Kate Nash se diverte e diverte os fãs com seu barulho pop

Apesar da aparência cheia de meiguices, a cantora mostrou suas canções muitas vezes ácidas e pesadas no HSBC Brasil, na última sexta, 25

Por Stella Rodrigues Publicado em 26/02/2011, às 16h16

Kate Nash e seu já famoso gesto de coraçãozinho com a mão

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Tem vezes que dá impressão que o artista que está lá no palco, trabalhando, está se divertindo mais, ou tanto quanto, os pagantes de ingresso que observam da plateia. Esse foi o caso durante o show da inglesa Kate Nash, de apenas 23 anos, que após uma passagem pelo Rio de Janeiro na última quinta, 24, subiu ao palco do HSBC Brasil, em São Paulo, na última sexta, 25, nesta que foi sua primeira vinda ao Brasil.

Inicialmente, a apresentação estava marcada para começar às 22h, mas o relógio já marcava quase 23h - sim, mesmo ela sendo britânica - quando a moça apareceu diante de seus fãs. O substancial atraso não incomodou muito as cerca de duas mil pessoas (segundo dados fornecidos pela assessoria de imprensa da casa) que ocupavam confortavelmente o HSBC Brasil.

Primeiramente, ao som do clássico sessentista "Crimson and Clover", a banda de Kate tomou o palco e cada um assumiu seu lugar. Depois, foi a vez dela, moleca, entrar correndo, invadindo o palco, ostentando uma bandeira brasileira e fazendo aumentar em alguns bons decibéis a barulheira feita no lugar. Vestida com um de seus indefectíveis laços na cabeça e com um coração pintado no rosto e outro pendurado no pescoço, Kate era a imagem da graça e da fofura - pelo menos antes de tudo começar e a estrela da noite mostrar seu lado de rock star, com direito a se jogar no meio do público sem frescuras.

Os gestos de coraçãozinho que tem hábito de fazer com a mão (o mesmo que é conhecido no Brasil como símbolo de bandas como o Restart e que estampa a capa de seu segundo disco, My Best Friend Is You, lançado ano passado) e o jeito de menina pop meiga são esquecidos quando Kate começa a tocar - alternou entre o piano iluminado, a guiatarra e o violão - e cantar. Abusando de distorções na guitarra e mostrando uma potencial vocal bastante louvável, ela fez barulho - aliás, para quem ocupava a porção do auditório mais próxima ao palco, fez muito barulho, pois o som chegava a estourar nas caixas, de tão alto.

A noite começou ao som de "I Just Love You More", cuja letra pareceu perfeita para retribuir o amor que recebeu ao ser recepcionada pelo público de São Paulo. Seguiu com a faixa mais bem sucedida de seu álbum de 2010, "Do-Wah-Doo".

Usando um modelito com faixas pretas e brancas, com pontas costuradas em uma manga vermelha (veja ao lado na galeria de fotos), Kate, por pouco, não estava vestida de bandeira do estado de São Paulo quando abria os braços. O que se tornou curioso quando, neste momento inicial do show, desafiou os paulistanos a serem uma plateia mais divertida e calorosa do que a carioca, provavelmente sem ter tido as devidas aulas sobre o tamanho da história de rivalidade com a qual estava mexendo. A terceira música, "Mouthwash", umas das mais conhecidas, veio para selar a proposta do show. "E eu canto oh oh em uma sexta à noite e espero que tudo vá ficar bem", diz o despreocupado refrão.

Kate, como é de praxe, passou a noite se dizendo completamente apaixonada pelo público brasileiro. Além do tradicional "obrigada" e arriscou até um "e aí, galera?" entre um drink, uma música, um de seus muitos sorrisos tranquilos. E quanto mais bebida, mais soltinho ficava o riso, mesmo quando escorregou de leve em uma ou outra letra.

Seguiram-se "Kiss That Grrrl", sua homenagem ao movimento riot grrrl e às bandas de menina da década de sessenta das quais tanto gosta, "Take Me to a Higher Plane" e "Don't You Want to Share the Guilt?". Antes de "I Hate Seagulls", pediu silêncio absoluto na plateia e só com a voz e a guitarra puxou um coro dos fãs, que diante dessa atmosfera mais calma brigavam com quem ousasse falar algum coisa e atrapalhar o belo clima quieto e calmo estabelecido.

Mais tarde, dedicou "I Got a Secret" para os homossexuais e fez um breve discurso sobre como devemos ser quem somos; depois, ela, que é namorada do músico Ryan Jarman, do The Cribs, mandou seu recado para as groupies com a letra repleta de "spoken words" raivosas e ácidas de "Mansion Song".

Após a pesada "Model Behaviour", que foi de estourar os tímpanos, o punk tomou conta de Kate Nash, que resolveu que era a hora de "ir para a galera". Diferentemente do que aconteceu no Rio, onde seu stage dive fez com que se machucasse toda, desta vez interagiu com a plateia com um pouco mais de tranquilidade. Mesmo assim, depois que o lacinho que adornava o alto de sua cabeça desapareceu em meio ao gargarejo, só ressurgiu de novo alguns minutos mais tarde, quando ela teve que ser resgatada e se posicionou de novo no palco.

Antes do bis, ainda tinha um espaço no setlist reservado para duas das músicas mais conhecidas pelo público. Quando ela pediu para todo mundo colocar as mãos para cima e mexer as pontas dos dedos, muitos já sabiam: era a vez de "Foundations", cujo refrão fala em pontas de dedos tapando os buracos no alicerce de um relacionamento. A esta altura, a artista era só sorrisos e gargalhadas e ficou claro que ela era mais uma das várias jovens garotas que foram ao HSBC Brasil querendo curtir e aproveitar a sexta à noite.

Antes da programada "Merry Happy", pausa para atender um pedido que estava sendo requisitado aos berros a noite toda. "We Get On!", bradavam as pessoas, clamando por uma música mais obscura de seu trabalho de 2007, Made of Bricks. Ela explicou mais de uma vez que não lembrava a letra, não sabia mais tocar, nem cantar, mas não teve jeito, acabou cedendo e, ligeiramente acanhada, foi pedindo ajuda dos fãs. De fato, sem mostrar a faixa ao vivo há uns três anos, se perdeu algumas vezes. Mas o público não, e o esforço colaborativo entre as vozes da plateia, a dela e o piano - e só, sem banda - foi o momento mais marcante da ocasião. A champanhe, então, já fazia seu efeito e cada deslize era seguido de uma gostosa risada de Kate, que foi aplaudida até pela sua banda por ter conseguido improvisar. Aí, sim, "Merry Happy" encerrou a porção principal do show.

Ao retornar para o bis, agora vestindo uma camiseta com uma menina ruiva e os dizeres "Brazil", cantou os dois hits que faltavam: "Nicest Thing" e, anunciando a última dança da noite, tocou a animada "Pumpkin Soup" sob chuva de papel picado. Quando parecia que tudo tinha terminado, Kate, de pé em cima do seu piano, decidiu que não tinha tido contato com a plateia o suficiente e causou um verdadeiro frenesi indo parar no meio dos fãs da pista comum. Difícil dizer quem se descabelou mais com tamanha impulsividade: os seguranças, suas produção ou o público, que balançava freneticamente suas câmeras tentando registrar de perto a carinhosa cantora.

Veja abaixo um vídeo de Kate Nash cantando "Paris" e o público retribuindo esse carinho todo com os famigerados gestos de coraçãozinho.