Kaiser Chiefs, Breeders e Offspring são destaque de festival

Planeta Terra, que teve shows neste sábado em SP, teve mais público do que em 2007, porém menos força na escalação

Por Artur Tavares e Bruna Veloso Publicado em 04/11/2008, às 19h38 - Atualizado em 08/05/2013, às 16h28

Ricky Wilson, do Kaiser Cheifs, desceu até a grade, em SP

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O Festival Planeta Terra, que aconteceu neste sábado, 8, em São Paulo, teve seu auge de animação nos últimos shows dos palcos principal e indie, com Kaiser Chiefs e The Breeders, respectivamente, e no show de hits do Offspring. O Bloc Party, que antecedeu o Kaiser Chiefs no encerramento do palco principal, não conseguiu levantar a platéia, mesmo ao pedir desculpas pelo playback feito na premiação da MTV brasileira há cerca de um mês.

Com 15 mil espectadores (número igual ao divulgado pela organização no ano passado, porém, visivelmente maior do que o de 2007), ingressos esgotados há mais de uma semana e estacionamento a abusivos R$ 30, o festival se repetiu no bem distribuído Villa dos Galpões, com a mesma pontualidade, os banheiros de sobra e em ordem e uma praça de alimentação lotada.

Porém, em comparação com a escalação do ano passado - edição de estréia que teve os gigantes Devo, a forte indie Kasabian e os animados Cansei de Ser Sexy, leia/relembre aqui -, a edição 2008, assim como outros festivais brasileiros deste ano, teve menos nomes de peso, o que não manteve os ânimos exaltados do ano passado. Confira as resenhas, do último show para o primeiro:

Kaiser Chiefs - palco principal

As estrelas da noite, o quinteto Kaiser Chiefs fez a apresentação mais pop, levando os quinze mil espectadores do Planeta Terra à loucura. A banda baseou as canções em sonoridades punk, e, comandada por Ricky Wilson, tirou o público do chão nos sucessos "Ruby", "Na Na Na Na Naa" e "Modern Way". Logo nas duas primeiras do show, "Everything is Average Nowadays" e "Everyday I Love You Less and Less", o vocalista desceu à grade para cantar agarrando os braços dos fãs. Depois, arrancou risadas tentando conversar em português, lendo de qualquer maneira um texto que levou num papelzinho ao palco. Só conseguia repetir "Ele é um herói", se referindo ao baterista. "The Angry Mob" foi o momento da noite, com toda a platéia cantando em coro o refrão. Na última, "Oh My God", a banda prendeu o microfone na grua que segurava uma câmera móvel, e o fez girar pela audiência, que repetia catártica o refrão "Oh my god I can't believe it I've never been this far away from home", música conhecida também na voz de Lily Allen. (A.T.)

Bloc Party - palco principal

"Este show é muito importante pra nós. Não era nossa intenção desrespeitar toda uma nação que nunca tínhamos visitado antes", diz o vocalista Kele Okereke, pedindo desculpas pelo playback no Video Music Brasil deste ano. A banda havia acabado de tocar "Mercury", a melhor da apresentação do Bloc Party, mais eletrônica e dançante do que todos os outros sucessos mostrados - que não levantaram o público. A energia ficou mais por conta do baterista Matt Tong, que não evitou batidas fortes e repetitivas como as de hard-core. Embora tenha lançado o terceiro disco recentemente, o quarteto esbanjou músicas do passado, como "Like Eating Glass", "Helicopter", "Positive Tension", "Banquet" e "This Modern Love", todas do primeiro e elogiado álbum, Silent Alarm, de 2005. (A.T.)

The Breeders - palco indie

As irmãs gêmeas Kim e Kelley Deal lotaram o galpão do palco indie à frente do The Breeders. A banda foi um dos nomes mais destacados da cena alternativa norte-americana da primeira metade da década de 1990 - e suas melhores faixas são dos dois álbuns lançados nessa época, Pod (1990) e Last Splash (1993). Mesmo com discos esparsos (em 18 anos de carreira, foram apenas quatro álbuns), o grupo ainda tem uma boa legião de admiradores, inclusive alguns órfãos do Pixies, em que Kim tocava baixo. Ela se mostrou simpática e sorridente, falando entre as canções (com uma voz suave e um tanto baixa, se fazendo difícil de entender), e com uma postura de palco comedida. Antes de mandar "Bang On", do disco mais recente (o bom Mountain Battles, lançado neste ano), Kim brinca dizendo que dedica a música à sua irmã (o refrão diz "I want no one / no one wants me", algo como "eu não quero ninguém, e ninguém me quer"). Mas a platéia vibra mesmo com as faixas de Last Splash. A primeira foi "Divine Hammer". Os ventiladores do galpão não deram conta do calor provocado por tanta gente pulando ao mesmo tempo. Kelley (mais magra), que canta junto com a irmã em diversos momentos, deixa a guitarra de lado para tomar cerveja. Quando chegou a vez de "Cannonball", que projetou a banda mundialmente, o público veio abaixo. Também foram feitos covers - "Shocker In Gloomtown", do Guided By Voices, e "Happiness is a Warm Gun", dos Beatles. A bela "Drivin' on 9" teve Kelley no violino e o solo mais forte do show na guitarra. Destaque para o excelente baterista, que fica alinhado com as mulheres, em vez de se sentar no fundo do palco. (B.V.)

Spoon - palco indie

Os quase quinze anos de carreira dos indies do Spoon renderam a uma audiência mais fanática pelo grupo um bom show, repleto de singles de todos os momentos da banda. Estavam todos com seus instrumentos rápidos e distorcidos, mas a guitarra do vocalista Britt Daniel tinha um toque especial, um pouco mais barulhenta. Os fãs cantaram "Don't You Evah", "Don't Make me a Target", "The Way We Get By" de cabo a rabo, enquanto uma roda mais fervorosa no centro da pista batia palmas em "I Turn My Camera", "I Summon You" e "The Underdog". (A.T.)

Offspring - palco principal

Um show de recordações adolescentes: foi isso que os norte-americanos do Offspring comandaram no palco principal. Com um disco lançado em 2008 (Rise and Fall, Rage and Grace, depois de cinco anos sem um álbum de inéditas), o vocalista Dexter Holland sabe que os hits da banda estão no passado, e não decepcionou a platéia lotada e cheia de vontade de pular ao som dos antigos sucessos. A apresentação começou com "Stuff Is Messed Up", do último CD - mas a entrega total só se deu em "Come Out And Play". A faixa pegajosa, um dos primeiros grandes sucessos da banda, faz parte do álbum Smash, de 1994, e provocou o maior coro da platéia até então, que cantou "gotta' keep em' separated" em uníssono. O vocal rasgado e gritado de Holland, de cabelos loiros e lisos, é a característica do grupo, que também conta com o animado guitarrista Noodles, vestido com a camisa "9" da seleção brasileira. A banda mostrou sete faixas do disco Americana (1998), que estourou com "Pretty Fly (For a White Guy)". Pelos dois telões (com ótimas imagens), deu para ver muita gente espremida na grade e uma ou outra roda de pogo. Inúmeras air guitars acompanharam "Head Around You", no bis. Noodle grita agradecendo ao público ("sexy fucking audience!") antes de a banda terminar a apresentação com "Self Esteem", reverenciada. (B.V.)

Foals - palco indie

O Foals subiu ao chamado Indie Stage ovacionado pelo público. Com apenas um disco na bagagem, Antidote, o quinteto liderado pelo vocalista Yannis Philippakis (que também toca guitarra) conseguiu manter a platéia cheia de indies dançando na maior parte do tempo. "Olympic Airways" e "Heavy Water" são exemplos da veia dançante, mas a banda é dada a longos trechos instrumentais - e exagera nisso em alguns momentos. A abertura do show teve um deles, seguida do single "The French Open". Na linha de frente, Yannis, que canta de lado para a platéia, o baixista Walter Gervers e o guitarrista Jimmy Smith estão quase sempre em catarse, pulando enlouquecidos. O vocalista chegou a subir algumas vezes em caixas de som e a descer à área reservada aos fotógrafos. Durante "Two Steps Twice", última do show, que durou cerca de 50 minutos, o baterista Jack Bevan vai à frente do palco, chamando palmas do público - que respondeu devotamente, dançando e gritando junto. (B.V.)

Jesus and Mary Chain - palco principal

Um clima de nostalgia pairava no começo da performance do Jesus and Mary Chain, um dos grupos relacionados ao surgimento do pós-punk, e que voltou à ativa em 2007, após quase uma década parado. A banda levou muitos curiosos ao palco principal do festival, mas poucos fãs devotos. Animou mais nos sucessos "Head On" - gravado pelo Legião Urbana, e lançado em um acústico póstumo -, "Just Like Honey", que não teve vocais de Mallu Magalhães (houve boatos durante a semana), e "Kennedy Song". A sonoridade, porém, lembrou mais o New Order dos últimos anos, dançante e limpa, diferente das canções soturnas e abafadas que o grupo costumava tocar no auge da carreira, nos anos 80. (A.T.)

Animal Collective - palco indie

Promessa de ser a melhor apresentação do palco indie nesta edição do Planeta Terra, o Animal Collective sofreu com uma sucessão de erros técnicos durante as três primeiras músicas do show, o que irritou o público e deixou o trio nervoso e sem entrosamento na hora de tocar. Em "Chocolate Girl", o vocalista tentou cantar duas vezes com o microfone desligado, antes de parar a música, esperar o ajuste e começar de novo. Na seguinte, "Essplode", uma de suas guitarras não funcionou. Testou a outra em "Summertime Clothes", que teve uma imensa introdução psicodélica de sintetizador e bateria antes de tudo funcionar nos conformes. Fizeram ainda outras três peças, cada uma com cerca de dez minutos. O destaque fica para "Fireworks", quando pararam de criar músicas apenas com efeitos eletrônicos e passaram a dar atenção para a guitarra e a bateria. (A.T.)

Mallu Magalhães - palco principal

Ela chegou sozinha, enquanto muita gente se dirigia para a frente do palco. A cada show, Mallu parece estar mais segura de si. Sua banda estava uniformizada, de calças pretas, camisa listrada, gravata borboleta e cartola (os três últimos também utilizados por Mallu, que completava o visual com uma calça sarouel vermelha e um casaco cinza). Apresentando músicas de seu primeiro CD (que chega às lojas em 15 de novembro) e os covers habituais (Beatles, com "Your Mother Should Know", e Johnny Cash, com "Folsom Prison Blues"), Mallu conseguiu prender a atenção da platéia até pouco mais do meio da apresentação. "Faz", faixa nova, que não está no álbum, mostra que a cantora também leva jeito para compor em português - "O Preço da Flor" e "Vanguart", em homenagem ao amigo Helio, também servem de exemplo para isso. A boa banda que a acompanha teve a participação de um simpático e teatral backing vocal. Em "Noil", Mallu toca escaleta, e já não parece uma menina - com gritinhos ao longo da música e um solo melancólico no teclado, a cantora cresce. Dificilmente um desavisado creditaria a faixa a uma garota de 16 anos. Ela também se mostra versátil, tocando além de violão, escaleta e banjo, gaita e teclado. O show termina com o cover de Cash, dessa vez modificado - com uma entrada lenta, e explodindo em seguida. (B.V.)

Curumin - palco indie

O baterista brasileiro Curumin foi ao Terra protestar contra a desigualdade, e com muito samba, reggae e groove fez o pouco público, que ainda chegava ao festival, dançar. Com o apoio de dois músicos, um no sintetizador e outro na bateria eletrônica, passeou por hits de seu segundo disco, Japan Pop Show, como "Mal Estar Card" e "Kyoto", além de tocar canções em inglês e bossas de seu primeiro disco, Achados e Perdidos, de 2003, e outros hits, como "Compacto". Ainda teve a ajuda do MC Christopher Love fazendo dois raggas durante a apresentação. Para encerrar, deixou a bateria de lado para tocar um cavaquinho elétrico. (A.T.)

Vanguart - palco principal

Quando o Vanguart subiu ao palco principal da Villa dos Galpões, a platéia ainda estava se aquecendo. Em uma apresentação bem plugada (o Vanguart tornou-se conhecido como um dos representantes da safra de artistas brasileiros que se inspiram no folk norte-americano), David Dafré usou bastante distorção em sua guitarra, a exemplo de "Beloved", cantada pelo baixista Reginaldo Lincoln. Aberto com "Just to See Your Blue Eyes See", o show reuniu faixas do primeiro e único álbum da banda, homônimo, e outras que podem fazer parte de um próximo. Ao longo de "Mexico Dear Blues", o grupo arranca algumas palmas do público ainda esparso. Antes de encerrar com "Semáforo", faixa mais conhecida do quinteto, Flanders agradece mais uma vez aos presentes (ele o fez em incontáveis momentos durante o show). (B.V.)

Brothers of Brazil - palco indie

Supla na bateria e seu irmão João Suplicy no violão elétrico misturaram bossa nova, punk rock, ska e rockabilly em canções bem-humoradas. Primeiro show do festival, às 16h, o Brothers of Brazil tocou para pouquíssima gente, mas recebeu aplausos pela sintonia dos músicos. (A.T.)