegou com o lançamento do icônico Autobahn (1974).

Kraftwerk (1970), Kraftwerk 2 (1972) e Ralf Und Florian (1973) já carregavam o ar inovador e o embrião de tudo aquilo que eles viriam a aperfeiçoar com os anos, mas são álbuns que demonstram uma maior inclinação para o rock avant-garde. Ou, como ficou mais conhecido, o krautrock.

Essa foi a nomenclatura encontrado para batizar bandas da Alemanha ocidental dos anos 1960 e 1970 que empurravam os limites do rock. Chamá-las meramente de "experimentais" parecia não ser exato para descrever o som que esses músicos se dedicavam a lapidar.

No começo, o termo krautrock infelizmente carregou consigo por um tempo uma conotação negativa, por ter sido usado pela imprensa britânica como uma forma pejorativa de classificar qualquer tipo de rock vindo da Alemanha. Mas o jogo mudou quando o sucesso dessas bandas se expandiu por toda a Europa.

Muito além do impacto na indústria fonográfica, o gênero carrega o peso histórico de ter nascido em meio às revoltas estudantis de 1968, quando a juventude revolucionária alemã protestar para se libertar do legado do nazismo, deixado pela atuação do país na 2ª Guerra Mundial e visava se distanciar dos padrões culturais (não apenas musical) norte-americanos.

A busca por esse afastamento cultural fez com que os músicos buscassem alternativas para as estruturas usadas no rock derivado do blues que reinava absoluto nos Estados Unidos.

E uma das formas criativas que encontraram foi o uso de ritmos mais psicodélico e hipnóticos, além, claro, das máquinas que originaram aquilo que conhecemos hoje como sintetizadores.

Além do Kraftwerk, as grandes bandas expoentes do krautrock foram Neu!, Can, Faust e Tangerine Dream.


A era Autobahn, inovações tecnológicas e robot pop

Foi em 1974, com o lançamento do álbum Autobahn, que o Kraftwerk ganhou a atenção do mundo todo. O disco representou um grande passo na nova direção que o grupo seguia e um salto enorme na criação da música eletrônica como a conhecemos hoje.

A partir desse ponto, Hütter e Schultz se afastaram cada vez mais dos instrumentos convencionais, e mergulharam cada vez mais na experimentação com sintetizadores, moduladores e aparelhos de distorção de voz, como o vocoder.

Durante essa onda de inovações, a dupla idealizou e colocou em prática, no ano de 1975, o formato definitivo de shows que adota até hoje: quatro integrantes posicionados um ao lado do outro, cada um com um set de teclas. Isso permitiu que eles explorassem ainda mais as já infinitas possibilidades rítmicas que se abriam exponencialmente como resultado da aceitação total da tecnologia como parte essencial das composições.

E assim, nos anos e nos discos que sucederam esse marco na história do grupo, o Kraftwerk se dedicou a aperfeiçoar e ousar cada vez mais com os dispositivos eletrônicos que os integrantes tinham à disposição. E até aqueles que não tinham.

A banda foi responsável por diversas inovações tecnológicas que permitiram a eles expandir ainda mais as ferramentas de criação, como o aprimoramento e personalização de hardwares e softwares e a construção manual de novos equipamentos, por exemplo as drum machines utilizadas nos álbuns Autobahn e Trans-Euro Express (1977).

Ao mesmo tempo em que a repetição (por vezes até minimalista) de sons ganhou força, o uso de tempos e beats inconstantes impediam que as músicas se tornassem cansativas e monótonas. O caráter dançante se mostrava cada vez mais intrínseco ao som dos alemães.

O vocal, por sua vez, começou a perder protagonismo, e às vezes aparecia tão modificado que se tornava mais uma camada usada com o objetivo de acrescentar profundidade sonora à totalidade da música.

Mesmo nesses casos, as letras cantadas nunca deixaram de transmitir mensagens relevantes, que transitam entre a vida urbana pós-guerra e o uso da própria tecnologia, tanto o lado positivo do desenvolvimento dela quanto os perigos do envolvimento digital descontrolado.

Tantas inovações, experimentações, êxitos, sucesso e admiração voltados a esse autodenomidado "robot pop", não podiam ter resultado em outro coisa a não ser: inspiração.


Os frutos de uma árvore imponente 

O Kraftwerk é considerado hoje um dos grupos mais influentes de todos os tempos. Há inclusive quem coloque o impacto da carreira deles na indústria fonográfica lado a lado com a dos Beatles.

Tudo que eles fizeram pela experimentação sonora, pelo avanço e pela incorporação do digital na arte da composição musical permitiu o florescimento e o fortalecimento incontestável da música eletrônica como um todo, e consequentemente, o nascimento e amadurecimento de gêneros, por exemplo, como o pós-punk, new wave, e techno.

É difícil imaginar como seria o mundo da música se o Kraftwerk nunca tivesse existido. Mas podemos ter certeza de que sem eles, o Joy Division soaria muito diferente (e obviamente o New Order também), o Depeche Mode talvez nem existisse e Richard David James dificilmente teria se tornado Aphex Twin.

Graças à evolução cultural constante e à preservação da inquietude louvável ainda nos artistas modernos, esses gêneros musicais mencionados, por sua vez, estão em constante expansão, e já deram frutos na forma de ramificações em constante expansão.

Não é sempre que uma semente consegue germinar, sobreviver, se nutrir, crescer como uma árvore forte e, por fim, dar frutos que resultarão em mais sementes. O Kraftwerk conseguiu.