Lançar ou não lançar um disco durante a crise do coronavírus? Eis a questão

Brasil ainda não teve o pico da Covid-19 apesar de cidades e capitais iniciarem o processo de reabertura - mas como a música se encaixa nessa história?

Pedro Antunes, editor-chefe Publicado em 07/06/2020, às 10h00

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Charli XCX, Mahmundi, Rico Dalasam e Dua Lipa lançaram trabalhos durante a pandemia

A resposta direta, caso queira, é essa: sim, é importante lançar música durante esse período de isolamento e de crise social, econômica e política gerada pela luta contra o novo coronavírus.

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Março foi um mês particularmente difícil para a indústria da música. Por três semanas seguidas, nos Estados Unidos, os números de streaming caíram de forma drástica. Em três semanas do mês, a queda foi de 2% na primeira semana, depois 8,8% e, por fim 3,2%.

Na última semana de março que acabou no dia 2 de abril, ou seja ainda antes do início do mês, contudo, os números já subiam. As audições de streaming cresceram 2%. A partir daí, os resultados têm sido positivos, segundo aponta a Forbes. 

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Meu e-mail profissional e o pessoal recebe diariamente, pelo menos, 100 mensagens cada com novos lançamentos, singles, clipes, lyric videos, EPs, compactos, discos inteiros. E motivou esse texto. Afinal, a crise do novo coronavírus afeta como a música que ouvimos?

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Mudança de comportamento explica a queda

Os primeiros estudos a tratar do declínio da música tratava de uma mudança de comportamento causada pelo isolamento social. Faz sentido: desde que a música passou a existir na nuvem, ela se tornou companheira do cotidiano.

Abocanhou parte do espaço das rádios em momentos como faxina em casa, na cozinha ou quando se está no carro, a caminho para o trabalho. Ou seja, a música por streaming definitivamente entrou para o que chamo de "música ambiente". E faz sentido que seja assim. Na era do entretenimento on demand, escolher o que ouvir passa a ser mais interessante do que se deixar levar por uma programação determinada por outras cabeças.

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Claro, até isso está mudando. Diante de um catálogo tão vasto de conteúdo, a existência da curadoria para guiar as pessoas para a série, filme ou disco ideal para determinado momento passou a ser importantíssimo para evitar a crise causada pelo excesso de opções. Há quem passe tempo demais diante da Netflix tentando escolher o que assistir do que de fato consumindo álbum conteúdo. Sim, as opções são infinitas e eu entendo.

Voltemos para a música. Porque ela passa exatamente por isso. Afinal, quantos são os discos, singles e EPs lançados a cada sexta-feira, que é o "novo dia mundial de lançamentos". A curadoria (seja humana, nossa, dos jornalistas, de influenciadores ou até do algoritmo) é fundamental para ajudar a entender o que ouvir. Numa sexta-feira de abril de 2019, por exemplo, saíram discos de Céu, Elza Soares, Chico César, Rael, Ana Frango Elétrico, Jade Baraldo, Zudizilla e Lulina. Sim, foi uma loucura.

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Essa enxurrada de lançamentos, todos em um dia só, não é ruim para o mercado, mas exige novas formas de chegar às pessoas. E é aí que quero chegar para responder à questão do título. Pensar que ser músico começa e termina na canção está errado há anos. Existe muito mais envolvido nesse ofício.

Como a crise do Covid-19 afetou a música?

É importante entender que a música passou a ser essa companhia para fora de casa (metrô, ônibus, carro, caminhada, corrida, etc). Por isso os números do streaming cresceram tanto desde a chegada ao Brasil, porque a música entrou em um tempo nosso no qual antes ela não estava. E, também por isso, a queda com o início do isolamento social recomendado pela Organização Mundial de Saúde.

Se todos estão em casa, onde e como ouvir música? Alguns artistas sacaram isso antes que outros.

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Saúde mental

A pergunta do título e toda a discussão promovida aqui também parte do princípio que artista quer ou tem um disco para ser lançado. E, principamente, se está criativo e pronto para produzir ou lançar música. Saúde mental, em tempos de isolamento social e tantas outras questões que martelam a cabeça de todo mundo, é fundamental, ok?

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Vi fãs e músicos, no início da pandemia, sugerindo diversos "discos de quarentena". Não foram tantos que seguiram para frente com essa ideia. E tudo bem. Não é obrigatório ser criativo ou eficiente o tempo todo, principalmente em um momento tão angustiante e incerto.

Falo com músicos diariamente em lives no meu Instagram (me sigam por lá, aliás, é @poantunes). Alguns estão mais criativos do que nunca, outros não conseguem criar neste momento. E tudo bem, para ambos os casos.

As lives sobrevivem? Será?

Nunca fui um consumidor de lives antes da pandemia do novo coronavírus, confesso. Era aquele chato que reclamava do áudio, da transmissão, da falta de energia de um show ao vivo (mesmo quando a performance ao vivo também passasse por problemas como som ruim, energia péssima do público ou do artista).

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O sertanejo, que é gigantesco no Brasil, sacou antes que era um formato bem funcional para eles. Uma ou duas vozes, um violão, poucas câmeras e pronto. Não tinha muito mistério para ser resolvido. Pronto, os recordes vieram.

Até quem não é uma Marília Mendonça ou um Gusttavo Lima tem reunido bons números nas transmissões e também depois delas - tudo gira em torno do algoritmo que determina se o conteúdo de tal artista aparece ou não no feed de quem o segue, quanto mais interações entre público e músico, melhor.

Claro, outros segmentos da música sofrem para conseguir uma performance similar, mas não é possível comparar. Gêneros como funk, pop, rock, EDM (música eletrônica) pedem outros ambientes sonoros para funcionar.

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O rapper/trapper Travis Scott, por exemplo, fez um performance no Fortinite, game online que é febre, e atraiu 12,3 milhões de pessoas. Foi surreal. 

E aí está o pulo do gato.

As redes sociais quebraram barreiras

Nem todos os gêneros funcionam em voz e violão durante uma live, mas isso não significa que artistas devam parar e esperar passar o isolamento social. Justamente porque a comunicação da música mudou completamente desde o estabelecimento do streaming como plataforma e das redes sociais como lugar de troca.

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Até os anos 2000, a comunicação entre artista e fã tinha duas opções principais: os jornalistas (em jornais, revistas, rádio, TV) ou nos shows. Não tinha outra forma eficiente - claro, as cartas eram incríveis, mas elas não representam a quantidade de DMs que um artista recebe hoje, assim como MySpace, sites oficiais e blogs e Fotolog eram nichados demais.

Instagram, Facebook, TikTok, hoje, são todos ferramentas de comunicação direta. E são eles que precisam ser muito bem trabalhados nesses tempos.Já eram fundamentais antes e são ainda mais agora.

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É preciso entender que vivemos em bolhas musicais cada vez mais específicas e difíceis de se furar. O que significa que um artista pode, muito bem, sobreviver dentro do seu nicho sem ter grandes pretensões de ser frequentemente reconhecido no supermercado. E isso é ótimo.

Dentro desse formato, a engrenagem financeira girava em torno dos shows ao vivo - já que a arrecadação por streaming é baixíssima e, por vezes, é preciso ser dividida entre todos os integrantes de uma banda, por exemplo. A Rolling Stone Brasil produziu alguns textos sobre como artistas estão trabalhando para sobreviver financeiramente sem a grana dos shows (leia aqui).

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De volta às redes sociais, elas todas são lideradas pelos odiosos algoritmos, sobre os quais falei antes. Esse algoritmo determina se o conteúdo do artista X vai de fato chegar ao público que o segue nessas redes. Como melhorá-lo? Bom, especialistas em redes sociais ganham a vida ensinando isso em workshops, mas o que posso dizer é: com conteúdo que gere engajamento.

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Puts, chato isso, né? Eu sei, mas também já escrevi isso, ser músico nesse século não é só lançar um álbum fantástico e esperar que ele cresça sozinho no ouvido de pessoas que recebem uma tonelada de informação via celular por minuto.

E também não adianta boicotar as redes sociais, reclamar do Facebook e Instagram ou coisa do tipo. Por mais odioso que seja o algorítimo, é ele quem comanda o jogo por enquanto. Para a maioria que consome música nos moldes do século 21, o celular já é uma extensão do corpo humano (goste dele ou não) e essas pessoas estão nas redes sociais.

E a não ser que o músico/artista seja também videomaker, influencer, fotógrafo ou saiba produzir conteúdo que não seja à música, a única forma de combater o ostracismo das redes sociais é entregando posts, stories, etc, que tenham a música como foco.

É provado que lançamentos de singles picados, um por mês, dão um crescimento nos números nas plataformas de streaming. O mesmo se dá em outras redes como YouTube, Instagram, Facebook, etc.

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É possível fazer ações relacionadas à produção de música nessas redes sociais, também. Um diário de um disco de quarentena, por exemplo, é uma ideia. Existem milhares de possibilidades: criação de playlists, lives com bate papo, lives com processo de gravação, posts com sugestões de temas para músicas, votações por stories. Tudo pode funcionar.

No fim das contas, quem segue o artista em redes sociais quer proximidade com o ídolo e saber mais de tudo relacionado a ele. Por que não, portanto, entender esse momento de isolamento social como um lugar de se aproximar de quem segue a banda/artista?

Discos de quarentena versos discos "normais"

O grande debate nessa discussão toda talvez seja esse, já que entreguei a resposta para a pergunta do título no primeiro parágrafo. Aí, depende de dois aspectos fundamentais: o feeling desse artista e o som que ele produz.

Trata-se de uma música que é boa para se ouvir em casa nesse processo? Nem que seja para fazer uma festinha por vídeochamada com amigos, para acompanhar momentos de leitura de um livro ou sei lá. O som tem que funcionar dentro disso que vivemos hoje. Isso é fundamental.

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E isso pode variar, entende? Dua Lipa lançou um discaço chamado Future Nostalgia, ultra pop retrô que é delicioso para acordar no pique ou fazer exercícios em casa, por exemplo. Já Charli XCX também soltou um disco pop de nome How I'm Feeling Right Now que trata justamente do que ela está sentindo durante essa quarentena. Lady Gaga adiou e depois lançou Chromatica, o álbum dela que marca o retorno ao pop.

Pô, o Rico Dalasam está com um EP lindíssimo na praça chamado Dolores Gala, o Guardião do Afeto, no qual ele ressignifica acontecimentos com ele dos últimos 3 anos, bastante dolorosos, em um ambiente lúdico que é a música.

A Mahmundi apresentou o Mundo Novo, um álbum solar feito com banda pela primeira vez na carreira dela em um período pré-quarentena. E é solar. Falei sobre ele nos meus stories do Instagram, dia desses, e sabe quais foi a resposta que recebi? "Esse disco iluminou a minha quarentena".

Percebem?

A questão talvez não seja lançar ou não lançar. Afinal, lançar sempre foi preciso, desde antes da pandemia. O principal é entender como lançar e o que lançar. Disco que estava planejado? Começar algo do zero? Criar ferramentas de comunicação com o público. Tudo depende do público e do artista.

Música é expressão. É arte. E arte é comunicação. Vivemos em tempos de coronavírus, de medo, de incerteza de quando vamos ouvir música juntos, mas isso não quer dizer que não estamos ouvindo. Estamos aprendendo a nos comunicar de outras formas, cada um dentro da própria casa - pô, existem até baladas online agora. A música precisa entender isso também.