Kim Thayil fala sobre os planos do Soundgarden

Guitarrista dá detalhes de Live on I-5, primeiro disco ao vivo da banda, e sobre as ideias para o novo disco de estúdio

Por Greg Prato Publicado em 07/03/2011, às 12h43

Kim Thayil e Chris Cornell em show do Soundgarden em setembro de 2010
AP

Desde que foi divulgado no ano passado que o Soundgarden havia se reunido para uma série de apresentações ao vivo, os fãs estavam esperando para saber se o reencontro seria por tempo integral. Agora, parece que os admiradores da banda finalmente terão seu desejo realizado. Além do lançamento do primeiro álbum ao vivo, Live on I-5 (com registros de 1996, a maior parte deles durante shows nos Estados Unidos e no Canadá), saiu a notícia de que o Soundgarden tem tocado algumas coisas que poderão acarretar ao retorno dos integrantes ao estúdio em algum momento deste ano - o que significaria o primeiro álbum da banda desde Down on the Upside, de 1996.

O guitarrista Kim Thayil deu à Rolling Stone EUA uma atualização acerca do que está rolando atualmente no mundo do Soundgarden e o que esperar pelos próximos meses.

Por que não houve uma turnê completa após o Lollapalooza do ano passado?

O que mais prejudicou foi o fato do Matt [Cameron] ter algumas obrigações com o Pearl Jam e Chris [Cornell] com sua carreira solo. Demorou muito para recuperar o atraso dos 13 anos. Você tem que aprender muitas músicas para alguns shows, e também, claro, lançar [a coletânea] Telephantasm. E o vídeo de "Black Rain". Eu estava representando a banda, supervisionando Telephantasm da arte da capa à tracklist. Então, aquele foi um grande projeto. Daí, começar a mixar, masterizar e fazer o design da capa do disco Live on I-5. E Ben [Shepherd] escreveu e gravou um disco solo naquele período também, que não foi lançado. Foi um ano muito ocupado para nós.

Era para o material do Live on I-5 ter sido lançado em 1997 (o que acabou não acontecendo devido ao fim da banda)?

Trouxemos o Adam Kasper para a turnê em 1996. Queríamos que ele gravasse aquilo por uma série de coisas - como uma forma de avaliar e analisar as performances, estávamos esperando para talvez liberar como um lado B em algum material para lançamento estrangeiro, e possivelmente originar um disco ao vivo. Era isso que tínhamos em mente. Claro, a banda acabou se separando depois daquela turnê.

Quando eu conversei com Matt e Ben sobre a turnê 1996-1997 do Soundgarden para o livro Grunge is Dead, Matt disse que "os shows foram um pior que o outro", porém Ben achou que aquilo se tratou da "experiência mais criativa e demolidora que já ouvi falar ou da qual fiz parte". Como você se posiciona acerca do assunto?

Eu acho que eu e o Chris também estávamos bebendo muito. Acho que também deve ter tido alguma ocasião de quebrar tudo no camarim. Mas eu terminei todos os shows [risos]. Não deixei o palco bravo ou quebrei minha guitarra... Bom, se eu fiz isso com a minha guitarra, do primeiro ao último show do Soundgarden, não foi fora do local do show. Foi mais por paixão ou frustração.

Adam [Kasper] estava gravando os shows da turnê feitos no oeste - houve diversos bons shows por lá. E, mesmo nos ruins, houve boas performances em algumas músicas. Não escolhemos as faixas de todos os shows. O que escolhemos foram não só boas performances, mas gravações boas. Adam fuçando as fitas e achando performances realmente sonoras. Bons sons de bateria ou de guitarra. Então, você encontra performances que batem com esse som. Depois, você pode procurar por performances criativas ou particularmente expressivas ou emotivas.

O que você achou de Live on I-5 quando o ouviu do começo ao fim?

Ben e eu estávamos falando disso no fim de semana passado - ainda temos certo receio deste disco, das performances e das músicas. É meio ridículo quão rápido estamos tocando "Jesus Christ Pose" ou "Ty Cobb" - muito mais acelerado do que as versões em estúdio. E há alguns preenchimentos meio loucos do Ben, Matt e eu. Solos de guitarra, baixos esquisitos e algumas coisas com a bateria. Eu acho que todos, quando estávamos ouvindo, ficamos surpresos pelas performances individuais e coletivas.

Há também um disco bônus se o álbum for comprado pelo site oficial da banda, ou conteúdos para download por meio do iTunes, correto?

Provisoriamente estamos intitulando Before the Doors , porque é durante a passagem de som, antes das portas terem sido abertas. Pegamos algumas músicas e as gravamos - como teste dos equipamentos de gravação, mas também para termos as faixas que queiramos ou não incluir no nosso repertório. O que é incomum nelas é que soa ao vivo, mas não há público presente. Essas performances incríveis tocadas em uma arena vazia, mas que você consegue o ambiente e som de arena, e consegue ter a reverberação e o eco que emana no palco. É uma coisa bem viajante, é como se estivéssemos tocando sozinhos em um desfiladeiro ou em uma catedral.

Há conversas sobre o Soundgarden realizar uma turnê completa em breve?

Acredito que estamos sim interessados em tocar ao vivo novamente. Nunca é, no fim das contas, satisfatório fazer um show aqui e outro ali, porque você não tem noites seguintes para resgatar a si mesmo, se existe algo que você sente que não foi dito ou algo que você sente que foi inexpressivo ou que você poderia fazer melhor. E a coisa legal de se estar em turnê é que sempre existe a noite seguinte. Você tem ótimas noites, outras nem tanto.

Chances de uma turnê agora no meio do ano?

Acho que Matt terá alguns compromissos com o Pearl Jam, mas sempre estamos conversando sobre essas coisas. Há sempre ideias. Não quero ser vago, mas sempre estamos falando um com o outro, tocando um com o outro, e acho provável que acabemos tocando juntos. E acredito que ficaríamos mais felizes de fazer isso em uma turnê do que apenas em shows soltos.

Há ideias de como Matt poderia balancear os compromissos dele com o Pearl Jam se o Soundgarden de fato acabar se tornando uma banda de gravações/turnês por tempo integral novamente?

Isso é algo que também deverá ser discutido. A preocupação primeira de Matt é o Pearl Jam. Não quero dizer que o Soundgarden é um projeto paralelo dele - é muito mais do que isso para ele. Ele definitivamente nos ama como amigos e como parceiros criativos. Então, não colocarei em seus ombros mais peso do que ele já tem [risos].

Há planos de lançamento em DVD da apresentação no Lollapalooza que foi filmada no ano passado?

Isso soa familiar, mas há tantas coisas sendo discutidas. Eu recentemente vi algumas das imagens do Lollapalooza porque não estavam muito sincronizadas com a música. Acho que todos nós gostamos daquilo, acredito que faríamos algo. Mas não sei se será transmitido ou se apenas pegaremos algumas faixas e deixaremos disponíveis.

E em que estágio se encontra o tão comentado álbum de lados B?

Na minha cabeça, ele se encontra em primeiro plano. Por conta de toda a atenção dada ao álbum ao vivo, ele foi deixado um pouco de lado. Novamente, o disco ao vivo foi supervisionado pelo Matt e por mim e eu escrevi o encarte junto a Adam Kasper. Então, isso é o que tem sido o centro da minha atenção.

Planos futuros?

Definitivamente o Live on I-5 e, de certa forma, o disco de lados B. A única coisa que colocaria os lados B de canto seria se decidíssemos focar e nos concentrar em novos materiais.

Novos materiais?

Estamos tocando. Apenas reaprendendo e "reamando" uns aos outros na forma criativa. E é maravilhoso, está sendo ótimo. Todos estão felizes e há muitas ideias sendo lançadas. Pedimos desculpas por não termos divido muitas coisas com os fãs nos últimos meses porque eles realmente têm sido muito intensos em termos criativos. A parceria criativa é certamente a que gostaríamos de reservar um tempo para desfrutar e é o que temos feito nos últimos meses. E eu realmente gostaria que os fãs soubessem disso.

Já há alguma canção?

Pode haver. Acho que há diferentes níveis de "vestimentas" envolvidas - do nu ao formal, com as ideias que temos.

Há alguma coisa específica que te faça lembrar da era Soundgarden nessas ideias?

A era da banda que eu poderia melhor comparar é a do final de 2010 e começo de 2011! Não soa como nenhuma outra coisa. Está de fato soando como quatro caras compondo canções, que têm uma forma estranha de aproximação com seus instrumentos, que não têm tocando muito nos últimos 12 anos. É isso o que soa. Todos têm novas ideias, o que tem contribuído para essas sessões.

Então, a questão óbvia permanece - é objetivo da banda entrar em estúdio e gravar um novo álbum?

Agora não estamos gravando, mas planejamos - e iremos. O tempo que estamos gastando com essa parceria criativa, tocando música juntos e compondo, com o objetivo definitivo de gravar e lançar novo material. Ainda não estamos gravando, ainda não estamos lançando nenhum material. Estamos compondo com esse propósito.

Há alguns títulos para as faixas?

Algumas têm, mas podem facilmente ser alteradas com a mudança das letras. Algumas músicas não possuem letras.

Quando você acha que a banda entrará em estúdio para começar a gravar?

Há ideias. O mais rápido possível ou assim que a gente se sentir confortável. Eu diria que ainda no primeiro semestre.

Já sabem quem produzirá o novo trabalho?

Tenho trabalhando com o Adam Kasper o ano inteiro em Telephantasm, e mixando e masterizando o disco ao vivo. Ele tem sido nosso cara pelos últimos 12, 13 meses. Acho justo dizer que temos interesse em dar continuidade a isso.

É engraçado que para um gênero de música que foi tão baseado na performance ao vivo, nunca houve um disco ao vivo definitivo de grunge e Live on I-5 finalmente tem essa sonoridade. O MTV Unplugged do Nirvana em Nova York é um clássico, mas não inclui a empolgação de um show completo de rock.

Eu acho que Pearl Jam, Nirvana e Alice in Chains foram todas bandas que fizeram Acústico/Unplugged. Pediram que fizéssemos um acústico várias vezes, mas não fizemos, porque estávamos no meio da realização de um monte de outras coisas. Ou estávamos em turnê ou gravando. Era tipo "Ei, a MTV quer que vocês façam um Acústico" e a gente pensava "Não agora". Mas é interessante, das quatro grandes bandas fomos a única que nunca fez um Acústico. Olhando para trás, eu acho que, provavelmente, deveríamos, mas tínhamos um monte de outras coisas acontecendo, um monte de coisas que estávamos fazendo, na época, que nunca chegamos a concretizar um Unplugged.