Lana Del Rey e a romantização das relações abusivas

Cantora é frequentemente acusada de glamourizar situações tóxicas - mas qual o problema desse tipo de abordagem?

Larissa Catharine Oliveira | @whosanniecarol Publicado em 23/06/2020, às 07h00

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Lana Del Rey (Foto: Robb Cohen / Invision / AP)

Lana Del Rey deseja incluir a fragilidade feminina como uma pauta “importante” ao feminismo. Desde o primeiro álbum da carreira, lançado em 2012, a cantora se envolveu em diversas polêmicas pelas composições e declarações controversas. Afinal, Lana realmente romantiza relações abusivas?

Em 2014, Lana demonstrou desinteresse no feminismo em entrevista à Fader Magazine. “Para mim, não é um conceito interessante. Sempre que falam sobre o tema penso, Deus, não estou interessada”, disse. Em recente carta aberta, publicada em maio nas redes sociais, a artista defende a necessidade de um espaço nas pautas feministas para “mulheres que se parecem e agem como” ela - as “delicadas” e “submissas ou passivas” em relacionamentos.

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“Posso voltar a cantar sobre estar encarnada, me sentir bonita por estar apaixonada, mesmo que o relacionamento não seja perfeito, ou dançar por dinheiro - ou o que eu quiser - sem ser crucificada ou acusada de glamourizar abuso?”, pediu Lana na carta. O texto causou diversos debates e foi acusado de racismo por citar artistas como Doja Cat, Cardi B, Kehlani, Nicki Minaj e Beyoncé para reclamar sobre as críticas ao próprio trabalho.

“Fui honesta e otimista sobre os relacionamentos desafiadores que tive. É assim para muitas mulheres”, defendeu Lana. “E essa foi infelizmente a minha experiência até o ponto em que gravei esses álbuns”.

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Músicas polêmicas

Conhecida pelas músicas tristonhas, Lana canta sobre relacionamentos com homens problemáticos, geralmente mais velhos e comprometidos. “Podemos escapar rumo à luz do Sol/Conheço sua esposa, ela não se importaria”, canta em “Cola”, do álbum Born to Die (2012). Em “Shades of Cool”, de Ultraviolence(2014), se vangloria porque está com um homem que “chama por mim, não por você” - mas considera o interesse romântico “incorrigível”. “Não posso consertá-lo, não posso fazê-lo melhor”, lamenta na letra.

Outros traços constantes das paixões no catálogo musical de Lana é o envolvimento na criminalidade, vício em drogas e, muitas vezes, são violentos no próprio relacionamento. “Nós dois conhecemos seu histórico violento/Mas não estou assustada, porque não há nada a perder/Agora que te encontrei”, dizem os versos de “Honeymoon”. Em “Ultraviolence”, Lana descreve o relacionamento com um homem chamado Jim, pelo qual “faria qualquer coisa”, mesmo vítima de violência doméstica. “Ele me machucou mas parecia amor verdadeiro/Jim me ensinou que/Amá-lo nunca era suficiente/Posso ouvir sirenes, sirenes/Ele me bate, mas a sensação é de um beijo”, conta na letra.

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No trabalho mais recente, Norman Fucking Rockwell (2019), a cantora mudou um pouco o tom nas letras. Apesar de trechos ainda destrutivos, como “Se ele é um assassino em série, então qual é o pior/Que pode acontecer com uma garota que já está machucada?”, em “Happiness is a Butterfly”, faixas como “Cinnamon Girl” mostram maior consciência dos problemas enfrentados antes: “Se você me abraçar sem me machucar/Será o primeiro a fazer isso”.

Romantização ou relato?

Lana defende o direito de seguir com essas temáticas nas composições, e os tópicos em si não são problemáticos ou politicamente incorretos. Na realidade, a divulgação desses temas nas artes é importante e pode ajudar mulheres a reconhecerem relacionamentos tóxicos, mas a romantização dessas situações pode ser extremamente perigosa. A Rolling Stone Brasil conversou com a psicóloga Fabíola Luciano e Bruna Rangel, co-fundadora do coletivo feminista Não Me Kahlo, sobre a diferença entre o relato e a romantização desses padrões, além dos riscos à sociedade no segundo caso.

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“Uma obra pode retratar um relacionamento abusivo, afinal, isso faz parte da nossa realidade e da realidade de muitas mulheres que usam da sua arte como forma de expressão”, argumenta Bruna. “Existe diferença entre falar que ‘aquilo era amor’ e ‘achei que aquilo era amor porque estava em um relacionamento abusivo’”.

“Uma obra que narra um relacionamento abusivo vai elucidar toda a dor que causa este tipo de dinâmica. O relato vai detalhar a minúcia do lado doloroso da história”, explica Fabíola. “Quando vem de forma romantizada, existe uma tendência à justificar ou minimizar os comportamentos abusivos. Ou seja, o abuso é sempre apresentado como parte do amor, da intensidade da paixão”.

O grande problema da romantização de relacionamentos com pessoas abusivas, tóxicas e violentas está na naturalização desses comportamentos, algo recorrente na cultura popular, seja em músicas ou filmes, como a relação entre Coringa e Arlequina, personagens da DC Comics. Quando os namoros conturbados são vendidos como um casal apaixonado e intenso, “pode passar a idéia de que tudo bem viver relações assim, e até incentivar este tipo de dinâmica”, alerta Fabíola.

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“A cultura pop contribui para a visão de mundo de muitas pessoas que se identificam com ela. Assim, romantizar um abuso pode ter uma consequência severa no que tange ao impacto que vai causar em quem consome este conteúdo, e fomenta um referencial de relação totalmente deturpado”, continua a psicóloga.

“Pode ter um efeito bastante devastador, considerando a influência da cultura pop na vida das pessoas”, alerta Bruna. “E que tipo de mensagem você está deixando para o mundo e para as mulheres nesse mundo? A cultura pop pode contribuir para naturalização de comportamentos abusivos. E essa naturalização, por sua vez, desembarca na legitimação de violências contra a mulher”.

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Na opinião da representante do Não Me Kahlo, todos os artistas devem refletir sobre a mensagem e o impacto social de cada nova criação. Apesar de não relacionar diretamente as obras que romantizam esses comportamentos à violência, explica um processo “muito sutil” gerado por esse tipo de conteúdo. “Essas obras fazem parte de um imaginário coletivo que constrói ideias de relacionamentos, do que é amor, do que é abuso, de onde está essa linha de separação”, pontua. “Se sempre vemos que certo comportamento é normal, natural, que isso é amor, quando ele acontece contigo você não o percebe como abusivo”.


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